Texto e Contexto
12 de abril de 2021
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Minha primeira professora de português me ensinou um truque para escrever boas redações, que levei como lição para o resto da vida: “Menino, antes de escrever qualquer coisa situe-se. Se você vai descrever uma linda floresta, tem antes que pensar na perspectiva de quem está dentro dela ou está apreciando toda sua maravilha pelo lado de fora”. Faz todo o sentido!

Hoje, por dever de ofício, eu escrevo muito. E sempre que escrevo me lembro da velha professora de português e penso no contexto. Sem o contexto você perde, sempre, no mínimo, 50% do público. O contexto inclui ou exclui os leitores e, por isso, é tão importante fazê-lo de forma consciente. Ele traz dois grandes benefícios para quem escreve: Primeiro, obriga o redator a pensar antes de escrever; e, segundo, é um gancho para envolver o leitor com o texto, sem o qual, muitas vezes, por preguiça, ele desiste no primeiro parágrafo.

Mas, nada melhor do que emprestar bons exemplos de escritores famosos.

“Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco”.

Nesse trechinho do início de “O Velho e o Mar”, Ernest Hemingway nos situa sobre o que virá a seguir na longa história do velho pescador, lutando sozinho para trazer um grande peixe até a areia.

“Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um fidalgo, desses com lança guardada, escudo oval antigo, rocim fraco, e galgo corredor. É, pois de saber que este fidalgo nos intervalos de ócio — que eram os mais do ano –, se dava a ler livros de cavalarias, com tanta dedicação e gosto, que esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até a administração dos seus bens; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias, e assim, levou a sua casa todos quanto pôde haver deles”.

E aqui o genial Cervantes descreve o que o leitor pode esperar do personagem exótico que era Dom Quixote: velho, sonhador e totalmente despreparado para as loucas aventuras cuja narração estava por iniciar.

E a gente não precisa ser um Cervantes ou Hemingway, para escrever bem e engajar leitores. Suponhamos que nossa empresa queira tornar o ambiente de home office, durante a pandemia, mais acolhedor para todos, sejam novos ou antigos colaboradores. O texto abaixo é real, e foi utilizado em nossa empresa para convencer a todos da importância do acolhimento:

Gente, eu sou do tempo em que os moleques sofriam bullying na escola e brigavam na rua. Quando chegávamos em casa, não tinha essa de reclamar para os pais. Mas era sempre uma sensação de acolhimento entrar em casa e, livre das pressões da rua, tomar um banho e sentar para saborear um prato de sopa quente com a família. Os anos passaram e eu continuei me sentindo acolhido ao chegar em casa depois de um longo dia de trabalho. A diferença é que o adulto tira os sapatos e abre uma cerveja, antes do banho (rsrs).

A pandemia nos roubou essa sensação de voltar para casa ao final do dia e nos sentirmos acolhidos. Mas, todos nós continuamos precisando dessa sensação de acolhimento, de um ambiente onde não somos julgados, pelo contrário, somos ajudados e temos direito até de um colinho”.

E, a partir desse contexto, lançamos um repto para que nossos funcionários fossem acolhedores com os colegas de trabalho e nos contassem essas histórias em vídeos curtinhos. Funcionou super bem. Experimentem!

 
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