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06 de janeiro de 2026

A comunicação, o gato de Schrödinger e os paradoxos do dia a dia

Carlos Parente
 
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Eis que chegamos à nossa primeira conversa do ano. Aqueles dias que são, ao mesmo tempo, de abertura e de balanço – renovação, respiro, de procurar o horizonte e firmar o olhar para seguir em frente, com fé e coragem. O ano de 2026 será animado: tem Copa do Mundo de futebol, eleições no Brasil, fora o resto, em nosso país e no mundo, o que não é pouco. Força e serenidade para todos nós!

Quem gosta de ficção científica com um toque de suspense psicológico, bem como de física quântica, recomendo, para quem ainda não assistiu, a série “Matéria Escura” (Dark Matter), que foi lançada pela Apple TV+, em 2024. Baseada no famoso livro de Blake Crouch, com o mesmo título, resumidamente explora universos paralelos e as escolhas de vida. Depois de assistir à série, fiquei pensando em como temos vivido, ultimamente, tantos paradoxos. Tropeçamos neles ao caminhar.

Então me lembrei de um que gosto muito, “O Gato de Schrödinger”, uma experiência mental, desenvolvida pelo físico austríaco Erwin Schrödinger, em 1935. Falando de forma bem sintética, o Gato de Schrödinger ilustra as estranhezas da mecânica quântica aplicada ao mundo cotidiano. Pelo experimento, há um gato dentro de uma caixa muito resistente totalmente fechada, com um mecanismo simples dentro, que tem 50% de chance de matar ou não o bichano. Enquanto a caixa está fechada, não se sabe o resultado, é a parte da física chamada “superposição”. Para o mundo de fora, enquanto ninguém olhou o gato não está só vivo e não está só morto. A física diz que, até o momento em que você abre a caixa e vê, o gato está, de uma forma mágica e simultânea, nas duas situações ao mesmo tempo: vivo/morto, como se ele fosse um fantasma, como se fossem duas coisas ao mesmo tempo!

O que indica se o animal está vivo ou morto é o momento em que você abre a caixa e olha. Ao abrir e olhar, você destrói a mágica da superposição. Naquele instante, o gato “decide” (na verdade, a chance decide) se está 100% vivo ou 100% morto.

Esse experimento serve para mostrar uma coisa muito esquisita da física: antes de você olhar, as coisas podem estar em vários estados ao mesmo tempo (como o gato vivo e morto). O ato de olhar (ou medir) é o que força o objeto a “escolher” um estado e acabar com a mágica. É uma forma de pensar sobre como as regras do mundo muito, muito pequeno (como átomos e partículas) parecem ser muito diferentes das regras do nosso mundo grande (como gatos e caixas)! É um exercício bem interessante…

E conhecemos um monte de gente viva/morta. Repare bem. Estamos diante de muitas generalizações e sobreposições, as redes sociais nos deram essa possibilidade e a liberdade de criarmos instantaneamente vivos/mortos, e não hesitamos em “cancelar” ou enaltecer alguém pura e simplesmente, sem diálogo, sem refletir, sem dó e porque sim. Ponto. Vivos/mortos.

Tudo bem que há um exército de autodenominados influencers a balbuciar suas cretinices e expor suas mediocridades nas redes, sem o menor pudor, em busca de um luminoso para parar embaixo e uns reais na conta, mas tem gente de qualidade indo de roldão na queima de reputação pela falta de percepção sobre o outro a respeito dos dois estados (vivo/morto) nestes paradoxos continuados que estamos vivendo.

As empresas também. Há aquela quase morta, que vai para a recuperação, baixa a bola operacional, luta, e quando a olhamos, está de volta: morta/viva!

Deveríamos ser mais cuidadosos e conscientes ao dar opiniões, cautelosos ao sentar o dedo nos botões de cancelar e triturar reputações. Sabemos que em muitos casos a emoção é má conselheira e o Brasil vive um momento mais complexo do que o normal às vésperas de um ano eleitoral. A juventude atual tem perdido a garra e o gosto pelo prazer do debate, a utopia, às vezes até o propósito; a vida moderna e as redes sociais têm nos tomado a sabedoria coletiva e nos têm isolado como indivíduos, solitários, segmentados, e tem nos submetido a um processo que nos transforma em coisas, objetos para o consumo, como nos lembra Walter Benjamim (1892-1940) e muito bem explicado pelo conceito sociológico da coisificação ou reificação.

Acabamos de mudar a folhinha, digo, o calendário, e começamos tudo outra vez. Desejo a você um excelente começo, com brilho nos olhos e serenidade para aproveitar bem o tempo. Feliz 2026! Um abraço.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Carlos Parente

Graduado em Administração de Empresas pela UFBA, com MBA em Marketing pela FEA USP, possui um sólido histórico de experiência em Relações Institucionais & Governamentais, Comunicação Corporativa e Advocacy, com participações e lideranças em processos de comunicação estratégica, inclusive internacionais. Carlos Parente é sócio-diretor da Midfield Consulting.

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