Mircea Eliade na Cidade Universitária

Notas para a aula Memórias Rituais, Narrativas da Experiência, de 21 de maior de 2026.
Os dias desta semana trouxeram à Cidade Universitária um clima raro para São Paulo. O outono chegou envolto em chuva persistente, frio, ventos úmidos e céus cinzentos, atravessados apenas ocasionalmente por raios breves de sol que, por alguns minutos, iluminavam as árvores antigas da USP, os corredores silenciosos e as longas alamedas cobertas de folhas úmidas. Havia algo nesses dias que parecia desacelerar mais o campus. As pessoas caminhavam mais devagar. As conversas tornavam-se menos apressadas. O ruído cotidiano parecia amortecido pela atmosfera fria e melancólica. Talvez justamente por isso fossem dias particularmente interessantes para falar sobre O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, aos futuros mestres e doutores da disciplina Memórias Rituais, Narrativas da Experiência, do PPGCOM da ECA-USP.
Porque Eliade, no fundo, escreve sobre algo que emerge exatamente nesses momentos em que o cotidiano parece suspender parcialmente sua velocidade automática: a necessidade humana de transformar o mundo em experiência significativa. Sua grande questão não é simplesmente religiosa. É existencial. Como os seres humanos conseguem habitar simbolicamente o mundo? Como transformam espaço em lugar, tempo em memória, natureza em presença, vida em narrativa?
Ao caminhar pela USP em uma manhã fria e cinzenta, talvez possamos compreender melhor aquilo que Eliade chama de hierofania: a manifestação do sagrado no mundo comum. O sagrado, para Eliade, não aparece necessariamente em grandes milagres ou fenômenos extraordinários. Ele emerge quando algo aparentemente comum revela uma dimensão qualitativamente diferente da realidade. Uma árvore pode tornar-se mais do que árvore. Uma pedra mais do que pedra. Uma montanha mais do que montanha. O espaço cotidiano deixa de ser homogêneo e passa a carregar densidade simbólica.
Talvez seja exatamente isso que acontece em muitos lugares da USP.
As árvores antigas da Cidade Universitária parecem guardar tempos diferentes sobrepostos em silêncio. Sob elas passaram gerações inteiras de estudantes, professores, pesquisadores, militantes, artistas e intelectuais. Quantas conversas decisivas aconteceram à sombra dessas árvores? Quantos amores começaram ali? Quantas rupturas políticas? Quantas descobertas intelectuais? Quantos lutos silenciosos? Quantas utopias?
Em O Sagrado e o Profano, Eliade afirma que os seres humanos precisam criar centros simbólicos para orientar a existência. O caos precisa transformar-se em cosmos. Talvez toda universidade verdadeira produza esse movimento. E talvez poucas universidades brasileiras tenham criado um cosmos simbólico tão intenso quanto a USP.
A Praça do Relógio. Os corredores da ECA. As escadarias da FAU. Os jardins da Filosofia. Os murais políticos. Os centros acadêmicos. As bibliotecas silenciosas em dias de chuva. As assembleias tensas. As defesas de teses que transformam vidas. Os cafés improvisados entre orientadores e orientandos. As greves. Os atos políticos. Os saraus. As festas estudantis. As homenagens a professores que partiram.
Tudo isso forma uma espécie de cosmologia uspiana.
Eliade insiste que o ser humano não vive apenas biologicamente em um espaço. Ele ritualiza a existência. Cria lugares de memória. Organiza o tempo. Produz narrativas exemplares. Repete simbolicamente as origens para impedir que o mundo recaia no caos.
Talvez seja isso que as universidades façam continuamente, mesmo quando não percebem: tentativas coletivas (imperfeitas, contraditórias e tensas) de transformar desordem em sentido.
E a USP conhece profundamente o caos.
Controvérsias permanentes. Disputas ideológicas. Conflitos institucionais. Crises orçamentárias. Ansiedades produtivistas. Polarizações. Solidões acadêmicas. Competição extrema. Violências simbólicas. Ruídos incessantes produzidos pelas redes digitais e pelas disputas narrativas contemporâneas.
Mas talvez justamente por isso a dimensão simbólica da universidade se torne ainda mais necessária.
Porque aquilo que sustenta uma comunidade universitária raramente é apenas sua estrutura administrativa. O que sustenta uma universidade são também seus mitos compartilhados. Os grandes professores que permanecem vivos nas narrativas dos corredores. As aulas inesquecíveis que continuam sendo citadas décadas depois. Os livros que mudaram trajetórias. Os mestres intelectuais que se tornam quase figuras tutelares para determinadas gerações.
Eliade afirma que o mito não é simplesmente uma narrativa sobre o passado. O mito é um modelo exemplar. Algo que continua oferecendo orientação existencial no presente. Talvez a USP produza continuamente seus próprios mitos modernos.
O estudante periférico que atravessa horas de transporte para chegar à aula. A pesquisadora que permanece noites inteiras em laboratório. O professor cuja fala altera a percepção de mundo de uma turma inteira. Os grandes debates públicos. As experiências coletivas que passam a integrar a memória institucional.
Tudo isso ultrapassa o simples funcionamento acadêmico. São narrativas que organizam simbolicamente a experiência universitária.
Até a natureza participa dessa construção.
Em Eliade, a natureza nunca é apenas matéria. A água simboliza renascimento. A árvore conecta mundos. A montanha aproxima o humano do transcendente. O fogo representa transformação. O cosmos natural torna-se linguagem simbólica.
Talvez por isso os elementos naturais da USP pareçam tão vivos na memória de quem habita a universidade. Os sabiás interrompendo aulas. As maritacas cruzando o céu no final da tarde. As capivaras que se tornaram personagens quase míticos da Cidade Universitária. Os gatos, os lagartos, espalhados entre prédios e jardins. O cheiro da terra molhada depois da chuva. As folhas acumuladas nas alamedas em dias frios como os desta semana.
Tudo isso parece produzir uma temporalidade diferente dentro do campus. Um tempo menos acelerado. Quase um intervalo dentro da brutal velocidade contemporânea.
E aqui talvez esteja uma das contribuições mais profundas de Eliade para nosso tempo. Em uma sociedade marcada pela aceleração, pela hiperconectividade, pelo excesso de informação e pela fragmentação contínua da atenção, o ser humano continua procurando experiências capazes de reorganizar simbolicamente a vida.
Continuamos buscando centros. Continuamos criando rituais. Continuamos necessitando de narrativas. Continuamos tentando transformar caos em cosmos.
Talvez seja exatamente isso que explique por que certos dias frios e cinzentos na USP parecem produzir uma espécie de suspensão silenciosa do cotidiano. Como se, por alguns instantes, a universidade revelasse não apenas sua dimensão institucional, mas também sua dimensão existencial.
E talvez seja justamente nesses momentos que compreendemos que a USP não é apenas um conjunto de edifícios, departamentos, rankings e indicadores de produtividade. Ela é também uma paisagem simbólica habitada por memórias, rituais, disputas, afetos e buscas de sentido.
Um cosmos humano, frágil e imperfeito, continuamente recriado por aqueles que atravessam suas árvores, seus corredores e seus dias de chuva.
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