Renata Petrocelli Bezerra Paes é superintendente de Comunicação da Eletrobras.

05 de outubro de 2021

BREVE HISTÓRIA DA
NOVA COMUNICAÇÃO

A necessidade do uso de tecnologias durante a pandemia deixou ainda mais claro que a matéria-prima dos comunicadores é a humanidade

Renata Petrocelli Bezerra Paes

Renata Petrocelli Bezerra Paes é superintendente de Comunicação da Eletrobras.

Era uma vez uma época de mudanças em velocidade exponencial. Época em que poucas áreas experimentavam tamanha ebulição quanto a comunicação. Em um brevíssimo espaço de tempo, a tecnologia havia transformado todos em comunicadores. E a informação, antes investigada, burilada e divulgada com pompa e circunstância, então se propagava em tempo real. Inovação, para os comunicadores, não era mais artigo de luxo, mas sim kit de sobrevivência. O cenário que as universidades haviam ensinado nas décadas anteriores simplesmente não existia mais. Todos os paradigmas haviam mudado – da exclusividade para o compartilhamento, da surpresa para a transparência constante, do controle para o engajamento, da concorrência para a colaboração.

Se por um lado as tecnologias desafiam, por outro são elas próprias as fontes mais significativas de oportunidades. Exatamente como as crises. Assombram e surpreendem. Angustiam, mas descortinam novos horizontes. Levam embora o conforto do já aprendido e dominado, mas trazem, em contrapartida, o encantamento diante do novo e inesperado. Em um cenário no qual digitalização, big data, analytics e social listening aceleravam e aprofundavam cada vez mais as transformações no campo da comunicação, um novo personagem entrou em cena e pôs tudo em suspenso. O mundo parou diante da pandemia de Covid-19. Mas tudo voltou a girar em velocidade até maior do que antes.

Para os olhares atentos, porém, muita coisa mudou após essa breve suspensão. E essa história nos fala de inovação na comunicação e do papel estratégico que ela pode – e deve – ter para o fomento à inovação. A reinvenção diária dos processos e práticas de trabalho tem sido a tônica de todas as áreas de atuação desde o advento da pandemia. Impossível imaginar esse período, e a forma como nos reorganizamos diante dele, sem o crucial aparato da tecnologia. Com ela, encurtamos as distâncias, criamos espaços de colaboração fora de nossos escritórios, mantivemos contato sem presença física. É tentador dizer que é ela – a tecnologia – a personagem central dessa história. Mas aquele espectador mais atento enxerga além. E o script da comunicação dá boas pistas dos subtextos que a história revela.

Voltando aos momentos iniciais da pandemia, a crise colocou à prova em primeiro lugar nossas culturas organizacionais. E a necessidade de gerar engajamento, compartilhar propósito e criar narrativas que façam emergir significado para o coletivo tornou-se ainda mais premente. O papel da Comunicação ficou mais evidente, porque coube a ela preencher as lacunas que a falta da interação física e da convivência no ambiente de trabalho deixou.

Por outro lado, ficou mais evidente também a importância das habilidades de comunicação para o papel da liderança. Gerir os times a distância exigiu mais empatia, escuta genuína, atenção aos detalhes e capacidade de gerar conexão e senso de propósito. Enquanto enfrentavam os próprios medos e incertezas, os líderes precisaram reinventar a forma de se conectar com seus times – conexão em sentido amplo, para além das ferramentas e plataformas.

“Fizemos uma espécie de retorno ao essencial.
O conteúdo sobressaiu à forma”

De alguma forma, por mais paradoxal que possa parecer diante da onipresença da tecnologia, fizemos uma espécie de retorno ao essencial. O conteúdo sobressaiu à forma. O contexto, às ferramentas. Todos recorremos a uma comunicação mais próxima, humanizada, centrada naquilo que nos conecta como seres humanos. Diante da crise, as empresas foram instadas a cumprir um papel social mais efetivo, posicionando-se diante de seus stakeholders como agentes capazes de inspirar segurança e serenidade ante o caos. Seja junto ao público interno, assegurando as condições para o trabalho remoto ou as medidas preventivas de contágio quando necessário o trabalho presencial; seja apoiando os fornecedores na superação das dificuldades advindas da crise; seja contribuindo com a sociedade por meio da doação de equipamentos para o enfrentamento da pandemia, todas precisaram se posicionar por meio de ações concretas e significativas, comunicadas a todos os stakeholders.

Mais presença, mais proximidade, mais emoção. Um verdadeiro retorno ao essencial. E foi assim que, em um ano em que a tecnologia brilhou, outro personagem ganhou força e protagonismo com aquilo que tem de mais básico e ao mesmo tempo intraduzível: sua humanidade. É neste ponto da história que Comunicação e inovação se unem mais uma vez. Por mais que siga premida por números, monitoramento contínuo, necessidade de resposta imediata, feedbacks instantâneos e ferramentas que parecem transformar tudo em uma equação matemática, a Comunicação tem no capital humano seu ativo mais valioso. Pensamento e emoção. Intraduzíveis.

Mais do que inovar pela aplicação eficiente da tecnologia, portanto, seu papel de maior destaque reside na criação, no fortalecimento e na nutrição contínua de espaços de colaboração e troca de conhecimentos, essenciais para o florescimento da inovação. Por meio da conscientização dos múltiplos atores envolvidos no dia a dia das empresas, da formalização de práticas que propiciem a integração e a conectividade, da criação de espaços de escuta genuína entre colaboradores e líderes, do planejamento e da execução de programas que fomentem a conexão entre as múltiplas formas de conhecimento e a valorização da diversidade como fonte de riqueza, a Comunicação corporativa pode não apenas fortalecer seu papel estratégico dentro das organizações, como contribuir de maneira decisiva para transformar a realidade das empresas.

Era uma vez uma época de mudanças em velocidade exponencial. Época em que brilharam profissionais que, despertos da corrida desenfreada para se manterem em dia com as transformações, mergulharam em sua essência e assumiram, eles próprios, os papéis de agentes de transformação. E assim, de mãos dadas com a mudança e não mais correndo atrás dela, compreenderam que a inovação nascia dentro deles.

 

*Os artigos assinados na revista não necessariamente refletem a opinião da entidade e são de exclusiva responsabilidade dos autores
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