Marina Spínola é diretora de Relações Corporativas da Fundação Dom Cabral e coordena o grupo FDC Impacto Legacy – CEOs pela Diversidade e Inclusão.

05 de outubro de 2021

A GRANDE INOVAÇÃO
É A COLABORAÇÃO

Iniciativa da Fundação Dom Cabral articula relacionamento institucional e comunicação para mobilizar lideranças e inovar em ações que geram valor para a sociedade

Marina Spínola

Marina Spínola é diretora de Relações Corporativas da Fundação Dom Cabral e coordena o grupo FDC Impacto Legacy – CEOs pela Diversidade e Inclusão.

As mudanças pelas quais o mundo vem passando – e que se acentuaram durante a pandemia – reforçaram a convicção da equipe da Fundação Dom Cabral de que a sociedade espera um novo papel das organizações. Antes as corporações eram meios de produção econômica; hoje precisam ser também geradoras de bem-estar social. Isso impõe grandes desafios às lideranças, especialmente aos CEOs.

Em 2017, a Fundação Dom Cabral criou o CEO’s Legacy, que reúne 40 presidentes de empresas com atuação no Brasil para repensar seu papel no século 21. A iniciativa tem se consolidado como um laboratório de reflexão e prática da liderança contemporânea, que já entendeu a urgência de equilibrar melhor o paradoxo da performance econômico financeira e do progresso social. O grupo vem trabalhando para reelaborar a prática cotidiana da liderança de modo a gerar valor para os acionistas, para a organização e para a sociedade e, assim, construir legados sociais positivos. Como diz o professor indiano Subramanian Rangan, membro do Conselho Curador da FDC, os líderes do novo século precisam ser “menos escravos da performance e mais agentes do progresso”.

Divididos em grupos, os CEOs são estimulados a descobrir quais transformações individuais precisam empreender para atingir seus objetivos e como traduzir essa mudança em ação para a construção de um legado para a sociedade. Um desses grupos é o Impacto – CEOs pela Diversidade e Inclusão, formado por 11 lideranças1 que desde 2018 passaram a fazer reflexões e implementar ações com foco em combater a exclusão e a injustiça social.

Os líderes examinaram como esse desafio se reflete em seus negócios e têm descoberto caminhos pelos quais as políticas de diversidade e inclusão podem contribuir para ajudar o país a enfrentar a persistente desigualdade social. O projeto começou a tomar vida com a implantação de políticas mais robustas e processos de gestão mais eficazes dentro das empresas, com os CEOs assumindo a responsabilidade de se tornar agentes de transformação e porta-vozes dessa causa na sociedade.

Uma importante descoberta do grupo foi que a grande inovação era justamente construir uma maneira de atuar em rede, de modo colaborativo, com diferentes stakeholders, a fim de atingir objetivos comuns e ampliar impacto com economia de recursos, maior agilidade e eficácia. A rede atua de forma descentralizada, com coordenação compartilhada e formação de duplas e trios sponsors para cada nova frente de ação. Desde o início dos trabalhos o grupo estabeleceu como princípio o diálogo contínuo com representantes dos grupos minorizados, que debatem e contribuem com a formulação e a avaliação das ações. É uma interação qualificada, ancorada na crença de que o respeito aos direitos humanos é condição para evolução civilizatória. É interessante perceber como a escuta cuidadosa exercita a empatia e favorece o reconhecimento da vulnerabilidade como potência para a transformação. Essa conexão convida as lideranças a alcançar novas perspectivas e, principalmente, reconhecer o alcance e o impacto de suas decisões. A interação com grupos minorizados gera aprendizados e constrói valor para todos os elos do ecossistema. E tem sido fundamental para o processo de (re) elaboração do papel da liderança no século 21, comprometida a contribuir com o enfrentamento dos persistentes desafios da humanidade.

“Todos ganham quando
compartilhamos responsabilidades.
O protagonismo pode ser coletivo”

Outro passo importante para a construção dessa rede colaborativa foi o engajamento das equipes de Comunicação e Diversidade & Inclusão/RH das empresas, estruturando assim um fluxo contínuo e de mão dupla, com a facilitação da FDC. Dessa interação surgiu a criação de duas frentes estratégicas – Comunicação e Diversidade & Inclusão/RH – que atuam em constante diálogo, alinhando e cocriando ações para dentro e para fora das organizações.

Com o amadurecimento do trabalho, o grupo decidiu iniciar a expansão em ondas e lançou, no final de 2020, o Movimento Impacto – CEOs pela Diversidade e Inclusão. Queremos atrair e engajar outras lideranças, começando com a cadeia de fornecedores dessas corporações e demais presidentes de empresas que compõem a iniciativa CEO’S Legacy, até chegar a uma mobilização da sociedade em geral. Outro marco do processo foi a criação em conjunto de um plano de comunicação que driblou os desafios de trabalhar em rede e de conjugar objetivos que nem sempre são complementares, sem deixar de incluir diferentes pontos de vista.

No início da pandemia, havia o receio de que o tema perdesse importância diante de outros que pareciam mais prementes. Depois de conversas com os times de Comunicação e Diversidade & Inclusão e uma reunião com os CEOs, ficou claro que na realidade o momento exigia priorização dos esforços em diversidade e inclusão, já que os grupos minorizados sempre são os mais impactados pelas crises. As empresas, com isso, mantiveram e até mesmo ampliaram investimentos e ajustaram o foco de suas ações internas e externas para minimizar os efeitos trágicos do novo coronavírus nos grupos mais vulnerabilizados.

Todo esse trabalho mostrou que não é simples alcançar sucesso em uma articulação por redes colaborativas. Uma das inovações da atuação da FDC, que se colocou como orquestradora do ecossistema, sempre foi procurar evitar a dispersão de energia, ou seja, manter o foco e o grupo ativo e provocar sinergias, sem no entanto assumir um papel de protagonista. O impacto aumenta muito e todo mundo ganha quando compartilhamos responsabilidades. Aprendemos que o protagonismo pode ser coletivo.

 

1 Fazem parte do Grupo FDC Impacto – CEOs pela Diversidade e Inclusão as empresas: Gerdau (Gustavo Werneck, líder do grupo), Belgo Bekaert (Ricardo Garcia), Electrolux (Ricardo Cons), Novartis (Renato Carvalho), Atento (Dimitrius Oliveira), GE (Viveka Kaitila), Grupo Sabin (Lidia Abdalla), Serasa Experian (Valdemir Bertolo), Symrise (Éder Ramos) e Google Pay (Paula Paschoal). Também integra o grupo o executivo Luiz Pretti, ex-CEO da Cargill e atual presidente do Conselho de Administração da Votorantim Cimentos. E Liliane Rocha, CEO da Gestão Kairós, atua como conselheira consultiva do grupo.

*Os artigos assinados na revista não necessariamente refletem a opinião da entidade e são de exclusiva responsabilidade dos autores
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