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09 de setembro de 2026

Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu!

Carlos Parente
 
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A despeito da explosão de informações, dados, diálogos e discussões nas redes sociais e nos meios de comunicação digitais, será que todas as pessoas se fazem “presentes” neste novo mundo em que vivemos?

Ouso dizer que ainda existe uma coisa chamada invisibilidade. É certo que: postar em demasia, hoje em dia, não é, automaticamente, sinal de relevância, muito menos confere autoridade sobre um assunto a alguém. A visibilidade excessiva não gera visibilidade efetiva, e não representa importância ou relevância. 

Pode soar estranho falar em invisibilidade com tantos posts, mensagens, feeds, vídeos, áudios e por aí vai, mas há pessoas que optam por serem mais discretas no mundo virtual, e há aqueles ou aquelas que simplesmente não são enxergados(as) ou são deixados(as) de lado. É sobre estes últimos que quero me deter um pouco, especialmente quando tratamos do ambiente de trabalho.

“Em terra de cego, quem tem um olho é rei!”. Segundo o consultor e conferencista brasileiro Stephen Kanitz (1946-2025), nenhum ditado popular explica tão bem os problemas do Brasil. “Ele [o ditado] mostra por que existe tanta gente incompetente dirigindo nossas empresas e nossas instituições. Mostra também por que é tão fácil chegar ao topo da pirâmide social sem muita visão ou competência. Basta ter um mínimo de conhecimento para sair pontificando soluções. Todo mundo palpita em economia e futebol como se fosse Ph.D. no assunto. Se nossos técnicos de futebol tivessem ouvido os palpiteiros, jamais seríamos pentacampeões mundiais de futebol.

Por isso temos alguns excessivamente acadêmicos, que se acham predestinados a dirigir nossa vida com muita teoria e pouca vivência.” Qualquer semelhança com o mundo real não é mera coincidência…rsss…E ele continua: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei, e quem tem dois olhos é muito malvisto”. “Indivíduos inteligentes e capazes são encarados como uma enorme ameaça e precisam ser rapidamente eliminados pelos que estão no poder. Por essa razão, pessoas com mérito e competência dificilmente são promovidas no Brasil”, pondera Kanitz. Li esse artigo, na revista Veja, em 2003. Lá se vão 23 anos e exageros à parte, isso continua tão atual…

Tem momentos, em nossas vidas profissionais e/ou corporativas, que funcionam como uma “virada de chave”. Quando li esse artigo, pra mim foi um desses momentos. Depois de devorar o texto, tive vários insights e a terra se abriu à minha frente, mostrando novos entendimentos. E aí percebi, entre outras coisas, como parecia ser difícil, muitas vezes, para o nosso chefe ou nosso gestor, acreditar no nosso potencial e/ou ouvir a nossa opinião. Invariavelmente a opinião de fora é que ganhava destaque e fazia as coisas acontecerem. Vários fatores podem explicar: síndrome do vira-lata, desconfiança exagerada, ego ao extremo de quem deveria ouvir ou se atentar, enfim. E aí resolvi adaptar o ditado: “Em empresa de cego, quem tem um olho é o consultor!”. Já presenciei consultoria renomada ser contratada a peso de ouro, desfiar uma apresentação sofisticadíssima, embalada por uma narrativa muito bem construída e convincente, mas que basicamente discorria sobre impressões e diagnósticos que já eram, de alguma maneira, de conhecimento da equipe, com conclusões igualmente nada surpreendentes!

Vale dizer que fui picado pela mosca azul também. Principalmente após os 40 anos, quando passei a incorporar a estratégia, em empresas em que trabalhei, de chamar um palestrante ou consultor externo quando eu queria aportar maior densidade e relevância a um determinado assunto. O que aumentaria muito as chances de aprovação e implementação de novos conceitos. Efeito-plateia? Blindagem? Conveniência? Um pouco de tudo isso? Não sei dizer, e a vida seguiu. Mas essa caraminhola ficou escondida, latente em minha cabeça, pronta para vir à tona.

Tempos depois, ouvindo a cantora e compositora Pitty, outra “ficha caiu”! Era o seu segundo álbum, chamado “Anacrônico”, que havia sido lançado em 2005. Eu gostei de quase tudo nesse disco, mas uma música me chamou a atenção: “Na Sua Estante”.

A letra dessa belíssima canção aborda, também, a questão da invisibilidade. A ideia central é: eu estava o tempo todo aqui, mas você só me via como algo a mais na sua estante. Quando nos recusamos a “ficar bem na sua estante”, rejeitamos o papel de objeto decorativo, mostrando que não aceitamos ser tratados como algo descartável, com a dor de quem se entrega e não é reconhecido. Trechos como “Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu” e “Dessa vez eu já vesti minha armadura” mostram o ressentimento por não sermos notados, mas também a força de quem aprende a se proteger e a seguir em frente.

Anos mais tarde, assistindo a um show dela, in loco, percebi o quanto ouvir essa canção ao vivo é impactante, marcante, uma verdadeira catarse emocional, ainda mais com o entendimento desse significado da letra!

A analogia para o nosso cotidiano salta aos olhos. Quando a relação de alguém conosco é apenas utilitária, a sensação de ficar cada vez mais na estante desse alguém é muito presente. Não quero produzir um Van Gogh por semana, mas também não quero ficar bem somente na estante…Devemos nos esforçar para buscar esse equilíbrio sempre que necessário. Para nós, que atuamos com comunicação, é crucial! Não é só sobre relações humanas e/ou afetivas, é sobre a pessoa da equipe ou do time, que está ao lado todos os dias e nunca é chamada para opinar. “Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”…

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Carlos Parente

Graduado em Administração de Empresas pela UFBA, com MBA em Marketing pela FEA USP, possui um sólido histórico de experiência em Relações Institucionais & Governamentais, Comunicação Corporativa e Advocacy, com participações e lideranças em processos de comunicação estratégica, inclusive internacionais. Carlos Parente é sócio-diretor da Midfield Consulting.

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