Os “haters” como protagonistas
12 de julho de 2016
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Como este é o primeiro texto que publico aqui neste espaço, vou ocupar algumas linhas para, rapidamente, me apresentar.

Sou Rodrigo Soares, brasileiro, carioca, 41 anos, casado, dois filhos. Fiz vestibular aos 17 anos e, depois de cursar Engenharia por 2 anos, decidi correr atrás do meu sonho, larguei o curso e fui fazer Comunicação. Tive uma rápida experiência numa pequena agência no Centro do Rio e logo em seguida passei no programa de Estágio da Shell, em 1999. Depois de 6 meses de estágio, fui contratado. Foi na gigante empresa de energia que passei os primeiros 8 anos da minha carreira, trabalhando na área de Comunicação Interna, primeiramente no Brasil e, depois, responsável pela área na América Latina. Trabalhei alguns meses na área de Relações Governamentais, antes de deixar a empresa, em 2006, após uma reestruturação. Logo depois, iniciei uma negociação para uma posição na Vale (naquela época, ainda Vale do Rio Doce). Lá passei 9 anos, aprendendo e fazendo muita coisa bacana. Atuei em quase todas as disciplinas da comunicação: comunicação interna, branding, publicidade, patrocínio, pesquisa, métricas. No ano passado, decidi que era a hora de mudar. Deixei a posição de Head das áreas de branding, publicidade, patrocínio e pesquisa para correr atrás do meu outro sonho: viver uma experiência fora do Brasil. Passei por um longo processo de planejamento e preparação e hoje aqui estou, em Orlando, na Flórida, cursando um mestrado em Comunicação na University of Central Florida – UCF e trabalhando part-time na área internacional da Universidade, desenvolvendo uma estratégia de marketing para atrair mais estudantes de outros países. Essa coluna vai trazer algumas das minhas visões daqui sobre comunicação, comportamento, cultura e outros assuntos curiosos que meus olhos e ouvidos vivenciarem. Espero que gostem.

Começo hoje falando de política. Não discutindo atributos e características dos candidatos mas fazendo uma análise do que venho observando, sob a ótica da comunicação, sobre a forma como os programas jornalísticos na TV são conduzidos por aqui em ano de eleição presidencial. Para explicar o que tenho acompanhado, vou usar uma teoria de comunicação de massa que muito tem a ver com o que vamos conversar. A “Framing Theory”, talvez uma das mais importantes teorias sobre comunicação de massa, discute a forma como as notícias são “empacotadas”, visando atingir o público com uma intenção especifica. Ou, como Chong e Druckman (2007) definiram:

“A principal premissa da ‘Framing Theory’ diz que um assunto pode ser visto sob várias perspectivas. ‘Framing’ se refere ao processo pelo qual as pessoas desenvolvem um contexto particular sobre um assunto ou reorientam a forma como o interpretam. ”

Para fazermos esta análise, precisaremos categorizar os programas jornalísticos e os canais de notícias daqui. Existem, basicamente, três tipos de programas: notícias locais, notícias gerais e os programas de opinião, que serão o foco da nossa conversa. A maior diferença que podemos ver, fazendo um paralelo com o Brasil é que aqui nos EUA, os canais de notícias, ou muitos deles, têm claramente sua agenda política definida. Isso não está implícito; ao contrário, é praticamente declarado. A maneira com que as notícias são “empacotadas” ou “framed” vai ao encontro da agenda política do canal – seja ela republicana ou democrata – e a principal ferramenta que eles utilizam são os programas de opinião.

Esses programas têm, em geral, um âncora, influente e ativo também nas redes sociais, e vários convidados que discutem, nitidamente controlados e direcionados pelo âncora, os temas políticos do dia. Até há uma tentativa, em alguns casos, de praticar uma das principais premissas jornalísticas e ouvir “o outro lado do corredor”, que é como os republicanos se referem aos democratas e vice-versa – em alusão à forma como as mesas são organizadas no Senado Americano. E são nessas ocasiões que a situação se torna ainda mais constrangedora e explícita, na minha opinião, pois quando o âncora percebe que o convidado “inimigo” está tomando à frente do debate ele, simplesmente, utiliza o seu poder e encerra o quadro, agradecendo e cortando os links bruscamente para, sozinho, fazer um comentário final, com a mensagem direcionada à sua agenda política e desmerecendo a opinião do convidado. Essa postura não é uma tônica em todos os canais mas pode ser percebida com muita frequência.

Temos, hoje, aqui nos EUA um país inseguro. Não me refiro só à insegurança causada pelo “novo terrorismo”, de ataques individuais e ainda mais difíceis de serem combatidos. Mas também à insegurança sobre o futuro de uma maneira geral, a economia, a geração de empregos, as políticas de imigração, de saúde pública, a atuação militar e outros temas que têm afligido todas as classes sociais. Os dois candidatos à presidência que se apresentam trazem perfis completamente opostos e “surfam” na onda da incerteza que paira sobre o país para comunicar suas propostas. Esses perfis tão opostos tornam a comunicação durante essa campanha ainda mais sui generis e um prato cheio para os canais de notícias e os programas de opinião, como descrevi acima. A polarização, que é parte do jogo político por aqui, fica ainda mais aguda.

Nos resta agora esperar o resultado final das eleições. Durante as primárias – prévia em que os dois partidos definem seus candidatos – a Comunicação tem exercido um papel ainda mais fundamental, quando a retórica, o discurso pessoal e sem papas na língua de um dos candidatos foi o suficiente para derrubar os outros 16 postulantes do Partido Republicano. A mensagem de que o candidato é um “outsider”, sem vínculos com o status quo da política em Washington conquistou aqueles sedentos por mudança e cansados da incerteza. Mas agora é para valer. Os dois lados se enfrentam e farão uso de todo aparato comunicacional disponível. Os programas de opinião são peças-chave nesse arsenal. Eles inflamam seus seguidores, utilizando todo o seu espaço para, principalmente, denegrir o adversário em detrimento de trazer informação mais relevante sobre os temas que interessam aos eleitores. Essa é uma eleição na qual os “haters” devem ser o fiel da balança e, possivelmente, decidir quem será o 45º presidente dos EUA.

 

Referências:

Chong, D., & Druckman, J. N. (2007). Framing theory. Annu. Rev. Polit. Sci.10, 103-126.

 
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