Diplomacia da ciência e da inovação
25 de setembro de 2020

As interações entre os interesses da ciência e do Estado sempre foram múltiplas e complexas, inclusive no plano das relações internacionais. No século XVIII, por exemplo, diversas monarquias europeias enviaram expedições de exploração para a América, África, Ásia e Oceania, em cuja tripulação contavam especialistas das áreas de astronomia, história natural e cartografia. Tais embarcações voltavam para a Europa com muito mais do que observações, compiladas em diários e ilustrações, e novos mapas. No convés, incontáveis espécimes minerais, vegetais e animais, que ainda hoje podem ser encontrados no acervo de seus museus de História Natural. No caso específico do Brasil, a inserção do conhecimento gerado aqui aos circuitos europeus foi um dos temas da aula da professora Íris Kantor no curso Pandemia e as instituições científicas no Brasil, a série Na Ordem do Dia, da Aberje. Contudo, o pano de fundo de empreitadas semelhantes era a disputa desses Estados por novos territórios e por sua consolidação como colônias.

Presume-se que esse seria o tipo de assunto englobado pela diplomacia da ciência se ela existisse nessa época. O fato é que apenas recentemente, após o final da Guerra Fria, que as relações entre ciência e diplomacia passaram a ser estudadas de modo sistemático. Em um documento conjunto de 2010, a Royal Society e a American Association for the Advancement of Science (AAAS) distinguiram entre três modos de sobreposição de ciência e diplomacia: 1. diplomacia para a ciência, 2. ciência na diplomacia e 3. ciência para a diplomacia.

Na primeira modalidade, a ciência é promovida pelas vias e ferramentas diplomáticas institucionais (o Ministério das Relações Exteriores auxilia pesquisadores, por exemplo, em questões de propriedade intelectual). Na segunda, cientistas e pesquisadores estabelecem ou consolidam relações entre países, inclusive em casos de rivalidade e/ou temas sensíveis (cientistas e laboratórios de diferentes países estabelecem acordos de cooperação a despeito do relacionamento oficial entre governos, por exemplo, no campo da energia nuclear). Na terceira, a diplomacia emprega de modo sistemático fontes, conhecimentos e métodos de origem científica (a diplomacia é vista e desempenhada como uma disciplina científica, por exemplo, através do uso de dados e modelos sobre mudança climáticas em negociações internacionais).

Além disso, é importante diferenciar esses três aspectos da cooperação científica feita por instituições não diplomáticas (cooperação regular ou esporádica entre universidades, laboratórios, pesquisadores etc. de diferentes países).

No entanto, uma vez que os interesses científicos nem sempre se articulam de modo direto aos interesses econômicos e políticos dos governos, alguns países, dentre eles o Brasil, preferem falar em diplomacia da inovação. A vantagem desse conceito é o foco mais restrito em um dos principais pontos de contato entre ciência e economia, a inovação. Ele seria capaz de articular de modo mais claro e pragmático as exigências no campo da educação, da ciência e da tecnologia criadas pela dinâmica econômica e política mundial. Temas como as cadeias globais de valor e a divisão internacional do trabalho, protecionismo e guerras comerciais, assim como questões de propriedade intelectual, podem ser mapeadas de modo mais claro e objetivo, o que facilita o diagnóstico de tendências e o prognóstico de cenários, e auxilia o desenho e a proposição de políticas públicas. Ao mesmo tempo, esse quadro conceitual também garante a incorporação de iniciativas privadas, seja por parte de grandes empresas multinacionais ou polos de microempresas, tanto em setores há muito consolidados como recém criados, seja por associações, universidades, escolas e demais atores da sociedade civil.

Há temas, contudo, para os quais esse enfoque se mostra restrito demais, como por exemplo, a mudança climática e as pandemias. Aqui, a noção de diplomacia científica parece mais adequada para lidar com os processos de mensuração, diagnóstico e prognóstico em escala planetária que tais fenômenos exigem. Isso também vale para algumas das ações de enfrentamento dessas questões, que só atingirão o resultado almejado se operarem nessa mesma escala.

É por isso que parece acertada a escolha do nome São Paulo School on Science and Innovation Diplomacy (InnScid), iniciativa do Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP) e do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) da Universidade de São Paulo, e que entre 3 e 7 de agosto de 2020, realizou sua segunda edição.

O principal resultado da primeira edição, de 2019, foi o São Paulo Framework of Innovation Diplomacy, documento pioneiro no tema e que estabelece, além de uma definição, algumas balizas para o estabelecimento de um conjunto de medidas práticas, nos níveis local, nacional, regional e global.

Com apoio da Aberje, a segunda edição do evento, ocorrida entre os dias 03 e 07 de agosto, reuniu pesquisadores de diversos países para discutir, principalmente a partir de exemplos e iniciativas, diversos temas relacionados à diplomacia da ciência e da inovação. Um passo importante na consolidação dessa agenda no país.

 
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