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16 de abril de 2026

Rituais, Conselhos e Deuses

Paulo Nassar
 
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Anos atrás, em um evento promovido por uma instituição do mundo corporativo, arrisquei-me a introduzir um tema pouco convencional no universo da governança: os rituais. Para sustentar minha argumentação, convoquei deuses gregos, romanos, africanos e baianos, na tentativa de mostrar que, por trás das estruturas mais sofisticadas da modernidade organizacional, subsistem formas simbólicas profundas que organizam a vida coletiva.

Ao final da palestra, no coffee-break, tive a nítida sensação de deslocamento. Pelas conversas, percebi que minha fala havia sido recebida como algo vindo de um outro tempo, talvez das profundezas da tradição, como se eu tivesse trazido artefatos recolhidos por arqueólogos ou antropólogos. 

Hoje, décadas depois, com mais de 30 anos de docência, observação sistemática e convivência com conselhos de diferentes naturezas, minha convicção não apenas permanece, mas se fortaleceu: os rituais não apenas cabem nos conselhos de administração, como são indispensáveis ao seu pleno funcionamento.

Essa mudança de percepção não é apenas pessoal. Ela acompanha um deslocamento mais amplo na literatura internacional sobre governança, que passou a reconhecer que a eficácia dos conselhos não se explica apenas por sua arquitetura formal. Para compreender esse ponto, é preciso, antes, entender a natureza singular desses espaços.

O conselho como uma forma social rara

Conselhos de administração são, por definição, organizações incomuns. Seus membros se encontram poucas vezes ao longo do tempo corporativo, vivem em contextos profissionais distintos, carregam trajetórias altamente individualizadas e, ainda assim, são chamados a tomar decisões de enorme impacto coletivo.

Essa condição cria uma tensão estrutural difícil de resolver: espera-se deles coesão, alinhamento e qualidade decisória típicas de equipes de alto desempenho, mas sem o tempo e a convivência contínua que normalmente produzem essas qualidades.

É justamente nesse ponto que a literatura contemporânea converge. Autores como Jeffrey Sonnenfeld, Randall S. Peterson, Stanislav Shekshnia e Reid Hoffman são enfáticos ao afirmar que a excelência de um conselho não decorre prioritariamente de sua estrutura, mas da qualidade das interações entre seus membros.

Dito de outra forma, não é o desenho do conselho que o torna eficaz, mas o modo como ele funciona como sistema social. E é precisamente nesse nível, o das relações, das interações e das práticas que os rituais se tornam centrais.

Rituais como infraestrutura invisível da governança

Se deslocarmos o olhar da estrutura para o funcionamento, torna-se evidente que os rituais operam como uma espécie de infraestrutura invisível da governança. São eles que organizam a comunicação, incorporam valores, estabilizam expectativas e constroem identidades compartilhadas. Esses atributos dos rituais foram observados pelos titãs da Antropologia, gente como Arnold Van Gennep, Victor Turner, Claude Lévi-Strauss e o brasileiro Roberto DaMatta. 

Nesse sentido, uma distinção simples, mas poderosa, nos ajuda a compreender seu papel. Se as regras dizem o que o conselho deve fazer, os rituais ensinam como o conselho deve ser. 

Essa distinção ajuda, inclusive, a explicar um paradoxo recorrente. Nas últimas décadas, multiplicaram-se códigos, normas e boas práticas de governança. Ainda assim, como mostram estudos de Richard Leblanc, organizações com estruturas exemplares fracassaram de forma contundente. O problema, portanto, não está apenas no “o quê”, mas no “como”. E o “como” é, fundamentalmente, ritual. Vamos em frente em nosso passeio pelo mundo dos conselhos e dos conselheiros, guiado pelas cabeças antropológicas. 

Confiança: o bem mais escasso

Esse “como” se torna ainda mais crítico quando consideramos um dos elementos mais frágeis da vida organizacional contemporânea: a confiança.

Nos conselhos, essa fragilidade é agravada por uma condição estrutural: o pouco tempo de convivência. Conselheiros precisam confiar uns nos outros rapidamente, compartilhar informações sensíveis, desafiar posições e deliberar sob pressão, muitas vezes sem o acúmulo de interações que, em outros contextos, tornaria esse processo mais natural.

A literatura mostra que equipes de alto desempenho entram em ciclos virtuosos: respeito gera confiança; confiança permite compartilhamento; o compartilhamento sustenta o debate; e o debate qualificado produz aprendizagem.

Mas, nos conselhos, esse ciclo não pode depender do acaso. Ele precisa ser construído de forma deliberada.

É nesse ponto que os rituais atuam como dispositivos organizacionais decisivos. Práticas aparentemente simples, como check-ins iniciais, sessões executivas, debriefings ou encontros informais, tornam a confiança algo que pode ser produzido, repetido e sustentado ao longo do tempo.

Do conjunto de indivíduos ao “nós” coletivo

Ao produzir confiança, os rituais viabilizam uma transformação ainda mais profunda: a passagem do conjunto de indivíduos para a constituição de um coletivo.

Sem rituais, um conselho tende a operar como uma soma de trajetórias individuais, cada conselheiro trazendo sua visão, sua linguagem, sua agenda. Com rituais, emerge uma identidade compartilhada, um “nós” que permite ao grupo atuar de forma coesa.

Como observa Reid Hoffman, são os processos compartilhados que criam fluência coletiva e senso de propósito, características típicas das grandes equipes.

É nesse movimento que ocorre algo particularmente interessante: aqueles que poderiam ser vistos como “deuses organizacionais”, os CEOs, os executivos consagrados, os profissionais de trajetórias e egos excepcionais,  passam a atuar não como figuras isoladas, mas como integrantes de um corpo coletivo, marcado por pertencimento, compromisso e confiança entre pares.

Rituais como dispositivos de franqueza

Essa transformação, no entanto, não elimina um risco relevante, talvez o mais silencioso deles: o conformismo.

Em conselhos compostos por indivíduos experientes, bem-sucedidos e habituados ao poder, o chamado “espírito de corpo” pode emergir de forma sutil, reduzindo o espaço para divergência e enfraquecendo a qualidade das decisões.

Aqui, novamente, os rituais desempenham um papel estruturante. Ao instituir práticas como pre-mortems, avaliações estruturadas, votações anônimas ou exercícios coletivos de análise, eles criam condições formais para que a discordância aconteça sem custo social elevado.

Assim, o questionamento deixa de ser exceção e passa a ser norma.

A franqueza deixa de depender da coragem individual e passa a ser sustentada pela estrutura do próprio processo.

O conselho como organismo de aprendizagem

Quando a franqueza se institucionaliza, abre-se espaço para um outro ganho: a aprendizagem coletiva.

Sem rituais de reflexão, cada reunião tende a se encerrar em si mesma. Com rituais, como sessões de calibração, debriefings e avaliações estruturadas, o conselho passa a acumular memória, identificar padrões e aprimorar suas práticas ao longo do tempo. 

Nesse sentido, o conselho deixa de ser apenas um órgão deliberativo e passa a operar como um organismo de aprendizagem, capaz de desenvolver inteligência coletiva progressiva.

Reconectar o topo à realidade

Essa capacidade de aprendizagem também depende de um fator crítico: a conexão com a realidade organizacional.

Um dos riscos mais recorrentes nos conselhos é o distanciamento, cognitivo, relacional e operacional, em relação ao que ocorre na organização. Relatórios, por mais sofisticados que sejam, não substituem a experiência direta.

Por isso, rituais como visitas de campo e imersões operacionais assumem um papel estratégico. Eles reconectam o conselho ao cotidiano da organização, à experiência dos clientes e à dinâmica da cultura interna.

Mais do que informação, esses rituais produzem experiência e é a experiência que sustenta julgamentos mais consistentes.

Reuniões que criam valor

Essa reconexão, por sua vez, transforma a própria natureza das reuniões de conselho.

Sem rituais, elas tendem a ser momentos de prestação de contas retrospectiva: revisão de resultados, leitura de relatórios, cumprimento de agendas formais. Com rituais bem estruturados, tornam-se espaços de deliberação estratégica, produção de conhecimento e criação de valor.

A literatura internacional é clara ao afirmar que conselhos de alto desempenho tratam suas reuniões com o mesmo rigor e intencionalidade que exigem da gestão executiva. Isso implica preparação, foco, qualidade de interação e clareza de propósito.

O retorno dos deuses

Retomando, então, aquela cena de anos atrás, a palestra na instituição de governança e o estranhamento que ela provocou, talvez possamos agora reinterpretá-la.

O desconforto não estava propriamente nos rituais, mas no que eles revelam. Falar de rituais é admitir que as organizações não são apenas estruturas racionais, que as decisões não são apenas técnicas e que a governança não se esgota em normas e procedimentos.

Há, nas organizações, uma dimensão simbólica profunda, aquela mesma que, em outras épocas, organizava-se em torno de mitos e deuses.

Essa dimensão não desapareceu. Apenas se tornou menos visível.

E talvez seja justamente ela que permite que indivíduos extraordinários, com trajetórias diversas, interesses distintos e tempo escasso, consigam, ainda assim, atuar como um coletivo.

Ao final, fico pensando no que mais eu diria hoje àquela gente, naquela instituição de governança. E diria, com alguma serenidade conquistada pelo tempo, que os rituais fazem pelo conselho aquilo que nenhuma política de governança consegue, sozinha, produzir.

Eles transformam um grupo de indivíduos altamente qualificados em uma equipe capaz de confiar, aprender, deliberar e agir com integridade nos momentos mais críticos. 

Se antes pareciam deslocados, como artefatos de outras culturas, hoje se revelam como aquilo que sempre foram, infraestruturas invisíveis da vida coletiva.

E talvez seja precisamente por vivermos em um mundo marcado pela escassez de tempo, pelo excesso de informação e pela fragilidade da confiança que eles se tornem, mais do que nunca, necessários, inclusive, e sobretudo, no topo das organizações.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje); professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisados no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

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