Ágatha Camargo Paraventi


Malu Weber

25 de abril de 2022

PARA ALÉM DO CAPITAL ÉTICO

A ética passou a ser essencial para a existência do negócio. Ágatha Camargo Paraventi, pesquisadora de comunicação e ética organizacional, e Malu Weber, diretora sênior de Comunicação Corporativa da Bayer, explicam por que essa mudança faz bem ao futuro das empresas

Ágatha Camargo Paraventi


Malu Weber


Nova visão

Ágatha Paraventi

A visão antiga era que, se as empresas tivessem mais lucro, pagariam mais impostos e o Estado poderia entregar o que fosse necessário para a sociedade. Hoje a sociedade tem percebido os impactos e os danos que uma corporação e sua cadeia de valor podem causar do ponto de vista da concorrência desleal, da perda de recursos da coletividade, dos impactos ambientais, morais e sociais. Segundo o modelo de mensuração RepTrek, cada vez mais a sociedade e o mercado exigem governança e integridade para a empresa ter uma reputação favorável. E os investidores querem a segurança de colocar seu dinheiro em negócios mais éticos.

Malu Weber

Por muito tempo a ética era de responsabilidade apenas da área de compliance e de relações governamentais. Hoje está conectada aos valores, à maneira como a organização se estrutura, como se comunica. A grande cobrança da área é estar atenta ao impacto que a empresa causa na sociedade. As pessoas também querem trabalhar em uma companhia ética, ter um líder e fazer parte de um time íntegros. Na Bayer, segurança, ética e integridade são valores inegociáveis, a base para todas as tomadas de decisão, especialmente nos momentos mais difíceis. A ética é a licença para operar da empresa, desenvolve o potencial para um crescimento mais sustentável e está ligada à agenda ESG, cada vez mais crítica para o sucesso. Hoje as pessoas perguntam qual o compromisso que as empresas têm com a sua cidadania corporativa. Não é mais sobre ser a melhor do mundo, mas sobre ser a melhor para o mundo.

O papel da comunicação

Ágatha Paraventi

Talvez a questão não seja a ética acima dos resultados, mas jamais os resultados acima do compromisso e dos valores. Não é condenar o lucro, mas entender que ele não está acima dessa responsabilidade. Em uma organização privada, o lucro não é só o que atende aos objetivos dos investidores, mas o que permite que ela seja responsável. O maior desafio cultural das organizações é com a tomada de decisão. A cultura da organização pode levar alguém ao equívoco de achar que o desempenho é mais importante. Nesses casos, a comunicação é central porque é um espaço de aprendizado conjunto de como tomar decisões, hierarquizar valores e conciliar responsabilidades complexas.

Malu Weber

Nesse processo de mudança, a comunicação precisa ser humanizada, objetiva, verdadeira e íntegra, consistente no falar e no agir e sempre atenta aos compromissos assumidos. Muitas vezes o papel da comunicação é também o de alertar líderes e gestores para os pontos em que é preciso tomar cuidado para que as decisões continuem consistentes e coerentes. A integridade e a ética fazem parte dos valores não negociáveis; estão na base da tomada de decisão.

Ágatha Paraventi

Quando a comunicação não é consistente, gera ceticismo, resistência, quebra de confiança. O efeito disso para a cultura da empresa é difícil de consertar.

O papel do líder

Malu Weber

As pessoas buscam um líder que traga a verdade na essência e se sentem melhor, mais coerentes, quando vinculam sua imagem a uma empresa com valores alinhados aos delas. Esse é o valor da felicidade, ser feliz trabalhando em uma empresa com um líder e um time que transpirem essa verdade.

Ágatha Paraventi

Ao longo da história, o papel do líder sempre foi fundamental para manter o discurso. A cultura está vinculada à base material de uma organização; um aprendizado traz resultados, e por isso é ensinado e reproduzido para quem chega. O líder precisa estar alinhado ao que a organização defende, mas maior riqueza está na discussão, na abertura que ele traz para todos os contextos. O líder deve chamar para a conversa e construir esse aprendizado com o time.

Malu Weber

O papel do líder antes era cobrar os resultados do time. Hoje as empresas precisam que o líder engaje, conecte, crie um ambiente de escuta e diálogo em que as pessoas queiram participar, tenham coragem de criticar, de dizer que não sabem. Não basta mostrar os resultados financeiros; tem de dizer como chegou lá, respeitando os valores e a integridade, que não são negociáveis.

Perspectivas futuras

Ágatha Paraventi

A comunicação vai cada vez mais promover consistência, coerência, diálogo e aprendizado. As organizações têm mais confiança da população do que os governos. Olha a responsabilidade! O valor que a empresa constrói ultrapassa sua esfera.

Malu Weber

A comunicação deve assumir essa posição de farol que ajuda as empresas e os líderes nessa jornada de valores inegociáveis, alertando para os desvios no caminho da coerência e da consistência e trazendo luz para as iniciativas em que a ética e a integridade são a essência das tomadas de decisão.

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