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21 de outubro de 2026

“Sem pódio de chegada ou beijo de namorada”

Carlos Parente
 
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Dias desses, observando e analisando como vêm se desenrolando os acontecimentos, as engrenagens e as peripécias das eleições no Brasil, me veio à mente a frase brilhante que dá nome a esta coluna: “Sem pódio de chegada ou beijo de namorada”. Faz parte da letra da música “O Tempo Não Para”, do saudoso cantor, compositor e poeta Cazuza, lançada em 1988, no álbum do mesmo nome.

Essa frase tem a ver com o que sinto no momento atual da política eleitoral brasileira. Ao final desse processo, será que teremos pódio de chegada? Ou beijo de namorada(o)? Será que teremos o que comemorar, independentemente de quem vença a eleição?

O fio do meu pensamento não parou nisso. Junto com a música veio também a lembrança de um… filme! Ou filmes. A saga Rocky (ou Rocky, Um Lutador, como ficou no título nos cinemas nacionais o primeiro filme da saga). Lançado no Brasil em janeiro de 1977, o primeiro filme conta a história de Rocky Balboa, um boxeador amador da Filadélfia. Sua vida muda completamente quando, por um acaso do destino, o campeão mundial dos pesos pesados, Apollo Creed, decide dar a um lutador desconhecido (no caso o Rocky!) a chance de disputar o título mundial contra ele, já que o adversário originalmente marcado para uma luta contra o Apollo havia se machucado. Contra todas as probabilidades, Rocky inicia um treinamento intenso e disciplinado para provar a si mesmo e ao mundo que ele é capaz e que não é um “fracassado”. De maneira surpreendente para o Apollo, a luta é muito mais dura e difícil do que ele imaginava. Apollo havia subestimado Rocky. A vitória veio para Apollo, porém, foi apertadíssima, por pontos, em decisão dividida dos juízes. 

Já o filme Rocky II, lançado em 1979, mostra que, embora tenha vencido aquela luta por pontos, Apollo sai do ringue com a reputação manchada. O público e a mídia passam a acusá-lo de ter sido favorecido pelos juízes e de não conseguir derrotar um amador de forma convincente. Ferido em seu enorme orgulho, ele fica obcecado em forçar Rocky a aceitar uma revanche para provar que a primeira luta foi apenas um golpe de sorte. Contudo, na revanche histórica, Rocky Balboa derrota Apollo Creed por nocaute, nos segundos finais do último round e se torna o novo campeão mundial dos pesos pesados. Mas, a que custo? 

O final da luta é antológico e não me canso de rever. Os dois lutadores chegam ao último round exaustos, com as forças completamente exauridas, cambaleando, com os rostos desfigurados pelos violentos golpes trocados. Após dar o último soco, que seria o nocaute, Rocky cai junto com Apollo. Os dois vão à lona simultaneamente. Seguem momentos de tensão e expectativa e, quase que por um milagre, Rocky se levanta nos segundos finais da contagem e é declarado campeão. A cena do discurso do vencedor nos transmite uma sensação completamente agridoce.

É o que me parece o momento atual da disputa eleitoral. A que custo teremos um novo presidente? O país está dividido, rachado, polarizado e bifurcado. Que futuro teremos? Como será a governabilidade? Há sérios problemas que o país precisa enfrentar, nas áreas da saúde, educação, segurança pública, economia…A desigualdade social é gritante e a saúde, particularmente, me incomoda. A taxa de realização de mamografias no país, por exemplo, é de cerca de 24% (dados divulgados em 2025), muito longe da meta de 70% preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Terrível! A cobertura vacinal precisa voltar aos níveis pré-2020, pois não mais voltou a ser a mesma após a pandemia de Covid-19 no Brasil. As mudanças climáticas, juntamente com as intenções criminosas, também cobram seu preço na saúde: a Região Norte está atualmente imersa em fumaça oriunda de queimadas (muitas delas de origem criminosa), e esta fumaça, entre outras consequências, piora muito os índices de saúde pública na região. E por aí vai…apenas um pequeno recorte de alguns problemas, diante de tantos outros que temos pela frente…

No entanto, o que vemos em entrevistas, debate, aparições e manifestações dos candidatos é um festival sem fim de acusações mútuas, agravadas pelos recortes da superficialidade das redes sociais. Muita coisa a ser feita, mas a verdade é a maior vítima. Não se discutem propostas efetivas. A sociedade está na lona, todos nós perdemos.

No final de 2023, estive em Dubai, para participar da COP28, como convidado de uma agência de comunicação. No hotel em que fiquei hospedado, um aspecto que notamos foi a falta de diversidade nas pessoas, nas equipes. Nas fotos dos elevadores, nos halls, nos corredores, na recepção. Quando indagamos o encarregado sobre o assunto, ele abriu um sorriso e disparou: “Vocês estão certos. Entendo vocês. Mas aqui, essa questão não está nem entre os meus TOP 10 de assuntos com os quais me preocupo. Penso mais é se meus funcionários estão bem alimentados, se têm abrigo, se não precisam ‘revezar a cama’, se quando um fica gripado os outros oito que dividem a mesma kitnet também adoecem… O país de vocês [Brasil] é lindo, tive a oportunidade de morar lá por dois anos, atuando na Cruz Vermelha, porém não adianta ficar com uma discussão de Suécia se a realidade é de Angola”. Foi um soco no estômago pra mim, e me levou a uma profunda reflexão. A desigualdade, sempre ela. A população de baixa renda em Dubai, formada por trabalhadores migrantes vindos de outros países, como Índia, Paquistão, Bangladesh e Filipinas, vive em uma realidade que contrasta fortemente com o luxo dos arranha-céus da cidade. Me lembrei do termo “Belíndia”, cunhado pelo economista Edmar Bacha em 1974, para criticar a desigualdade social e o “milagre econômico” durante a ditadura militar no Brasil. Uma mistura de Bélgica com Índia (na época). 

No cinema, a luta acaba, o árbitro ergue o braço de um dos dois e o ginásio vem abaixo. Na vida real, nos próximos dias as urnas dirão quem levanta o braço. O que elas não dirão é quem levanta o país, que chega à contagem final emocionalmente em frangalhos, cansado de acusações e faminto de propostas e de melhorias. Não questiono a vitória de ninguém, muito menos a legitimidade do resultado. Apenas não vejo pódio de chegada, nem beijo de namorada(o). O que vejo é muito trabalho pela frente, e um Brasil que vai precisar de mais gente disposta a construir do que a golpear.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Carlos Parente

Graduado em Administração de Empresas pela UFBA, com MBA em Marketing pela FEA USP, possui um sólido histórico de experiência em Relações Institucionais & Governamentais, Comunicação Corporativa e Advocacy, com participações e lideranças em processos de comunicação estratégica, inclusive internacionais. Carlos Parente é sócio-diretor da Midfield Consulting.

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