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19 de janeiro de 2026

O Marquês de Pombal e a comunicação ao “fechar os portos”

Carlos Parente
Panorama de Lisboa (foto: Liam McKay/Unsplash)
 
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Na manhã do dia 1º de novembro (Dia de Todos os Santos!) de 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto, seguido de um tsunami decorrente do tremor e por incêndios que se espalharam pela cidade. Foi uma tragédia. Dezenas de milhares de pessoas perderam a vida (não há estimativas precisas, fala-se entre 20 mil e 100 mil óbitos), devido à combinação devastadora do sismo mais tsunami e incêndios que duraram dias, destruindo grande parte de Lisboa, que era uma das maiores cidades da Europa na época. 

Dom José I (1714 – 1777) foi o rei de Portugal e Algarves de 1750 até a sua morte. O seu reinado foi marcado pelas políticas e ações do seu Secretário de Estado, o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 – 1782), um diplomata considerado uma das figuras mais controversas e carismáticas da história portuguesa, que realizou reformas administrativas, econômicas e sociais e implementou mudanças nas leis, na economia e na sociedade portuguesa, contribuindo para transformar Portugal em uma nação mais moderna. No entanto, sua gestão foi um exemplo de despotismo esclarecido, forma de governo que combinava a monarquia absolutista com o racionalismo iluminista, que buscava eficiência e progresso com um modo de governar paternalista e autoritário.

No episódio do terremoto, o Marquês de Pombal, ao ser questionado pelo rei sobre o que poderia ser feito, disse: “E agora? Sepultem os mortos, cuidem dos vivos e fechem os portos”. O “fechar os portos” tinha uma dupla finalidade no contexto da tragédia: a reconstrução de Lisboa e ajustes na política comercial de Portugal.

Dessa forma, diante do caos que tomou Lisboa, fechar os portos significou, inicialmente, o bloqueio sanitário e de segurança na baía de Lisboa, que impediu a saída de navios, para evitar pilhagens e a saída da nobreza e de recursos preciosos, e proibiu a chegada de navios para controlar o ingresso de mercadorias e pessoas, a fim de impedir a entrada de oportunistas e forasteiros indesejados, além de evitar saques e organizar o fornecimento de alimentos. Isso garantia que os recursos disponíveis fossem usados na recuperação da cidade e no auxílio aos sobreviventes, não sendo desviados ou levados para fora. A medida simbolizava a necessidade de focar todos os esforços na gestão da crise e na reconstrução da capital. Lisboa não foi afetada por epidemias e, menos de um ano depois, já se encontrava parcialmente reconstruída e modernizada. 

Vale pensar um pouco na frase e nas providências do Marquês de Pombal. Imagine uma cidade devastada em 1755… Agora traga seu pensamento para os dias de hoje, o mundo atual, em janeiro de 2026, e imagine a mesma frase quase 271 anos depois. Complexo, não é mesmo? Sepultar os mortos; cuidar dos vivos; fechar os portos… como seria isso no panorama atual? Fica o convite para um exercício de ficção no imaginário de cada um. 

O que atualmente parece muito, mas muito difícil é “fechar os portos” para endereçar os problemas. Parece muito complexo num mundo globalizado, em que tudo está totalmente interligado, interconectado a tudo. Você vai de um país para outro sem sair do seu sofá ou da sua cadeira, faz uma reunião com outros profissionais estando cada um em um ponto do globo diante de uma telinha. 

O Marquês de Pombal adotou providências imediatas e cuidou das pessoas, reconstruiu a cidade, modernizando-a e aplicando técnicas preventivas contra terremotos. Ele tomou as iniciativas de forma pragmática, com uma boa comunicação, clara e sucinta, expressa na sua frase, que ficou famosa e é um ensinamento para quem se vê, ainda hoje, diante de um problema grande ou pequeno, não importa: sepultar os mortos, cuidar dos vivos, fechar os portos, até controlar a situação.

Aqui no Brasil, em 2026, definitivamente precisamos “fechar os portos”. Fechar os portos para: o feminicídio, a pedofilia nas redes, a prostituição infantil, a desinformação e as fake news, a enorme desigualdade social, para dar acesso à água tratada, à coleta de lixo e à coleta de esgoto para milhões de brasileiros que ainda não têm acesso a esses serviços. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada  em agosto de 2025 pelo IBGE , 88% dos lares brasileiros têm acesso ao recebimento diário de água tratada, 86,9% dos domicílios contam com serviço de coleta de lixo e 70,4% dos domicílios com acesso à rede geral inclui os endereços com ligação do banheiro a uma rede coletora e ainda as residências com fossa séptica ligada à rede (ou seja, de cada 10 residências, 3 não têm esgoto ligado à rede geral), além de mais uma infinidade de temas essenciais que precisam ser endereçados.

Temos problemas gravíssimos como nação e perdemos tempo a discutir comercial de chinelo. A imprensa, por vezes, esquece-se de seu papel primordial e se deixa pautar pela histeria coletiva das redes sociais, de A contra B, enquanto o mundo real fervilha a pedir socorro. Ficamos estarrecidos diante das barbaridades e não se tomam providências. Não se fecham os portos.

Este ano teremos eleições para presidente, governadores, senadores e deputados Parece simples, mas não é. É um ato de amor ao país, é como fechar os portos para cuidar dos vivos. Acredite: é uma grande responsabilidade, que vai além de escolher um nome simpático porque depois os portos reabrirão e a vida segue… Que siga bem!

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Carlos Parente

Graduado em Administração de Empresas pela UFBA, com MBA em Marketing pela FEA USP, possui um sólido histórico de experiência em Relações Institucionais & Governamentais, Comunicação Corporativa e Advocacy, com participações e lideranças em processos de comunicação estratégica, inclusive internacionais. Carlos Parente é sócio-diretor da Midfield Consulting.

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