Um evento nunca é apenas um evento

Durante muito tempo, sobretudo no universo empresarial, aprendemos a olhar os eventos como operações. E, evidentemente, eles são operações. Exigem planejamento, orçamento, fornecedores, tecnologia, segurança, alimentação, mobilidade, programação, infraestrutura e uma logística que pode envolver dezenas ou milhares de profissionais. Um evento como narrativa mal operada dificilmente produzirá uma boa experiência.
Mas essa é apenas a sua camada mais visível.
A hipótese que proponho é outra: um evento é muito mais do que uma operação técnica. É uma experiência social e comunicacional complexa, construída por narrativas, rituais, símbolos, territórios, sentidos, memórias e vínculos.
Essa mudança de perspectiva altera profundamente a maneira como empresas e instituições deveriam pensar seus eventos.
Antes de perguntar qual será o palco, o palestrante, o cardápio ou a plataforma tecnológica, talvez seja necessário fazer perguntas anteriores: o que estamos celebrando? Que experiência queremos produzir? Que história estamos contando? Que valores colocamos em circulação? Que memória queremos deixar?
O evento começa antes de começar
Um evento não começa quando as portas se abrem. Ele começa muito antes, na expectativa.
O convite, a escolha do lugar, a linguagem gráfica, a programação, a confirmação da presença, o deslocamento e aquilo que os participantes imaginam encontrar já fazem parte da experiência.
Da mesma maneira, o evento não termina quando as luzes se apagam. Fotografias, vídeos, postagens, objetos, conversas, histórias e lembranças prolongam sua existência.
Há, portanto, um antes, um durante e um depois.
É justamente essa temporalidade que aproxima os eventos dos rituais.
Arnold Van Gennep mostrou que muitos ritos se organizam em movimentos de separação, transição e agregação. Victor Turner aprofundou essa leitura ao observar a condição de liminaridade: aquele intervalo em que temporariamente saímos da ordem cotidiana e ingressamos em outra configuração de espaço, tempo e relações.
Um grande festival de música faz isso. Uma cerimônia de formatura também. Uma feira empresarial, uma convenção de funcionários, uma peregrinação religiosa, uma partida decisiva de futebol ou o lançamento de um produto podem, em diferentes graus, produzir a mesma ruptura.
Entramos de determinada maneira e, idealmente, saímos diferentes.
É nesse intervalo que o evento produz significado.
O território também comunica
Nenhum evento acontece simplesmente “em algum lugar”.
O território participa da narrativa.
Realizar um encontro em um centro histórico, em um parque, dentro de uma fábrica, em um museu, em uma floresta, em uma comunidade ou em um centro de convenções produz significados diferentes.
Também por isso devemos perguntar: por que este evento acontece aqui?
E mais: o que o evento faz com esse território?
Em nossas grandes cidades, essa pergunta torna-se especialmente relevante quando eventos privados ocupam parques, praças e outros espaços que poderíamos compreender como commons, lugares compartilhados da vida urbana.
O evento pode cuidar, recuperar e ativar um território. Pode gerar renda e circulação. Mas também pode privatizá-lo temporariamente, produzir ruído, resíduos, congestionamentos ou expulsar usos cotidianos.
Não há evento sem externalidades.
Uma análise contemporânea precisa considerar tanto aquilo que o evento entrega aos participantes quanto aquilo que produz para aqueles que sequer decidiram participar dele.
Os cinco sentidos entram no evento
Outra limitação da compreensão exclusivamente técnica é imaginar o público como uma audiência abstrata.
Não existem públicos sem corpos. Entramos nos eventos pelos sentidos. Vemos a arquitetura, a iluminação, as telas e as pessoas. Ouvimos a música, as falas, o ruído ou, em determinadas situações, o silêncio. Tocamos superfícies, objetos e pessoas. Sentimos temperaturas, aromas e proximidades. Comemos e bebemos.
A experiência resulta da combinação dessas dimensões.
Uma fila interminável também comunica. Um banheiro mal cuidado comunica. Uma sinalização incompreensível comunica. Uma temperatura desagradável comunica.
Da mesma maneira, uma paisagem inesperada, uma pausa silenciosa, uma música cuidadosamente escolhida, uma comida ligada ao território ou uma arquitetura acolhedora podem produzir lembranças muito mais poderosas do que o discurso formal de abertura. A experiência também é uma narrativa produzida pelos sentidos.
Todo evento conta uma história
Talvez seja esse o deslocamento mais importante.
Todo evento possui uma narrativa, mesmo quando seus organizadores não a formularam conscientemente.
Essa narrativa responde, explícita ou implicitamente, a algumas questões: quem somos? Por que estamos reunidos? O que consideramos importante? Quem pertence a esta comunidade? Que futuro desejamos?
O Rock in Rio oferece um exemplo particularmente interessante.
Em campanha institucional publicada em agosto de 2026, o festival lançou uma pergunta aparentemente estranha: “O que o Rock in Rio tem a ver com o combate à fome?”
Sua resposta foi: “Tudo.”
Para tornar essa resposta plausível, o evento precisou contar sua própria história. Recuperou 1985, sua origem em um momento de esperança ligado à redemocratização brasileira, e percorreu diferentes iniciativas sociais e ambientais desenvolvidas ao longo de mais de quatro décadas.
A operação narrativa é sofisticada.
O festival não se apresenta apenas como produtor de espetáculos. Apresenta-se como uma plataforma de mobilização.
Sua argumentação poderia ser resumida assim:
música reúne pessoas; pessoas reunidas podem formar comunidades; comunidades podem ser mobilizadas; mobilização pode produzir transformação.
Podemos concordar ou discordar dessa narrativa. E devemos submetê-la ao escrutínio: verificar números, impactos, contradições e externalidades.
Mas é justamente isso que torna o exemplo interessante.
O Rock in Rio percebeu que, para além dos artistas, palcos e ingressos, existe uma disputa pelo significado social do evento.
Da economia da experiência à economia de significado
Durante algumas décadas, tornou-se comum falar em “economia da experiência”. O conceito continua relevante, mas talvez já não seja suficiente.
Os públicos contemporâneos não querem apenas experiências memoráveis. Cada vez mais perguntam o que essas experiências significam.
Sustentabilidade, diversidade, inclusão, pertencimento, mudanças climáticas, solidão, hiperconectividade, inteligência artificial, acessibilidade, saúde mental, envelhecimento, identidade, território e comunidade atravessam a vida social e inevitavelmente chegam aos eventos.
Não significa que todo congresso precise abraçar uma causa ou que cada festival deva transformar-se em manifesto político.
Significa algo mais elementar: nenhum evento acontece fora de seu tempo.
Seus públicos chegam carregando as questões de seu tempo.
As organizações que compreendem isso deixam de perguntar apenas “como podemos entreter?” e começam a perguntar “que significado estamos produzindo juntos?”
Marcas não patrocinam apenas eventos
Essa mudança também deveria modificar a lógica dos patrocínios.
Quando uma empresa coloca sua marca em um evento, ela não compra simplesmente visibilidade.
Ela ingressa em um sistema de significados.
Associa-se à história, aos públicos, aos comportamentos, às causas, aos territórios e até às controvérsias daquele acontecimento.
Por isso, a pergunta mais interessante para um patrocinador talvez não seja “quantas pessoas verão nossa marca?”, mas:
Por que queremos estar aqui?
Que vínculo essa presença produz?
O patrocínio melhora a experiência ou apenas adiciona publicidade a ela?
Que legitimidade a marca recebe do evento e que legitimidade o evento recebe da marca?
Essa reciprocidade merece muito mais atenção das áreas de comunicação.
Do evento que se narra ao evento que existe
Há, finalmente, uma precaução indispensável.
Quanto mais um evento reivindica propósito, impacto social, sustentabilidade ou transformação, maior deve ser a possibilidade de escrutínio de suas práticas.
É necessário comparar o evento que se narra com o evento que pode ser observado.
Uma bela narrativa de sustentabilidade precisa conversar com resíduos, energia, transporte e emissões.
Uma narrativa de diversidade precisa conversar com acessibilidade, fornecedores, contratação e representação.
Uma narrativa sobre território precisa ser comparada à experiência de quem vive naquele território.
É nessa tensão entre narrativa e realidade que se constrói ( ou se perde ) legitimidade social.
Aprender a olhar os eventos
Talvez precisemos, portanto, reaprender a olhar os eventos.
Uma fórmula inicial, que lembra os meus tempos, ainda nos anos 1970, de estudante de Matemática e de mais de uma década como projetista no campo da Engenharia, poderia ser:
história + memória + território + ritual + sentidos + narrativa + públicos + temas contemporâneos + impactos = experiência do evento.
Não se trata de uma equação matemática, evidentemente. É uma maneira de lembrar que, por trás do palco e da planilha, existe uma estrutura cultural muito mais complexa.
Um evento organiza espaço e tempo. Mobiliza corpos e sentidos. Cria rituais. Produz imagens. Atualiza memórias. Ocupa territórios. Reúne comunidades. Atrai marcas. Expressa valores. Legitima comportamentos. Gera impactos.
E, sobretudo, conta histórias sobre quem somos e sobre quem desejamos ser.
Por isso, talvez a principal pergunta para quem trabalha profissionalmente com eventos já não seja apenas “como vamos realizar este evento?”
A pergunta anterior, e muito mais difícil, é:
“Por que este evento precisa existir e que significado ele deixará quando terminar?”
ARTIGOS E COLUNAS
Paulo Nassar Um evento nunca é apenas um eventoNelson Silveira Só os rituais nos salvam do algoritmoElizeo Karkoski Gestão de relacionamentos e a NR-1: a Comunicação Interna como ativo de prevenção
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