Os Sermões da Peroba e da Montanha: a força das narrativas da experiência na comunicação

Outro dia, em uma troca de mensagens com meu amigo, o escritor Domingos Pellegrini, falávamos sobre a força das histórias que brotam da experiência — aquelas que não se perdem com o tempo porque grudam na pele, no cheiro, no susto. Domingos, sempre atento ao que realmente pulsa, me disse algo que carrego até agora: a narrativa da experiência é uma narrativa viva. E, como toda coisa viva, ela respira, se move, toca, deixa marcas.
Ele me deu um exemplo que é quase um poema: as últimas perobas em pé na cidade de Londrina. Árvores descomunais, sobreviventes da destruição da floresta causada pela cafeicultura intensiva e pela modernidade apressada. Uma floresta intertropical que cobriu a região por mais de 300 séculos e foi derrubada e queimada em menos de cinquenta anos. E o que resta? Uma ou outra peroba solitária, monumento mudo da ignorância coletiva. Elas nos dizem mais sobre nossa história do que os sermões lidos em igrejas cujos fiéis sonham em transformar suas cidades em cópias tristes da Times Square, com seus luminosos vazios de seiva e clorofila.
A última peroba é bela. Mas é uma beleza triste. E é nesse contraste que mora a força da narrativa da experiência: ela não explica, ela faz sentir.
Outro amigo, de uma família que tem morada na Serra da Mantiqueira, me contou de um ritual que me comoveu. A cada aniversário cheio — 30, 40, 50, 60 anos — a família sobe junta uma montanha. O corpo é colocado em movimento. O coração pulsa junto com a paisagem. E cada um, ao chegar ao topo, encontra não só o horizonte, mas também a própria história. Essa é a narrativa que permanece. Que forma memória coletiva. Que transforma o tempo em rito.
Será que é preciso ler Spinoza para entender tudo isso?
Talvez não — mas ajuda. O filósofo do século XVII nos lembrou que o corpo sente antes da razão compreender. Que os afetos — essas variações sutis da nossa potência de existir — são a base de todo conhecimento verdadeiro. Narrar, portanto, não é apenas organizar fatos em sequência: é afetar o outro. É provocar um movimento interior. É transformar quem ouve — ou quem sobe a montanha, ou quem se curva diante da última peroba.
António Damásio, o neurocientista que recoloca o corpo no centro da cognição, diz que os sentimentos são mapas do corpo. E que toda boa decisão nasce de uma emoção. Eu gosto de pensar que toda boa narrativa também.
Brian Massumi, filósofo da sensação, diz que o afeto é uma vibração que vem antes da palavra. Que a gente sente antes de saber. Isso explica por que certas histórias, ou experiências, mexem com a gente mesmo quando não conseguimos explicar o porquê.
E Suely Rolnik, com sua cartografia dos afetos, em parceria com o Félix Guattari, fala de uma política do sensível. De como certas narrativas nos desorganizam por dentro e, por isso mesmo, são libertadoras.
A comunicação que importa hoje, em tempos de hiperexposição e déficit de atenção, é a que faz o outro parar. Sentir. Respirar diferente. É a que não apenas informa, mas transforma. E só se transforma aquilo que é vivido com o corpo inteiro. Por isso, defendo que precisamos olhar mais para as narrativas da experiência. Elas não são “cases”. São vivências. E por isso permanecem.
Elas não querem viralizar, querem vibrar.
Não querem convencer, querem tocar.
Não querem explicar, querem inscrever.
A última peroba em pé é uma narrativa viva. A montanha na Mantiqueira, galgada pelo amigo Eloi Zanetti e sua famíla, é uma narrativa viva. O abraço inesperado, o cheiro da infância, a lágrima contida, tudo isso é narrativa viva.
E, no fim, talvez só ela permaneça.
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