Democracia e Comunicação

Na dinâmica que mantém e assegura as democracias, todos os atores sociais possuem um papel. Com a digitalização cada vez mais acelerada, é preciso que esses atores – em especial, as empresas – compreendam melhor os fenômenos da sociedade da informação, para atender às necessidades de ação, comunicação e posicionamento público. É com esse intuito que o blog Democracia e Comunicação traz, em parceria com a Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV, reflexões sobre democracia digital, redes sociais e desinformação, alinhados ao fato de que as empresas estão assumindo um novo papel social e que, dentro dessa responsabilidade, está também a garantia de uma sociedade democrática.

Debate público demanda empresas menos reativas e mais interlocutoras
07 de abril de 2021
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É cada vez mais comum, no vocabulário das grandes empresas, termos como políticas de igualdade de gênero, programas de inclusão, ações de enfrentamento ao racismo e projetos de sustentabilidade. No entanto, tão difícil quanto gerar, por exemplo, uma cultura da diversidade, no âmbito corporativo, pode ser comunicá-la aos diferentes atores sociais. Se, por um lado, circulam, de modo crescente, sobretudo na esfera pública digital, notícias, ações e campanhas por meio das quais as companhias buscam se alinhar a pautas sociais, por outro, sobram casos em que elas são tomadas por indesculpáveis.

Há, de certo, uma expectativa de que as organizações não sejam apenas reativas, mas capazes de uma interlocução social, política e cultural. Recente estudo realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) examinou o debate sobre discurso de ódio nas redes sociais e indicou essa percepção. O trabalho consistiu em medir diariamente, no Twitter e no Facebook, as publicações relacionadas a uma discussão sobre os discursos de ódio, entre os meses de novembro de 2020 e fevereiro de 2021. Os dados revelaram um pico de postagens, nas duas plataformas, em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

Saindo de uma abordagem quantitativa e indo para uma qualitativa, os pesquisadores verificaram que o racismo foi o assunto que produziu essa alta, motivada não apenas pela data comemorativa, mas sobretudo pela morte por espancamento de João Alberto, um homem negro, no estacionamento do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre (RS), no dia 19 de novembro. A despeito de a análise ter apresentado diferentes nuances para uma temática tão cara como a da discriminação racial, para efeito desta discussão, importa dizer que, na amostra do Facebook, houve, pelo menos, três enquadramentos nas menções à rede de supermercado.

O primeiro, e mais recorrente, foi em relação a um boicote às lojas de todo país, como modo de reconhecer a responsabilidade da empresa pelo ataque fatal sofrido por João Alberto. O segundo tomava a nota de repúdio como um paliativo inaceitável diante da gravidade do episódio. Por fim, em menor número, alguns perfis relembraram outros casos em que o Carrefour foi denunciado por racismo e agressão corporal. A ideia, nesse último grupo de postagens, foi de que a companhia não teria aprendido com os erros passados e continuava a se amparar em notas.

Em linhas gerais, as publicações indicaram que o que se esperava da corporação era mais do que um pedido de desculpas ou uma declaração de repúdio – diferentemente, era a capacidade de tratar o caso como um crime enraizado no terreno do racismo estrutural e não como uma truculência oriunda de um desvio pessoal de caráter. A criação, menos de uma semana após o ocorrido, do Comitê Externo sobre Diversidade e Inclusão, pelo Carrefour, pode sinalizar a compreensão de que o modo como as organizações comunicam, nesse tipo de debate público, exige delas expressar não só o que se sente, mas o quanto se conhece sobre o assunto.

Além disso, é necessário olhar esse cenário a partir de um contexto em que as empresas ganham cada vez mais importância e substância na vida cotidiana. Quanto mais as pessoas dependem de seus serviços e produtos para suprir necessidades variadas – do vestuário à saúde; da alimentação à comunicação; do transporte ao lazer; dos serviços de conexão à segurança patrimonial – mais tendem a cobrar delas políticas variadas de ação, não só de ordem econômica, financeira ou comercial. Espera-se que saibam ler, histórica, política e culturalmente os cenários em que estão inseridas e que se posicionem acerca dessas questões.

Assim, pensar a responsabilização social das companhias, nesta conjuntura, é necessariamente considerar as lacunas produzidas pela ausência crescente do Estado em diferentes instâncias. É perceber as corporações não só como um interlocutor no âmbito da oferta de produtos e serviços, mas também no âmbito das ideias e da sua postura em relação a essas ideias. Em outras palavras, na medida em que as organizações se apresentam como mantenedoras de soluções para diferentes demandas, elas também precisarão demonstrar competências, de natureza crítica, vinculadas aos contextos e atores que configuram tais urgências. Trata-se de um posicionamento que propicia comunicar melhor, para grupos internos ou externos, sua posição acerca de temas centrais no debate público.

 

*As manifestações expressas por integrantes dos quadros da Fundação Getulio Vargas, nas quais constem a sua identificação como tais, em artigos e entrevistas publicados nos meios de comunicação em geral, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da FGV.

 
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