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14 de janeiro de 2026

O que comunicação interna tem a ver com cinema

Elizeo Karkoski
Imagem ilustrativa gerada por IA
 
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Imagine que você foi convidado para a estreia de uma produção ambiciosa. A fotografia é impecável, os atores são renomados e o cenário é grandioso. Tudo indica que você está prestes a assistir a um grande filme.

Após cerca de uma hora de exibição, porém, algo começa a incomodar. Os personagens tomam decisões aparentemente aleatórias, mudam de comportamento sem qualquer construção narrativa e reagem mais às circunstâncias do que a uma lógica interna da história. Falta coerência. Falta direção. Falta um enredo que sustente por que aquela história está sendo contada e para onde ela pretende ir.

As cenas são bem executadas, os diálogos são sofisticados, a produção impressiona. Ainda assim, não há conexão entre os atos. A proposta apresentada nos minutos iniciais, quase como um texto de abertura promissor, é gradualmente abandonada. Não existe uma lógica decisória clara orientando as escolhas dos personagens. Cada novo acontecimento parece fruto de improviso, não de intenção.

Ao final da sessão, se você perguntar a qualquer pessoa na saída do cinema sobre o que se tratava o filme, dificilmente alguém conseguirá responder com precisão. Alguns dirão que era um drama. Outros, que era um suspense. Há quem enxergue uma comédia involuntária. Não por complexidade narrativa, mas porque nunca ficou claro qual história estava sendo contada.

Esse filme é uma metáfora do que acontece dentro de organizações que não constroem uma narrativa organizacional intencional.

À primeira vista, essas empresas parecem estruturadas. Têm bons profissionais, investimentos, processos, campanhas de comunicação e estratégias bem apresentadas em slides. Assim como no filme, os recursos existem. O que falta é direção compartilhada.

Sem uma narrativa clara sobre quem a organização é, por que existe, o que defende e como toma decisões, cada liderança, cada área e cada colaborador passa a interpretar a empresa à sua maneira. Prioridades mudam conforme o contexto. Decisões se contradizem ao longo do tempo. O que ontem era inegociável hoje é relativizado, sem explicação. A coerência se perde. E, com ela, a capacidade de sustentar decisões consistentes.

A cultura organizacional até existe no papel. Está nos manuais, nos murais e nas apresentações institucionais. Mas não orienta comportamento. Na prática, as pessoas agem de forma desalinhada porque não há um sentido comum que conecte discurso e ação. Isso gera insegurança, retrabalho e desgaste silencioso.

A comunicação interna, nesse cenário, vira uma trilha sonora constante, porém desconectada das cenas. Mensagens chegam, campanhas são lançadas, canais se multiplicam, mas falta clareza sobre o objetivo estratégico de tudo aquilo. Comunica-se muito e orienta-se pouco. O excesso de informação gera ruído, cansaço e descrédito. As pessoas recebem as mensagens, mas não se conectam e não se engajam.

As consequências aparecem também no negócio. Decisões incoerentes custam tempo, energia e dinheiro. Equipes gastam esforço tentando decifrar expectativas não ditas. Projetos perdem tração porque não se sustentam ao longo do tempo.

Esse impacto se reflete diretamente na marca empregadora. Quando não há narrativa, o valor da empresa como lugar para trabalhar se torna difuso. Cada colaborador descreve a organização de um jeito diferente. O discurso externo não encontra correspondência na experiência interna. A promessa não se sustenta na prática. Isso enfraquece a confiança, dificulta a atração de talentos e acelera a saída de pessoas que não conseguem entender qual papel desempenham naquela história.

A empresa continua funcionando. Assim como o filme, entrega boas cenas isoladas. Mas carece de identidade, coerência e continuidade. Falta um roteiro que alinhe comportamento, sustente decisões e transforme estratégia em prática.

Esse tipo de incoerência não se resolve com campanhas ou mais mensagens. É necessário entender o contexto, processo, clareza e intenção estratégica. Narrativas organizacionais bem construídas transformam intenção em direção.

  • Dão sentido às decisões;
  • Criam coerência entre discurso e prática;
  • Conectam estratégia, cultura e EVP de forma concreta.

No fim, não se trata apenas de comunicar melhor. Trata-se de alinhar propósito, cultura e estratégia para que todos saibam qual história estão construindo, qual papel desempenham nela e por que vale a pena fazer parte.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Elizeo Karkoski

Sócio-Diretor na P3K Comunicação, agência especializada em Comunicação Interna Estratégica e Endomarketing. MBA em Gestão Empresarial, Pós graduado em Design e Formação em Psicanálise. Na Aberje, teve participações como Jurado do prêmio Aberje e Universitário e Membro do Comitê de Comunicação com Empregados.

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