Beethoven contra o ruído do mundo

Quando os dias se abrem sob o som imaginário das trombetas da guerra, quando o noticiário e as conversas cotidianas parecem disputar quem produz mais ruído e menos sentido, o desânimo não é fraqueza: é sinal de lucidez. Há épocas em que estar cansado é apenas reconhecer que algo essencial está sendo ameaçado. Foi também em um tempo assim, entre o final do século 18 e o início do século 19, que viveu Ludwig van Beethoven.
Beethoven atravessou um período marcado por guerras, colapsos políticos e profundas transformações sociais na Europa. A promessa iluminista de progresso convivia com a violência das guerras napoleônicas e com desigualdades persistentes. A esse cenário histórico adverso somava-se sua tragédia pessoal: a perda progressiva da audição, que o conduziu à surdez total. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, ele escolheu afirmar, em música, aquilo que a história insistia em negar.
A 9ª Sinfonia de Beethoven, concluída em 1824, não nasce de um tempo pacificado. Ela carrega a densidade de uma época exausta e, ao mesmo tempo, a ousadia de quem se recusa a aceitar o cinismo como destino. Ao musicar a Ode à Alegria, poema de Friedrich Schiller, Beethoven rompe com as convenções de sua época e introduz, pela primeira vez em uma sinfonia, a voz humana como portadora de uma mensagem ética: “Todos os homens tornam-se irmãos”. Não se trata de doçura ingênua, mas de uma exigência radical dirigida a um mundo em fratura.
Há uma melancolia profunda nessa obra, mas ela não conduz à rendição. A surdez de Beethoven transforma-se em metáfora poderosa: privado da escuta física, ele compõe uma música que fala justamente da escuta do outro, da humanidade comum, daquilo que resiste mesmo quando o mundo se torna ensurdecedor de ódio. É uma melancolia que pensa, que não abdica, que se converte em resistência intelectual e espiritual.
Não é por acaso que, após duas guerras mundiais, o último movimento da 9ª Sinfonia foi adotado como hino da União Europeia. Em vez de símbolos militares ou discursos triunfalistas, escolheu-se a música. Um gesto deliberado: afirmar a “unidade na diversidade” por meio de uma linguagem que não pertence a nenhuma língua, a nenhuma nação específica, mas a um ideal sempre frágil e sempre ameaçado de convivência.
Ouvir Beethoven em tempos difíceis, em guerras reais ou simbólicas, é, portanto, um ato político no sentido mais alto do termo. Não é fuga da realidade, mas recusa da desumanização. É lembrar que a civilização não se sustenta apenas por armas, tratados ou mercados, mas por valores compartilhados que exigem vigilância constante: dignidade, liberdade, fraternidade.
Para quem hoje se sente desanimado, talvez reste esse consolo firme e exigente: a história já foi mais escura do que o presente, e ainda assim produziu obras capazes de convocar a humanidade ao que ela tem de melhor. Se, no silêncio forçado da surdez, um homem do século 19 pode proclamar a alegria comum, então o ruído do nosso tempo não é absoluto.
A melancolia nos lembra do que está em risco. A contundência nos lembra do que não podemos abandonar. Entre uma e outra, permanece a possibilidade, discreta, difícil e humana, de continuar escutando, e de continuar acreditando, apesar de tudo, em um futuro comum.
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