Quebrando a quarta parede
31 de janeiro de 2022
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Publicado originalmente no LinkedIn em 24 de janeiro de 2022

“O amor está na raiz de tudo, de todo aprendizado, de todas as relações. O amor ou a falta dele” (Fred Rogers)

Nas artes dramáticas, a quarta parede é uma convenção segundo a qual uma parede imaginária separa os atores do público. Graças a ela, o público é convidado a penetrar num universo que existe, supostamente, a despeito de sua presença. Os atores, mergulhados na ficção, agem como se a plateia não estivesse ali. Esta, por sua vez, assiste à ação que se desenrola diante de seus olhos sem se envolver ativamente com ela, mas, paradoxalmente, mais envolvida pela ilusão cênica, que ela fortalece.

A quebra da quarta parede acontece quando a plateia é convidada a interagir criticamente com a ação, por meio de um personagem que dirige sua atenção a ela, ou quando os próprios personagens expressam de alguma forma a consciência do jogo cênico. Quebrada a ilusão, o público é instigado a uma atitude menos passiva e mais reflexiva.

No teatro e no cinema, são inúmeros os exemplos de obras que usam a quebra da quarta parede para provocar os mais diversos efeitos. Pelas reflexões que me suscitou sobre liderança, comunicação e atenção genuína numa era de dispersão, trago aqui uma cena do filme “Um Lindo Dia na Vizinhança”, dirigido por Marielle Heller e estrelado por Tom Hanks. São 60 segundos de silêncio absoluto. Sim, 60 inimagináveis segundos (!), numa cultura de imagens que se sobrepõem cada vez mais freneticamente. O que, a princípio, poderia gerar apenas surpresa, transforma-se num convite à reflexão com a quebra da quarta parede – e a atuação de um ator do quilate de Hanks.

A cena traduz o poder da atenção genuína e é uma das melhores do filme, cujo grande trunfo é justamente trazer à vida, na estrutura narrativa, a principal mensagem do personagem real que retrata. A tal ponto que ele deixa de ser o protagonista da própria história. É na relação com o verdadeiro protagonista do filme, o jornalista Lloyd Vogel, que se desenha o perfil de Fred Rogers, autor, produtor e apresentador do programa infantil “Mister Roger´s Neighborhood”, que ficou 33 anos no ar na tevê americana. Tendo na sensibilidade, na empatia, no envolvimento com o interlocutor e na responsabilidade afetiva suas grandes marcas e seu principal legado, que outra forma melhor traduziria o personagem senão uma relação verdadeira, que transforma o jornalista escalado para produzir, inicialmente, um perfil de 400 palavras do astro da tevê? O perfil, também transformado, virou reportagem de 13 páginas, assinada por Tom Junod, o jornalista que inspira o personagem de Vogel. Foi ela que serviu de base para o roteiro do filme. Vale a leitura!

Convenções dramáticas à parte, o filme e a trajetória de Rogers são um convite a que enxerguemos o mundo a partir de outro olhar. Um olhar atento, interessado e pleno, livre das distrações com que a atualidade disputa nossa limitada atenção. E foi esse convite que me provocou a extrapolar o conceito dramático da quarta parede para uma metáfora sobre a atenção genuína em nosso mundo hiperconectado.

O quanto nossa realidade multitelas e multitarefas nos condiciona a erguer quartas paredes nas relações que estabelecemos com nossos pares, pessoal e profissionalmente? O quanto, na ânsia de mantermos um ilusório controle sobre tudo, nos escudamos de encontros tão verdadeiros quanto imprevisíveis, erguendo barreiras invisíveis que supostamente protegem o que trazemos por dentro? E o quanto essas mesmas barreiras são, em realidade, inócuas como proteção, mas extremamente eficazes para nos entorpecer?

Queremos o rápido, o múltiplo, o que dá menos trabalho e pode ser facilmente compreendido e manejado. Passamos pela superfície, evitando o mergulho, que exige tempo e foco. O objetivo é não deixar nada escapar, dar conta de tudo, participar de todas as conversas, estar em todos os lugares. O resultado é que perdemos a essência. Não estamos em lugar algum. Nem em nós mesmos.

Na comunicação, o encontro com o outro é condição essencial. Mas só se encontra com o outro aquele que se encontra consigo próprio – que está onde estão sua atenção, sua energia e seu coração. Pensando no cenário organizacional, num passado recente ainda havia a crença num modelo de comunicação unidirecional, construído sobre papéis fixos de emissor e receptor, no qual uma mensagem era cuidadosamente construída para chegar pronta a alguém que a receberia passivamente. Ilusão completamente desfeita pela realidade atual, na qual os papéis se intercambiam ininterruptamente e a comunicação exige engajamento. Mais uma vez, essencial é o encontro. E não seria a consistência a perfeita tradução organizacional para o tal encontro consigo próprio? Discurso e prática alinhados, revelando o valor que a organização constrói na relação com seus múltiplos stakeholders.

Por fim, o papel da liderança. Metaforicamente, o equivalente à quarta parede é a liderança sem envolvimento, baseada nas relações transacionais e nas cadeias de comando e controle. Enxerga-se uma tarefa a ser executada e um recurso para executá-la. O resultado pode ser rastreável e previsível, mas dificilmente será mais do que isso. Algo além pode acontecer, ao contrário, quando o humano é trazido para essa relação, construída sobre o exemplo e na qual se enxerga não apenas a tarefa a ser executada, mas também o potencial de alguém que pode transformar o resultado em algo surpreendente, por trazer para a equação o que tem de único – o que só se dá quando há espaço e condições favoráveis.

Voltando a Rogers, “o amor está na raiz de tudo, de todo aprendizado, de todas as relações”. Fora da arte, é ele, também, o motor para a derrubada da quarta parede. O amor pelo outro, por nós próprios, pelo humano, pelo diverso, pelo desconhecido, pelo imprevisível… O amor pelo encontro. Porque, na arte, a quarta parede pode até nos permitir vislumbrar uma realidade que se desenrola diante de nossos olhos. Mas, na vida, o que ela faz é nos privar do encontro verdadeiro. Com o outro e com nós mesmos.

 
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