Índio não quer apito. Tem um mouse
31 de outubro de 2006
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O índio brasileiro já é menos figura de cartão postal. Ele já começa a perder aquela imagem idílica, embalada em exotismo, que o impedia de afirmar seus interesses na sociedade moderna e, conseqüentemente, no mercado.

O fenômeno da internet, que colocou o mundo interligado, criou o que chamo por conta de uma neologia: a etnosfera, o espaço virtual em que as minorias, principalmente índios, têm-se expressado. Muitos pela primeira vez, têm a possibilidade de publicar suas histórias milenares, suas mensagens, sons, reivindicações e produtos (existe um mercado mundial para os bens e serviços étnicos), 24 horas, 7 dias por semana e de qualquer lugar do planeta.

A etnosfera nos possibilita o contato com os povos da floresta como os Terena, os Guarani, os Potiguara, os Tucuna, os Caiapós, entre outros. Hoje eles também estão conectados com o mundo e por isso podemos conhecer suas produções, vídeos e rádios e seus representantes escritores, jornalistas, vídeo-realizadores, sem sair de casa e viajar à aldeia mais próxima.

Em São Paulo, de 17 a 19 de outubro, o ‘1º Seminário Mídias Nativas’ – evento idealizado pelo Cepop Atopos (Centro de Pesquisa sobre Opinião Pública na Época Digital) e pelo Departamento de História – Núcleo de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, da USP (Universidade de São Paulo), foi organizado e coordenado pelos professores Massimo Di Felice (ECA-USP) e Maria Luiza Tucci Carneiro (FFLCH-USP) – apresentou e discutiu parte dessa comunicação indígena na etnosfera. O Seminário mostrou um indígena preocupado com as questões da sustentabilidade econômica, social, ambiental e também com a cidadania.

Vida indígena

Di Felice comparou a atuação indígena brasileira, no âmbito da comunicação moderna, ao protagonismo dos indígenas de Chiapas, estado mexicano em que vive mais de um milhão de indígenas representados pelo Exército Zapatista de Libertação, que coloca suas reivindicações no tabuleiro global por meio da comunicação digital. Tanto em Chiapas como aqui os temas são conhecidos: a invasão dos territórios nativos pelas fronteiras agrícolas, a implantação de hidrelétricas, extração de madeiras nobres, atividades petrolíferas e de mineração. Além do furto de sabedoria nas áreas da Cultura e da biopirataria, sem nenhum tipo de pagamento.

Nesse quadro, a etnosfera é o espaço efetivo e de articulação política rápida dessas comunidades, antes isoladas, com a imprensa nacional e internacional, o mundo acadêmico, as autoridades e as organizações não-governamentais, muitas criadas para defendê-los. Sites, blogs, e-mails e rádios são instrumentos de proteção da vida e de patrimônios culturais e naturais, não só dos índios, mas de todos os brasileiros.

O ‘1º Mídias Nativas’ mostrou a participação dos nativos em instituições internacionais, sua diplomacia e como se apropriam das novas tecnologias de comunicação. Segundo Carlos Fernandes Papá, documentarista guarani, ‘a meta dos Guarani é aprender a mídia. Ao contrário do que muitos querem, não queremos ficar na Idade da Pedra’. O professor Sérgio Domingues (Unesp-Marília), antropólogo e pesquisador da vida indígena há 25 anos, lembrou que ‘o fascismo à brasileira’ proibia que as línguas desses povos, principalmente no período da ditadura militar, fossem transmitidas por meio de rádio, o que isolava tribos e pessoas e impedia a realimentação da rede de relacionamentos de povos com falas semelhantes.

Bom momento

Mas a etnosfera, a nova comunicação indígena brasileira, tem exemplos como de Carlos Fernandes Papá, guarani, com um documentário sobre os índios do Estado de São Paulo; de João Felipe Gomes Marcos, jornalista terena, que produziu vídeos sobre as tradições de seu povo; de Emídio Pereira Neto, terena, de Mato Grosso do Sul, responsável por uma rádio na aldeia Bananal. Esses exemplos mostram que a voz e a imagem dos índios no Brasil estão, a cada dia, mais fortes. Com isso, a Comunicação e as Relações Públicas das empresas e instituições devem assumir diálogos democráticos e produtivos com essas comunidades.

Este é um bom momento para construir um relacionamento entre brancos e índios em bases transparentes, tendo a etnosfera como um antídoto para quem acha que tudo ‘é coisa de índio’, ou seja, bobagens que devem ser resolvidas pela polícia ou trocadas por um espelhinho.

 
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