25 de abril de 2022

O PODER DA PALAVRA

Na nova ordem em que cuidar de funcionários e da comunidade é também uma estratégia de negócios, empresas já colecionam iniciativas de comunicação para fomentar a saúde mental – e combater o tabu em torno do tema

 

Por Tiago Cordeiro

Um voo rasante pelas estatísticas de saúde mental no Brasil passa por um cenário preocupante. O país povoado por uma gente notadamente calorosa é, em termos proporcionais, um dos mais ansiosos do planeta: 9,3% dos brasileiros já foram diagnosticados com ansiedade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os efeitos diretos da pandemia também se fazem notar no estado geral dos corações e mentes da nação: pesquisa do Instituto Datafolha mostra que, até agosto de 2021, 44 em cada 100 brasileiros apresentaram algum sintoma de problemas psicológicos. São constelações particulares de doenças com efeitos diretos na coletividade do mundo do trabalho.

Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) indicam que, dentre todos os países das Américas, o Brasil tem as maiores taxas de incapacidade ocupacional causada por depressão (9,3%) e por ansiedade (7,5%). E o Ministério da Previdência Social informa que metade dos afastamentos do trabalho se dá por questões emocionais.

É um panorama, claro, com causas e consequências no ambiente corporativo. “Muitas organizações visam apenas à lucratividade para os acionistas e à satisfação única e exclusivamente dos clientes. Ignoram totalmente que existe um processo complexo no entorno das motivações humanas”, argumenta Denise Pagnussatt, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e coordenadora do Curso de Comunicação Empresarial da instituição. “Nossa vida começa pelas emoções. Nossa visão de mundo é muito amparada por elas. Os sentimentos contemplam os registros sobre o conhecimento imagético que evoca o movimento, o raciocínio, o planejamento, a criatividade”, completa.

Por causa desse enorme ecossistema de efeitos com origem no emocional, pensar na saúde mental das pessoas que fazem uma organização é um conceito mais amplo – e é uma estratégia de negócios. Olhando em perspectiva, é possível enxergar um quadro feito de um ciclo de virtudes para o futuro de uma organização. Empresas que têm clareza de seu papel como agregadoras de seres humanos tendem a assumir a dianteira da causa com posicionamento e ações sólidas. Tais ações têm também impacto na lucratividade e na sustentabilidade. Afinal, se os funcionários não estiverem bem, a empresa também não estará. E, por ser um tema que impacta toda a sociedade, as corporações podem atuar com
outros públicos, dado que há uma enorme lacuna nas políticas públicas para a promoção de saúde mental. E, assim, as organizações podem se manter socialmente relevantes.

É, enfim, o S da sigla ESG – a teia complexa de ações que dizem respeito ao âmbito da responsabilidade social. “As lideranças e os gestores precisam começar a olhar a saúde mental como parte da estratégia de negócios, junto de toda a agenda de sustentabilidade. E não mais como uma medida emergencial”, afirma Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.

PALAVRA

Na prática, as empresas estão no centro de um imenso desafio: como lidar com o fenômeno dos problemas mentais? No livro O Demônio do Meio-Dia: uma Anatomia da Depressão, premiado best-seller e obra de referência sobre o tema, o escritor Andrew Solomon registrou: “Acredito que as palavras são fortes, que podem esmagar o que tememos quando o medo parece mais terrível do que o lado positivo da vida”. Para além da elegância poética, a frase explicita a chave para lidar com a saúde das mentes humanas: a necessidade de conversar sobre ela – e muito. E depois mais ainda.

Abrir os canais de comunicação dentro das corporações é uma tarefa grandiosa. Entrevistados pela empresa The School of Life para um estudo desenvolvido em parceria com a consultoria Robert Half, 37,86% dos profissionais brasileiros declararam que não se sentem livres para expor seus sentimentos e suas emoções no trabalho. Mas algumas boas iniciativas já iluminam caminhos e mostram o papel da comunicação corporativa em uma mudança de ambiente. E não só para dentro das organizações, como também para fora.

Em 2018, Luciana Coen, diretora de Comunicação Integrada e Responsabilidade Social Corporativa da SAP Brasil, perdeu um filho, de 16 anos, que cometeu suicídio. “Fui muito bem acolhida pela empresa, que me deu espaço para iniciar uma ação efetiva de conscientização.” Hoje ela lidera as ações de saúde mental na companhia em nível global. A SAP já havia desenvolvido uma campanha para comunicar, de forma transparente, quais são as principais doenças de origem mental, os sintomas e a melhor abordagem. “Havia uma série de ações internas, mas as pessoas não conheciam. Passamos então a incentivar as conversas sobre o tema nas newsletters internas, nos encontros regulares com a presidente da empresa, em palestras com psicólogos”, relata Coen. Com relação ao público externo, a empresa investiu no programa Algoritmo da Vida, que rastreia o Twitter em busca de posts que indiquem propensão ao suicídio e dispara mensagens oferecendo ajuda – incluindo seis sessões de
terapia da startup Vittude, parceira da SAP. Até agora, 22.300 pessoas receberam mensagens de apoio e orientação. “Sempre serei embaixadora dessa bandeira”, conclui Coen

Algumas boas iniciativas já iluminam caminhos e mostram o papel da comunicação corporativa em uma mudança de ambiente

TODOS JUNTOS

Com um olhar amplo, algumas empresas estabeleceram laços com outras entidades para amplificar os benefícios de investir em saúde mental – não só entre seus colaboradores, como também para a comunidade em geral. Foi essa a proposta da Rede Brasil do Pacto Global da ONU e da InPress Porter Novelli, que, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia, lançou o Movimento #MenteEmFoco. As empresas que aderem firmam o compromisso de implementar ações sólidas para a promoção da saúde mental. São medidas como ter um profissional de referência para aconselhamento e atendimento, manter gestores engajados e treinados para as melhores condutas na área ou criar um programa antiestigma para afastar a sombra que desde sempre tende a rondar o tema nos corredores corporativos.

Lançado em abril de 2021, o Movimento #MenteEmFoco já conta com 40 empresas signatárias de diferentes setores da economia. Entre elas, corporações como Unilever, Siemens, Nestlé, Mapfre, J&J, Ambev e AES. Juntas, essas organizações atingem 300 mil colaboradores. “Surgimos em um momento crucial em que precisamos acabar com o estigma social e dar visibilidade a esse tema”, relata Roberta Machado, CEO da InPress Porter Novelli.

Com o isolamento social e os casos de doenças e mortes rondando os trabalhadores, as corporações centraram esforços para sobreviver às incertezas

Integrante do movimento, a Johnson & Johnson Consumer Health desenvolveu um conjunto de medidas para seus colaboradores. Uma delas é o conceito que batizou de #VamosCuidar. Trata-se de uma estratégia de comunicação baseada em um hub de conteúdo – composto por uma comunidade na rede social corporativa Yammer, newsletter, podcast, sharepoint, mural e TV nas fábricas. Também foram feitas comunicações via liderança, atingindo todos os 6 mil funcionários. E foram reforçadas ferramentas que já existiam, como o acesso a sessões de exercícios online e meditação e webinars sobre saúde mental.

Em outubro de 2020, a empresa instituiu a “sexta sem reuniões”. Além disso, o Programa de Assistência ao Empregado (PAE) atende casos de estresse ou ansiedade, fica disponível 24 horas por dia e atende tanto os colaboradores quanto seus familiares, com aconselhamento gratuito para até seis sessões. “Como uma empresa que tem como pilar a saúde do consumidor, a Johnson & Johnson Consumer Health entende que, antes de contar o que faz para fora, precisa cuidar de seus colaboradores”, explica Roberta Catani, head de Comunicação e Public Affairs da companhia.

Para o público externo, a empresa alavancou um projeto em parceria com a Alexa, inteligência artificial da Amazon: o consumidor pode pedir dicas à Alexa, e a Johnson & Johnson Consumer Health entra com conteúdo de saúde física e mental. “A nossa oportunidade está em como identificar as discussões internas crescentes e facilitar o entendimento de nossas ferramentas e nossos projetos, além de fomentar novas conversas de como os colaboradores podem acessá-las. Este é o caminho mais desafiador, pois, quando se fala de saúde mental, as questões são individuais e específicas”, esclarece Catani.

NO RASTRO DA PANDEMIA

A pandemia, sempre onipresente, ampliou a importância do tema. Com o isolamento social e os casos de doenças e mortes rondando os trabalhadores, as corporações centraram esforços para sobreviver às incertezas.

Acabaram topando com novos caminhos. “Na medida em que você não sabe o que vai acontecer com o mundo, a ansiedade começa a aparecer. As relações mudaram, as necessidades mudaram, as empresas precisaram se repensar”, analisa Denise Pagnussatt. Por isso, a atenção à saúde mental dentro das organizações cresceu: segundo um levantamento realizado pela consultoria Willis Towers Watson (WTW), de 2015 para 2021 houve um aumento de 33% no interesse do mundo corporativo em implantar ações de saúde e bem-estar na rotina de seus colaboradores.

Esse aprendizado, analisa Pagnussatt, trouxe para as empresas um rol de novas habilidades muito importantes para lidar com problemas mentais, porque consideram as sutilezas e as individualidades do tema. São novas noções, como a de alteridade – ou seja, entender como a saúde mental impacta a vida das pessoas, incluindo o trabalho. Ou a de empatia – ou mais respeito e valorização pela diferença, entendendo que as pessoas não reagem da mesma forma e cada uma tem seu tempo. Ou ainda a do diálogo – uma nova disposição para dispor de profissionais habilitados para ouvir as pessoas sem julgamentos e para criar espaços de trocas de experiências. “Quanto mais as organizações têm consciência do valor do diálogo como forma de humanização das relações, mais elas vão valorizar as escutas e trocas de valor sensível com os seus funcionários”, argumenta a professora.

Em algumas empresas as lições aprendidas no período de exceção da crise sanitária são palpáveis. O Banco do Brasil, por exemplo, já tinha um Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) e um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). “Porém, principalmente nesse período no qual as pessoas ficaram mais afastadas do convívio com as famílias e os amigos, os debates sobre a importância dos cuidados com a saúde mental foram ampliados”, relata Thiago Borsari, diretor de Gestão da Cultura e de Pessoas da instituição.

Em setembro de 2021, a empresa desenvolveu o Programa Saúde Mental. A ação incluiu uma parceria com uma plataforma que é referência no mercado na promoção de atividade física.

Ter alguém com quem falar, no ambiente da empresa, pode ser um ganho brutal. A Votorantim Cimentos, por exemplo, apostou em um programa de atendimento psicológico gratuito para os funcionários. O Pilar foi lançado há seis anos e recebeu mais de 20 mil ligações entre março de 2020 e março de 2021, informa Monyque Motta Carmona Gerbelli, médica e gerente de Medicina do Trabalho da corporação. “Ao longo dos dois últimos anos, realizamos na rede social interna da Votorantim Cimentos uma série de lives com especialistas para discussão de temas de saúde mental, como isolamento social e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Realizamos rodas de conversas e terapias online com psicólogos por meio de teleatendimento, de forma sigilosa e sem custo.”

Poucos meses depois, aproximadamente 5 mil funcionários, distribuídos em mais de 450 cidades, estavam cadastrados na plataforma, que disponibiliza academias, aulas de ginástica online, meditação e guias nutricionais. Além disso, desde outubro, quando os funcionários passaram a ter acesso online e gratuito a uma plataforma que oferece atendimento psicológico, mais de 6 mil funcionários passaram por cerca de 12 mil consultas.

Na mesma visão do significado de acolhimento, a Dow oferece, por meio de uma parceria com o ICAS Brasil, o Programa de Assistência ao Funcionário, especialmente desenvolvido para ouvir, orientar, informar e auxiliar pessoas afetadas por problemas pessoais, familiares ou de trabalho. O atendimento está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, para todos os funcionários e seus dependentes. Além de encaminhamento psicológico, oferece gratuitamente assessorias jurídica e financeira. A empresa também passou a disponibilizar sessões semanais online de meditação, ginástica laboral e automassagem. As atividades são abertas para todos os funcionários contratados, os estagiários e os familiares.

“Assim como a saúde física, a saúde mental é essencial para que a gente possa operar com segurança. Se os nossos funcionários não estão em plena capacidade para desempenhar suas funções, há um risco maior de acontecerem acidentes que podem comprometer a confiabilidade da nossa operação”, afirma Helena Alonso, líder de Comunicação Corporativa para o Brasil da Dow. “A saúde mental tem uma perspectiva mais ampla do que as pessoas imaginam.
Mais do que a ausência de alguma doença, é ter a tranquilidade de poder focar nas suas atividades sabendo que está seguro, que se você precisar de alguma ajuda poderá ter o respaldo da companhia”, completa.

SAÚDE INTEGRAL

Em muitos aspectos, o conceito de saúde mental é um sinônimo de saúde integral – aquele grande balanço que inclui ainda esferas físicas e financeiras da vida. A Cargill, portanto, intensificou o uso da plataforma Essencial para Você, que conta com hotline para colaboradores e serviços de orientação e apoio, além de promover lives e rodas de conversa sobre saúde mental.

“O programa foi implementado em 2017, focado em uma visão de saúde integral”, explica Simone Beier, diretora de RH da Cargill no Brasil. “Temos como meta posicionar os funcionários como protagonistas de sua saúde com ações de autocuidado, autoconhecimento e prevenção.”

A iniciativa busca coordenar ações de bem-estar físico, incluindo o estímulo para atividades esportivas, o atendimento à saúde, que envolve desde assistência odontológica até aconselhamento psicológico. Também entra nessa gaveta de auxílios o aspecto material, com ações pontuais, como o apoio para a compra de material escolar e até mesmo educação financeira. “A saúde mental está diretamente ligada não só à saúde física, mas também à estabilidade financeira”, lembra Beier. “Também temos feito um esforço para que os colaboradores se sintam à vontade para conversar com seus chefes a respeito de problemas de saúde mental.”

Por causa das interseções com sua área de atuação, o tema também é caro à SulAmérica. “Compartilhamos essa noção tanto internamente quanto externamente. Se não fizermos a lição de casa, não podemos oferecer ao mercado”, diz Patrícia Coimbra, VP de Capital Humano, Sustentabilidade e Marketing da empresa. A comunicação com a sociedade se apoiou na pesquisa Saúde Integral, que identificou que seis em cada dez brasileiros que fazem terapia começaram tratamento na pandemia. Apontou também que, para 53% dos brasileiros, a saúde mental piorou com a pandemia.

Para participar ativamente da discussão em torno do assunto, a empresa colocou especialistas para atuar no reality Geração Saúde Integral, que foi ao ar por cinco sábados dentro do quadro Bem Estar, no programa É de Casa, da Rede Globo. O quadro selecionou três pessoas comuns com problemas de saúde física, financeira ou emocional, que receberam orientações práticas para mudar sua rotina. “Queríamos, com o reality, mostrar que é possível alcançar a saúde integral dando um pequeno passo de cada vez”, explica Patrícia Coimbra.

A pesquisa Saúde Integral apontou que, para 53% dos brasileiros, a saúde mental piorou com a pandemia

CAMPANHA EXTERNA

O foco em ações junto à sociedade mobilizou a Medley, que buscou orientar e conscientizar um público especialmente vulnerável: mulheres da classe C assoberbadas pela sobrecarga mental gerada pelo acúmulo de tarefas, especialmente durante a pandemia. “Uma pesquisa feita pela Ipsos, a pedido da Medley, trouxe a resposta da qual já se desconfiava: muitas mulheres cuidam de todo mundo, mas ninguém cuida delas, nem elas mesmas”, relata Denise Mello, head de Branding e Projetos Estratégicos da Medley.

A constatação levou a empresa a criar o projeto “Conta, Mana” em agosto de 2021. “Na plataforma, reforçamos a importância de tirar um tempo para a mulher cuidar de si mesma. Orientamos sobre como cuidar da saúde mental e auxiliamos as mulheres que precisam buscar uma orientação profissional.” A empresa mantém uma parceria com o Mapa da Saúde Mental, idealizado pelo Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, que fornece orientação e assistência psicológica gratuitas às mulheres que precisam, auxiliando e promovendo os cuidados necessários próximos à sua residência.

São ações cruciais, e não apenas para fases de crise. “Na comunicação, é imperativo abraçar conversas difíceis e tomar uma posição nos momentos em que os consumidores se importam”, resume Roberta Catani, da Johnson & Johnson. “Empresas que conseguirem se relacionar nesse nível muito provavelmente irão sobreviver a qualquer pandemia ou crises futuras”.

 

Tiago Cordeiro é jornalista pós-graduado em Literatura Brasileira. Foi repórter das revistas Época e Veja e editor da Aventuras na História