Democracia e Comunicação

Na dinâmica que mantém e assegura as democracias, todos os atores sociais possuem um papel. Com a digitalização cada vez mais acelerada, é preciso que esses atores – em especial, as empresas – compreendam melhor os fenômenos da sociedade da informação, para atender às necessidades de ação, comunicação e posicionamento público. É com esse intuito que o blog Democracia e Comunicação traz, em parceria com a Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV, reflexões sobre democracia digital, redes sociais e desinformação, alinhados ao fato de que as empresas estão assumindo um novo papel social e que, dentro dessa responsabilidade, está também a garantia de uma sociedade democrática.

O desafio do ciberpopulismo para a democracia brasileira
25 de junho de 2021
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O ciberpopulismo é uma ameaça real à democracia. Mata e destrói, provoca sofrimento, diminui as nações, afasta as pessoas, limita a inteligência. Meu livro, Ciberpopulismo – Política e democracia no mundo digital (Editora Contexto), propõe abordar o impacto da comunicação digital em rede nas democracias e a polarização desde uma óptica que sirva para orientar a análise e a articulação de antídotos.

Para entender o fenômeno é necessário um conceito de comunicação além da mera troca de mensagens entre um emissor e um receptor: é um traço existencial do ser humano. A Humanidade e o indivíduo se constituem na comunicação. Somos homo communicans: a comunicação é nosso diferencial evolutivo, aquilo que permitiu a sobrevivência da espécie e que está por trás do desenvolvimento das capacidades humanas.

Se a comunicação constitui a humanidade e os indivíduos, então alterações nos modos de comunicar mudam o jeito de ser humano. Os avanços na tecnologia têm impacto profundo na maneira em que nos relacionamos com nossos semelhantes, mas também na constituição de nossas identidades individuais e coletivas. Identidade, segundo a Filosofia Hermenêutica, é uma narração, a história que cada um conta sobre si mesmo a si próprio e aos outros; há identidades individuais e também identidades coletivas. Assim, podemos dizer que “somos com, para e pelos outros”. O individualismo, que ignora a dimensão plural do ser humano, é causa de sofrimento individual e coletivo. Por isso, não basta ter os meios para nos comunicarmos com qualquer humano do planeta, é mister dar lugar ao que alguns povos africanos chamam ubuntu: uma forma de entender o mundo que não pode prescindir dos outros seres que me rodeiam, me antecedem e irão me suceder.

Uma nação é uma identidade coletiva que se conta a partir de fatos fundadores (guerras, revoluções…) e de heróis e figuras históricas. Sustentam essa identidade as instituições (as leis, a Constituição…), a língua e alguns acordos comuns, sempre em revisão. A comunicação sustenta esses acordos e os mantém atualizados. Conflitos e convergência de interesses resolvem-se com base nos acordos comuns. A democracia é uma forma de regular os conflitos no interior de uma sociedade com base nesses acordos, que sempre têm formato de narração pois se inserem na identidade coletiva da nação. Assim, na luta pelo poder, a elaboração de narrativas é fator central.

A disputa pelos meios de formar opiniões e visões de mundo remonta à origem das sociedades humanas. É o que se chama de poder simbólico. Por séculos, a Igreja teve um quase monopólio deste poder, que negociava com os governantes seculares: o mundo era entendido da maneira em que diziam as Escrituras, interpretadas e narradas pelos representantes de Deus na Terra. Este poder vinha do domínio dos canais de comunicação, que eram a reprodução manual de livros e os sermões nas igrejas. A invenção da imprensa de tipos móveis alterou os fundamentos desse poder e provocou um desenvolvimento acelerado das ciências e dos modelos de organização do coletivo. O capitalismo e a democracia nasceram junto com os meios de comunicação que viriam, mais tarde, constituir o sistema chamado de mass media. Os meios de comunicação passaram a ocupar um lugar central no desenvolvimento das nações modernas, no século XX.

Mas o mundo mudou e o sistema de meios foi fortemente alterado pela nova economia; vinte anos atrás, era impensável um candidato ganhar a eleição contra os maiores grupos midiáticos de um país. Isso não é mais verdadeiro, no Brasil e em muitos outros países, e a mudança tem consequências para o sistema democrático. Há avanços e retrocessos que estão diretamente ligados com a maneira de se comunicar, com a possibilidade real de influenciar nos acordos que fundamentam a identidade coletiva e as identidades individuais. A concentração de poder em umas poucas empresas transnacionais (que fogem ao controle do Estados) e o acesso a recursos ainda não regulamentados e sem controles públicos gera distorções no desenvolvimento das democracias. Tradicionalmente, o sistema dos mass media servia como mediador, filtrando as mensagens e impedindo que vozes antidemocráticas ganhassem visibilidade e relevância. Da mesma maneira o sistema de partidos políticos filtrava as vozes dos extremos, impedindo ou tornando muito difícil a chegada de candidatos antissistema ao poder efetivo. Mas a sociedade digital eliminou ou reduziu o papel dos intermediários: os meios de comunicação e os partidos políticos perderam o protagonismo que tiveram no século XX.

Ciberpopulismo, o que é

O populismo é uma estrutura narrativa que põe em jogo um inimigo, um povo e um salvador: o inimigo e o povo mudam de forma e de figura segundo as necessidades do salvador, que é sempre aquele que quer se apossar do poder. A comunicação em rede e a ciência de dados permitem chegar de maneira muito bem direcionada em cada pessoa, potencializando o efeito já forte da narrativa populista em níveis antes inimagináveis. Assim, a combinação de uma técnica narrativa tão antiga como a democracia, o populismo, com as tecnologias mais modernas de comunicação, deu lugar à irrupção de um novo movimento político de dimensões globais. Se o populismo tradicional tinha elegido e sustentado Hitler, Mussolini, Perón e Chávez, a versão em rede serviu para colocar no poder gente como Trump e Bolsonaro.

Alguns paradoxos dificultam a análise. A comunicação digital em rede abriu espaço para que pessoas normalmente silenciosas ou silenciadas pudessem se manifestar: gente que não militava nas ruas passou a reproduzir suas opiniões nas redes sociais. Grupos sub-representados pela política tradicional e ameaçados ou silenciados pela democracia moderna ganharam voz. As massas operárias pauperizadas das regiões industriais da Europa e dos Estados Unidos, o “homem comum” brasileiro, o cidadão que normalmente se manifestava apenas no voto, maioria silenciosa que olhava com desconfiança os movimentos identitários, os avanços da globalização e a modernização dos costumes. Mas, por outro lado, um aproveitamento intencional da força do ódio e da indignação fez com que o ruim virasse combustível da política. Conflitos ancestrais se atualizaram nas redes sociais, onde cancelar, provocar e insultar viraram verbos aceitáveis para um grande número de cidadãos que na vida normal são pessoas amáveis e gentis. A homofobia saiu do armário, a ficção da sociedade mista deu lugar ao racismo concreto. O espelho das primeiras eleições brasileiras sob o signo da ciberpolítica mostrou um rosto assustadoramente feio. Onde se podia esperar que a comunicação otimizada e a transparência rendessem mais democracia, comprovamos o efeito inverso.

O ciberpopulismo demanda e alimenta uma fratura, uma cisão da sociedade. Sem um inimigo, não há um salvador do povo e todo o edifício populista cai por terra. Por isso, transformar o adversário em inimigo, promover uma fratura na sociedade e sustentar uma polarização são indispensáveis. Vemos isso acontecendo no Brasil. Havia uma polarização PT-Anti PT e hoje a essa, que ainda está instalada, soma-se uma outra: democracia- anti-democracia. Essa dupla polarização entre extremos assimétricos irá marcar a próxima eleição.

Sair da armadilha da polarização é certamente mais difícil do que cair nela. No curto prazo, nem há como: uma polarização que tenha como seu oposto um projeto autoritário e manifestamente oposto às instituições é necessária. Já no médio e longo, as chances são poucas e exigirão diálogo e pluralismo, praticar o pensamento crítico e aprender a escutar. Precisaremos aceitar o diverso e buscar as razões profundas da ira e da indignação dos excluídos, cultivar o exercício de se colocar no lugar do outro, mesmo aquele outro que fez uma escolha tão diversa da minha. Sem isso tudo, não há como voltar a uma democracia plena nem há chances de uma restauração da sociedade. Mas o que mais precisa o Brasil para sobreviver aos desafios que ele mesmo se colocou é praticar o ubuntu: saber que não há quem possa viver sem os outros.

 
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