A grandeza dos pequenos rituais do trabalho

Em um mundo organizacional obcecado por produtividade, velocidade, indicadores e resultados, talvez estejamos negligenciando acontecimentos aparentemente banais: receber um novo colega, compartilhar um café, celebrar uma conquista, reconhecer um gesto de solidariedade ou despedir-nos de alguém que se aposenta. Por que esses pequenos acontecimentos são tão importantes? Porque, em meio à rotina produtiva, eles criam momentos extraordinários de humanidade.
Em minha disciplina Memórias, Rituais e Narrativas da Experiência, ministrada há cerca de 20 anos na Universidade de São Paulo, no âmbito da formação de mestres e doutores em Comunicação, e em outras experiências acadêmicas e profissionais, tenho procurado responder a essas perguntas. Uma convicção atravessa essas reflexões: os rituais não são acessórios da vida organizacional. São tecnologias culturais milenares de produção de sentido, memória e pertencimento.
Recorro aqui a uma das formulações mais conhecidas do psicólogo social Kurt Lewin: “Não há nada mais prático do que uma boa teoria”. Inspirado por essa ideia, convido o leitor a uma breve incursão por algumas contribuições teóricas que considero especialmente fecundas para compreender a importância dos pequenos rituais no cotidiano das organizações. Afinal, uma boa teoria não nos afasta da realidade: ajuda-nos a enxergar aquilo que, muitas vezes, a familiaridade com o cotidiano tornou invisível.
O antropólogo Arnold van Gennep demonstrou que as sociedades organizam suas grandes transições por meio de ritos de passagem. Chegar, pertencer e partir não são apenas movimentos administrativos. São transformações simbólicas. A integração de um trabalhador não deveria se limitar à entrega de equipamentos, senhas e manuais. É o momento em que uma organização acolhe uma biografia, uma memória, uma pessoa que chega trazendo seu próprio mundo.
Erving Goffman, ao estudar os rituais da interação cotidiana, revelou a importância dos cumprimentos, agradecimentos e pequenos gestos de consideração. São cerimônias discretas que reconhecem a dignidade do outro. Um elogio sincero ou uma homenagem inesperada podem produzir mais pertencimento do que sofisticadas campanhas de comunicação interna. Recordo-me de um encontro com comunicadores associados à Aberje, no qual Jerome Cadier, CEO da LATAM Airlines Brasil, destacou a importância de duas palavras aparentemente simples: “parabéns” e “obrigado”. Para ele, essas expressões ocupam um lugar estelar nas interações entre os milhares de profissionais que constituem a companhia. Sua observação nos convida a reconhecer que a cultura de uma organização também se constrói nesses pequenos rituais de gratidão e reconhecimento. Afinal, agradecer é reconhecer a contribuição do outro; parabenizar é conferir significado às suas realizações. Gestos que, embora breves, podem deixar marcas duradouras na memória e na experiência de quem os recebe.
Há também uma extraordinária antropologia ao redor da mesa. Compartilhar um pão, um café ou uma refeição é uma prática ancestral que atravessa as fronteiras do profano e do sagrado. O alimento não nutre apenas o corpo: alimenta vínculos, memórias e confiança. Na pausa para o café, a organização deixa momentaneamente de ser organograma. Surgem histórias, afetos e conversas que dificilmente caberiam na pauta de uma reunião.
Victor Turner chamou de communitas a experiência de comunhão que pode emergir quando as hierarquias habituais são temporariamente suspensas. Esses encontros podem abrir espaços semelhantes de reconhecimento mútuo.
E há as despedidas. A aposentadoria, a transferência, a morte de um colega. Quando uma organização não ritualiza essas passagens, corre o risco de tratar vidas como registros que simplesmente desaparecem de seus sistemas. Despedir-se é reconhecer uma trajetória e inscrevê-la na memória coletiva.
Rituais não são encenações artificiais
Hartmut Rosa nos ajuda a compreender outra dimensão desses acontecimentos. Em uma sociedade acelerada, precisamos de ressonância: experiências nas quais somos afetados pelo mundo e respondemos a ele. Os rituais podem criar essas condições. Mas é preciso cuidado. Rituais não podem ser encenações artificiais de pertencimento nem instrumentos de exclusão. Sua força está na autenticidade, na participação e no reconhecimento das diferenças.
Tenho defendido que o ritual é uma tecnologia de sentido. Ele interrompe a sucessão indiferenciada dos acontecimentos e declara: isto importa.
Talvez seja hora de compreender que os pequenos rituais não são interrupções improdutivas do trabalho. São experiências que devolvem humanidade ao trabalho e significado à produtividade. Porque uma organização não vive apenas daquilo que produz. Vive também daquilo que seus integrantes experimentam, compartilham, celebram e jamais esquecem.
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