Eduardo Saron é diretor do Itaú Cultural.

07 de abril de 2021

É HORA DE AGIR COM EQUIDADE

Para construir sustentabilidade, é preciso crescer economicamente, diminuir as desigualdades e encontrar caminhos para acolher, apoiar e transformar

Eduardo Saron

Eduardo Saron é diretor do Itaú Cultural.

A pandemia de Covid-19 trará fortes impactos para o Brasil neste e nos próximos anos. Estamos vivendo um aumento expressivo da pobreza e o crescimento das desigualdades, o que impõe novos desafios não apenas para os governos, mas também para as empresas e a sociedade.

Em 2019, segundo o IBGE, 51,7 milhões de brasileiros – mais do que a população da Argentina – viviam abaixo da linha de pobreza, com renda equivalente a 5,50 dólares por dia. Trata-se de uma legião de destituídos empurrada para uma existência precarizada e sem futuro.

A situação se agrava com a perspectiva de que, a partir de 2030, o número de idosos será maior que o de crianças e adolescentes com até 14 anos no país. Se não mudarmos o rumo agora, os jovens de hoje também serão os velhos desassistidos de amanhã.

É urgente encontrar saídas para essa tragédia social, e isso passa pela construção de equidade, empatia, propósito e responsabilidade social corporativa. A sociedade civil, o que inclui as empresas, precisa se engajar em projetos e programas para apoiar a transformação do país.

Os campos de atuação para isso são muitos. A cultura é um deles, pois possibilita a cidadania, a construção de identidade, a melhoria do aprendizado, estreita laços comunitários, reduz a violência e entrega bem-estar social.

O papel da arte nas políticas públicas já foi absorvido por países como Inglaterra, Irlanda, Noruega e Finlândia, nos quais é vista como aliada, inclusive, na promoção da saúde da população. Projetos artísticos fazem parte, por exemplo, de programas de controle da pressão arterial, segundo o relatório “What is the evidence on the role of the arts in improving health and well-being?”, publicado em 2019 pela OMS.

No campo da segurança pública, o exemplo vem da Colômbia. Um bem estruturado programa de oferta de arte e cultura, somado a outras intervenções institucionais, fez a taxa de homicídios de Medellín cair 95,1% em 25 anos. Em 1991, antes de ampliar a oferta de equipamentos e atividades culturais em bairros de vulnerabilidade social, ali ocorriam 382 homicídios para cada 100 mil habitantes, uma média de 18 mortes violentas por dia, indicador superado com uma boa política pública em que a cultura teve papel central. A cidade chegou a ser escolhida como a mais inovadora do mundo em uma competição realizada pela ONG norte-americana Instituto Urban Land. Conhecida como reduto da organização criminosa Cartel de Medellín, venceu Tel-Aviv e Nova York em uma votação de internautas.

Incorporando a educação a esse campo, está provado que crianças e jovens envolvidos em atividades culturais apresentam melhor desempenho escolar e menor suscetibilidade ao envolvimento com o crime. Estudo conduzido pela Organização Social Santa Marcelina Cultura, gestora do Programa Guri, de formação musical na região metropolitana de São Paulo, demonstrou que os alunos apresentaram melhora em suas habilidades emocionais, comportamentais e nas relações familiares. Cada real investido pelo governo do estado na iniciativa gerou 6,53 reais em benefícios sociais.

Vale observar, ainda, que neste ano o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), aplicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), incorporará, de maneira experimental, critérios de avaliação relacionados ao pensamento crítico e à criatividade. Essa iniciativa abre uma interessante agenda para quem quiser fortalecer a educação brasileira por meio de projetos de arte e cultura – essenciais para estimular esses novos requisitos propostos pelo programa.

Temos de refletir sobre o futuro da cultura e seu papel na sociedade brasileira e saltar para um modelo de interesse público calcado na formação, no fomento e na fruição. Assim, geraremos transformação social e abriremos um caminho perene para o setor, garantindo o acesso à cultura, como previsto no artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e no artigo 215 da nossa Constituição Federal.

Nós, gestores, devemos examinar as oportunidades existentes e encontrar as mais aderentes aos valores das nossas empresas, partindo para a ação, com apoio financeiro e gerencial e criando parcerias fecundas. Não se trata mais de encontrar projetos que ancorem uma campanha ou deixem nossas organizações bem posicionadas perante os stakeholders.

As empresas têm de exercitar a empatia agindo de forma coerente na construção de suas causas

As decisões pautadas pela busca do benefício próprio e de dividendos de curto prazo para as marcas provavelmente fracassarão.

Em um mundo no qual o fluxo de capitais será cada vez mais orientado pelos princípios da governança ambiental, social e corporativa (ESG), as escolhas terão de ser profundas e pactuadas com os acionistas, a alta administração e toda a organização. Elas serão melhores quanto mais transformadoras forem.

Neste momento crucial da história do Brasil e do mundo, no ambiente de pandemia, as empresas têm de exercitar a empatia agindo de forma coerente com as entregas de seu core e na construção de suas causas. Também com seu propósito orientado pelo genuíno interesse pelo país. É hora de agir com equidade. Quem optar por esse caminho falará ao coração da sociedade e dos consumidores e contribuirá para a construção da tão necessária sustentabilidade.

*Os artigos assinados na revista não necessariamente refletem a opinião da entidade e são de exclusiva responsabilidade dos autores
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