Comunicação Relacional como fator de proteção da saúde mental

O aperto no peito começa antes mesmo do primeiro café, depois de uma noite mal dormida. No caminho para o trabalho, só em pensar na rotina acelerada, nas mensagens acumuladas, nas reuniões que se sobrepõem e no chefe que não escuta e só cobra resultados, aumenta a sensação constante de que algo está fora do lugar. E voltar para casa, ao fim do dia, também não é um alívio diante de tantos problemas a serem encarados. Nos últimos anos, para milhares de profissionais, o trabalho deixou de ser um espaço de realização e passou a ser fonte de angústia, ansiedade e depressão.
Tenho certeza de que, como eu, você também já presenciou situações similares a essa muitas e muitas vezes. E a tendência é que vejamos cada vez mais, se não agirmos depressa. O Brasil registrou, em 2025, 546 mil licenças do trabalho por transtornos mentais, 15,6% a mais do que em 2024 – ano em que os casos cresceram 67% quando comparados a 2023. Esses são dados oficiais do Ministério da Previdência e mostram uma tendência de aumento ano a ano. É assustador. E não dá para ficar olhando sem fazer nada a respeito.
Infelizmente, como quase tudo em nosso País, muitos só acordam para o problema pela força da lei. É esse despertar que estamos observando em inúmeras empresas às portas da NR-1, norma que entrou em vigor em maio de 2026 e que inclui os riscos psicossociais entre os riscos organizacionais. Na prática, as companhias precisam cumprir exigências como conhecer em profundidade qual o perfil de possíveis doenças mentais dos seus empregados e demonstrar ações para minimizar esses riscos.
Diante desse cenário, observamos uma corrida das áreas de Recursos Humanos para se enquadrarem no que pede a norma. Mas essa corrida será em vão se as lideranças das empresas não estiverem conscientes do seu papel na busca por manter a saúde mental dos seus liderados em dia. E aqui nós temos um enorme desafio: mais de 35% dos líderes empresariais no Brasil não sabem do que se trata a NR-1, de acordo com recente pesquisa divulgada pela consultoria Robert Half.
A pergunta que você pode estar se fazendo ao ler este artigo é: “O que eu, comunicador, tenho a ver com isso? Eu já tenho muitas demandas na minha cesta de entregas para me preocupar com mais essa frente… O RH que cuide disso.” Mas que tal enxergar esse desafio como oportunidade para fazermos um trabalho ainda mais estratégico dentro das organizações e com um impacto real no clima e na produtividade da empresa?
Acompanhe meu raciocínio: um líder que não se comunica bem não inspira, não gera confiança, não consegue se conectar com o seu time e pode impactar negativamente o clima da empresa. Por outro lado, um gestor que inspira sabe escutar e consegue tocar o coração das pessoas com uma comunicação clara e assertiva, contribui positivamente para o ambiente organizacional.
A pesquisa sobre liderança e segurança psicológica (Nature, 2026) publicada na Scientific Reports analisou como os comportamentos de lideranças moldam a segurança psicológica nas organizações. A conclusão do estudo mostrou que os comportamentos dos líderes exercem papel decisivo na forma como os colaboradores percebem o ambiente de trabalho. A qualidade da comunicação, o nível de apoio e a consistência das relações influenciam diretamente em como as pessoas se sentem seguras para falar, expor dúvidas ou pedir ajuda. Em contextos onde essa segurança está presente, há maior participação, mais abertura ao aprendizado com erros e melhores níveis de bem-estar, gerando resultados cada vez melhores.
Nós, comunicadores, podemos ajudar os líderes a entenderem que se comunicar bem não é mais uma tarefa para ele desempenhar no seu dia já tão cheio de atividades. Comunicar-se bem é habilidade necessária para ser um líder melhor, aliás, uma pessoa melhor. Capaz de inspirar, motivar, engajar seu time para buscar excelentes resultados, contribuindo para um ambiente humano e acolhedor, onde profissionais têm bons desempenhos e se sentem bem fazendo suas atividades.
Essa comunicação relacional – na qual acreditamos e que sugerimos em nossos trabalhos – vai muito além de passar uma informação, ela cria vínculos, gera confiança, conexão, mobiliza e fortalece as relações. E nesse ponto nós podemos fazer a diferença para elevar a nossa entrega dentro das organizações. Da mesma maneira que treinamos nossos líderes para falar bem com a imprensa ou se posicionar de modo alinhado aos valores da empresa no LinkedIn, ou em outras redes sociais, precisamos dar o mesmo apoio para eles se tornarem excelentes comunicadores para seus times. Líderes capazes de passar informações claras, de maneira próxima e humanizada, criando vínculos reais com a equipe.
E acreditem: eles querem isso. De acordo com levantamento recente da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), 58% dos CEOs e gestores apontam a comunicação assertiva como a habilidade mais importante para o futuro da liderança. Apenas 18%, porém, dizem dominar bem essa habilidade. A pesquisa mostra que eles querem aprender, desejam se comunicar melhor. E nós, comunicadores, temos expertise para apoiá-los nessa jornada de aprendizado.
Nunca houve um ambiente tão propício para trabalharmos nossos líderes para uma comunicação mais humana e que promova o relacionamento como agora. Estou convencida disso. O contexto da NR-1 abriu esse espaço para avançarmos em nosso propósito de desenvolver de fato líderes comunicadores, contribuindo para o fortalecimento da cultura das empresas e, ao mesmo tempo, construindo um ambiente de segurança, bem-estar e, claro, com resultados que tragam cada vez mais valor para as companhias e seus públicos de interesse.
ARTIGOS E COLUNAS
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