Diversidade racial nas empresas

Novembro é o mês da Consciência Negra. O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, por isso a data costuma ser lembrada mais pelo feriado em algumas cidades que pelo aspecto político propriamente dito. Depois que o penúltimo mês do ano termina, é comum que as discussões sobre racismo no trabalho fiquem engavetadas até o próximo 20/11. Vamos inverter esta lógica?
O tema é delicado e, a princípio, pode parecer que não tem a ver com você, leitor (a) branco (a). Mas peço que me acompanhe nesta reflexão. Em tempos meio cinzas, como os que vivemos agora, é fundamental o engajamento de aliados em todas as lutas sociais, ainda que a questão, a princípio, não diga respeito a cada um de nós, individualmente.
Pare e pense: quantos (as) colegas negros (as) trabalham contigo? Quantos desses estão em posição de liderança? E fora do ambiente organizacional, quantas vezes, por exemplo, você já foi atendido por um médico negro?
É altamente provável que você engasgue em pelo menos duas destas perguntas e a explicação está na estrutura da nossa sociedade. É preciso assumir que o Brasil é um país marcado pelo racismo e o acesso às posições de prestígio e poder ainda está muito associado à cor da pele e à classe social.
Essas variáveis, muitas vezes interseccionadas, limitam o acesso às melhores escolas e universidades e reverberam no mercado de trabalho.
O resultado aparece em todos os setores, mas vou trazer alguns números da minha área de atuação, a publicidade: um estudo feito com as 50 maiores agências do país apontou que apenas 3 CEOs eram negros. Nenhuma negra. Entre os demais funcionários, a situação também não era melhor: só 3,5% dos trabalhadores das maiores agências de propaganda do Brasil são negros.
De forma geral, segundo o DIEESE, pessoas negras recebem 37% menos que pessoas brancas. E são a maioria entre as desempregadas: 60% do total.
“Ah, mas essa é uma questão social e não tem a ver com as empresas”, você poderia argumentar. “Justamente porque é uma questão social tem tudo a ver com as empresas”, eu retrucaria. Nossas organizações inovam, produzem conhecimento e geram empregos, mas também lucram e extraem recursos da sociedade. Nada mais justo que se envolvam nas principais questões do país e ajudem na elaboração de soluções para os grandes desafios nacionais.
Deixo alguns destes desafios para você: a cada promoção na sua empresa, pergunte-se se um (a) negro (a) poderia ocupar aquele novo cargo. Visibilidade importa e faz diferença na trajetória de grupos historicamente minorizados.
Na abertura de processos seletivos, estimule a participação de candidatos (as) negros (as). Há meios para isso. Você pode recorrer a universidades ou a consultorias especializadas, por exemplo.
Tornar os ambientes de trabalho mais diversos e discutir a questão do racismo para além de datas simbólicas é um passo para a construção de organizações mais saudáveis e de uma sociedade mais justa. E não é justamente isso que todos nós queremos?
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