Daniela Grelin é diretora do Instituto Avon.

07 de abril de 2021

TRABALHA E CONFIA

Em tempos de pandemia, as empresas precisam ter uma coordenação baseada na confiança. Sem isso, a clareza na tomada de decisões e o engajamento do público vão se corroendo

Daniela Grelin

Daniela Grelin é diretora do Instituto Avon.

O pensador Yuval Harari acredita que a nossa capacidade de colaborar depende da nossa capacidade de confiar uns nos outros. A confiança enseja comportamentos altruístas visando ao longo prazo; a falta dela leva a atos oportunistas e à erosão da crença na ciência e na informação. Em um momento em que o mundo atravessa uma longa crise, é vital que as empresas reforcem a confiança de seus públicos em suas marcas.

A pesquisa Edelman Trust Barometer publicada em janeiro de 2021 aponta para um quadro de infodemia. Pela primeira vez nos mais de 20 anos do estudo, a maior parte dos entrevistados afirmou acreditar que a mídia, os governos, as empresas e as ONGs trabalham para desinformá-los. Existe uma crise de confiança, e, por causa dela, muitas pessoas perderam a capacidade de colaborar. Dissolveu-se parte do elo moral comum que permite que os seres humanos desenvolvam empatia e criem comunidades.

Segundo a mesma pesquisa, os CEOs hoje têm um papel tão fundamental quanto o dos governos para endereçar demandas sociais urgentes. Os executivos, porém, são vistos como duas vezes mais capazes. Isso mostra uma tendência, que vem se consolidando ao longo dos anos, de olhar para os negócios e seus líderes, por sua capacidade de inovação e de geração de valor, como fonte de solução de problemas da sociedade. O capital ético entra nessa equação como um viabilizador para essa capacidade de reinvenção e ressignificação do papel dos negócios e dos produtos. É um farol neste momento de crise.

As empresas são como macrorganismos que, para se movimentar com agilidade e assertividade em direção a seu objetivo estratégico, precisam ter uma coordenação baseada nessa confiança. Sem isso, a clareza na tomada de decisões e o engajamento do público vão se corroendo junto com a competitividade das marcas. A comunicação é vital nesse sentido. O cérebro humano reage a histórias. A partir delas, as pessoas constroem elos morais, valores éticos comuns e uma visão de futuro. A comunicação é uma das disciplinas mais importantes na tarefa de reconstruir a confiança e combater a infodemia. Para isso, precisa ser pautada pela clareza e pela transparência. Antes de falar, faça; seja transparente em relação ao que você não sabe, ao que não deu certo; e seja ágil.

Neste momento em que a nova configuração do ambiente de trabalho acabou com o planejamento de comunicação interna tradicional, a demanda pela agilidade é imensa, e essa comunicação tem de ser constante, rápida, consistente, transparente e mais efetiva.

Denise Hills, diretora global de sustentabilidade da Natura, diz que toda empresa gera impactos e gerencia riscos. Quando não há uma boa gestão do impacto, ele pode se tornar um risco. Em um momento como este, se a companhia não acompanhar a saúde mental dos funcionários, da cadeia de produção e, em última análise, do consumidor, estará correndo riscos que vão causar problemas para sua produtividade e para sua capacidade de gerar riqueza e prosperidade, além de criar uma crise de confiança.

O futuro do trabalho também vai depender dessa confiança. Pelo menos por algum tempo, as pessoas estarão fisicamente separadas; portanto, a ilusão de controle gerada pelos mecanismos tradicionais não vai mais existir. Além disso, havia uma distinção clara entre o ambiente de trabalho e o familiar. Os desafios que mulheres e homens enfrentavam em casa estavam razoavelmente dissociados das questões de trabalho.

Antes as empresas precisavam resguardar o ambiente de trabalho como um local livre de assédio sexual e moral; agora também o ambiente doméstico virou ambiente de trabalho. Isso coloca em evidência desafios de diversidade e inclusão que se relacionam diretamente com as corporações. O que fazer com o fato de o peso das responsabilidades domésticas e familiares recair de uma forma desproporcional sobre as mulheres? Como lidar com o tema da violência doméstica e familiar? Esses assuntos passaram a influenciar cada vez mais os resultados do trabalho e a participação ativa da equipe, além da saúde mental das pessoas.

O engajamento dos funcionários é o melhor termômetro de que eles entendem aonde a empresa quer chegar, quais passos serão tomados, quais as mudanças necessárias, qual o papel de cada um nessa jornada, quais os valores e as políticas diretivas da empresa. Como várias interações estão sendo feitas a distância e as fronteiras entre os horários livres e os de trabalho se dissolveram ainda mais, o líder tem a obrigação de incluir em suas preocupações também a gestão da saúde mental dos funcionários, como um fator de sustentabilidade da empresa, e precisa garantir que tenham o direito de se desconectar.

O engajamento dos funcionários é o melhor termômetro de que eles entendem aonde a empresa quer chegar

A saúde mental dos empregados se tornou um ponto ainda mais importante, porque, além da pandemia, da violência doméstica, da infodemia e da corrosão da confiança, os problemas emocionais são agravados pela perda do convívio social. As comunidades fomentam confiança, aumentam o bem-estar e ajudam a ampliar os horizontes. O isolamento, por outro lado, contribui para a radicalização das opiniões e para a deterioração da saúde mental. Os líderes precisam reconhecer os problemas e manter um ambiente acolhedor para ajudar os funcionários a navegar nesse mar revolto, seja no ambiente de trabalho ou no familiar.

*Os artigos assinados na revista não necessariamente refletem a opinião da entidade e são de exclusiva responsabilidade dos autores
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