Estevam Pereira é sócio do Grupo Report.

07 de abril de 2021

ESG REPRESENTA SALTO SUSTENTÁVEL

A evolução do tema foi lenta, mas finalmente os valores ESG estão sendo considerados importantes para os investidores e a estratégia das empresas

Estevam Pereira

Estevam Pereira é sócio do Grupo Report.

No final do século passado, quando as empresas começaram a publicar relatórios de sustentabilidade, poucas tinham uma agenda consistente no tema ou faziam um acompanhamento real dos indicadores que relatavam. Em 1997, surgiu a diretriz global GRI (Global Reporting Iniciative), que enfatiza os indicadores de desempenho para além dos resultados financeiros. Ela continha um elemento importante, o princípio da materialidade, que os especialistas em sustentabilidade “sequestraram” das ciências contábeis. A materialidade diz que, se um dado específico tem impacto no desempenho da empresa ou na percepção dos stakeholders, já é um tema material e merece ser parte da estratégia, da gestão e da comunicação da companhia.

Porém, na primeira década de 2000, o problema era que muitas vezes essa lógica não se relacionava com a realidade do negócio. Tanto que, naquele momento, a comunicação da sustentabilidade era centrada em ações sociais que nada tinham a ver com o negócio em si. Até 2019, a sustentabilidade ainda não estava no radar dos investidores no Brasil, fazendo parte apenas das avaliações de alguns investidores na Europa e nos Estados Unidos. No mesmo ano, os poucos participantes de um evento do Pacto Global organizado no Brasil revelaram que, em geral, o interesse pelo tema nos bancos e nas gestoras de investimento em que trabalhavam era mínimo. Em 2020, no entanto, tudo mudou, e os aspectos ESG explodiram.

A sustentabilidade, com a materialidade e os indicadores de desempenho, finalmente entrou para a agenda dos investidores e agora é a direcionadora de boa parte de sua atuação. Tornou-se comum ler nas explicações das corretoras: “Todos os fundos levam em consideração critérios sociais e ambientais”, mesmo nas daquelas que mantêm em suas carteiras empresas
que ainda não estão alinhadas com questões como as mudanças climáticas, por exemplo.

Um dos grandes responsáveis por incentivar essa mudança foi Larry Fink, CEO da maior gestora de fundos do planeta, a BlackRock, responsável pela gestão de mais de 7 trilhões de dólares. Em sua carta anual, publicada no começo de 2020, ele reforçou a importância do acompanhamento dos indicadores socioambientais e dos fatores relacionados às mudanças climáticas. Fink é um formador de opinião poderoso entre empresas e investidores, e, por isso, seu texto fez o mercado se movimentar. A partir daí o ESG passou a fazer parte da preocupação dos investidores e, por consequência, tornou-se estratégico para a maioria das empresas, que também começaram a se interessar pelo pacote completo de prestação de contas e acompanhamento mais transparente dos indicadores: relatório GRI, relatório integrado, informações ESG no site e nas interações com os investidores etc.

Algumas pessoas perguntam qual seria a diferença entre sustentabilidade e ESG. Embora falem das mesmas coisas, pode-se dizer que a primeira é uma preocupação geral da sociedade, enquanto o segundo é uma agenda dos investidores e gestores de recursos. Atualmente, para se ter noção da importância que o assunto assumiu, quem está administrando essas questões nas empresas são as áreas de relações com investidores, pois os fatores ESG geram valor e direcionam a captação dos investimentos das empresas.

Hoje, justamente por causa da demanda dos investidores, as diretrizes GRI ganharam ainda mais importância. Junto com elas, o relato integrado, que, em vez de indicadores, traz princípios de comunicação que ajudam as empresas a mostrar a gestão integrada do negócio. Os relatórios integrados entraram na pauta em 2010, quando foi criada a International Integrated Reporting Council (IIRC), uma coalisão global de pessoas ligadas a empresas, investidores, legisladores, ONGs e acadêmicos, entre outros, para promover uma melhor comunicação da criação de valores nos relatórios corporativos.

Recentemente, cinco organizações que atuam em diferentes frentes da divulgação de informações de sustentabilidade juntaram forças para formular uma visão compartilhada e abrangente de um sistema de relatórios corporativos. Além de GRI e IIRC, estão na iniciativa o Carbon Disclosure Project (CDP), o Climate Disclosure Standards Board (CDSB) e o Sustainability Accounting Standards Board (SASB) – essas organizações anunciaram uma visão compartilhada de um sistema de relatórios corporativos.

A percepção é que hoje o ESG faz uma grande diferença no bolso, pois é capaz de atrair ou de repelir investidores

Tal iniciativa faz todo o sentido. Os impactos ambientais e sociais realmente entraram na pauta das corporações, e cada vez mais as empresas se concentram em fatores sociais, ambientais e de governança que fazem parte do coração do negócio: como enfrentam ou se adaptam às mudanças climáticas, como lidam com produtos originários da biodiversidade, como se relacionam com os stakeholders de sua cadeia de valor, como os conselheiros e executivos abordam as questões de integridade.

Mesmo no Brasil, onde o governo trabalha contra os temas ESG, um número cada vez maior de companhias vem se mobilizando para inserir esses aspectos em sua estratégia, sua gestão e sua comunicação. Afinal, a percepção é que hoje o ESG faz uma grande diferença no bolso, pois é capaz de atrair ou de repelir investidores. A hora da verdade para as empresas chegou.

*Os artigos assinados na revista não necessariamente refletem a opinião da entidade e são de exclusiva responsabilidade dos autores
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