10.07
Fake News: a necessidade de se falar em sustentabilidade da informação

Por Rodrigo Gomes

O que se diz e o que se propaga nas redes precisa e deve ser mais sustentável

Enquanto a população mundial aguarda uma medicação milagrosa que combata de vez o novo coronavírus, a doença continua deixando um triste rastro na história. E enquanto pesquisadores e cientistas trabalham para descobrir o antídoto que trará novamente a normalidade diária, incrivelmente, a pandemia trouxe à tona uma discussão sobre o papel da ciência e da informação e a capacidade das pessoas entenderem sua importância.

Infelizmente, foi preciso que uma pandemia surgisse para que alguns resultados simples e práticos sobre a ciência da sustentabilidade pudessem ser vistos. Em Nova Delhi, a megalópole indiana que possui 20 milhões de pessoas, por exemplo, houve diminuição significativa de poluição atmosférica após o isolamento social, fechamento de indústrias e menor quantidade de automóveis circulando nas ruas, segundo a Agence France-Presse.

Em abril, a cidade de Veneza cumpriu um rígido isolamento deixando as ruas desertas. Com as águas mais límpidas, seus canais receberam visitas de animais marinhos, normalmente não frequentes, diante de menor poluição provocada pela atividade social.

Estes são pequenos exemplos que ocorreram durante o doloroso isolamento de como a ausência de atividade industrial afeta diretamente na qualidade de vida e a dinâmica do planeta, coisas que a ciência já vem falando há muito tempo.

Assim como as transformações do planeta já conhecidas da ciência, o coronavírus também não surgiu de forma oculta e alheia ao conhecimento científico. Logo no final de dezembro e início de janeiro os chineses identificaram o novo vírus, um tipo semelhante à Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars). Seu alto índice de contágio foi percebido e notificado à Organização Mundial da Saúde (OMS), que, com a evolução rápida de casos para demais países, classificou a situação como pandêmica.

Mesmo diante da gravidade em escala mundial, a ciência já sabia e alertava: ainda não há medicação, redobre os cuidados com a higiene e evite aglomerações. Ainda que a pesquisa científica chegasse ao seu limite em relação à nova doença sem uma vacina de cura ou imunidade contra o coronavírus, conseguiu praticamente cercar suas características, DNA, formas de contágio, cuidados, prevenções, etc. E assim foi alertado para órgãos e autoridades de países do mundo todo.

O cenário de acesso à informação com mais de 5 milhões de pessoas usando aparelhos celulares em todo o mundo, segundo dados da GSM Association, seria propício para que a informação certa chegasse ao maior número possível de pessoas. Informações corretas correram o mundo, mas logo informações falsas também começaram a circular com potencial de agravar ainda mais a situação.

Mentiras, batizadas contemporaneamente em um contexto de internet como “fake news”, começaram a circular de forma rápida, tomaram as ruas e até governos. Veículos de imprensa precisaram se mobilizar para desvendar mensagens inverídicas que se multiplicam em uma velocidade assustadora.

A Revista Exame, por exemplo, publicou em 12 de março uma matéria identificando 11 fake News que estavam circulando o mundo. O mesmo fez o portal G1, que criou uma espécie de editoria chamada “Fato Ou Fake” exclusiva para o assunto coronavírus.

o jornal Folha de São Paulo publicou um trabalho do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da USP, do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), sediado na Universidade Federal da Bahia, intitulado “Ciência Contaminada – Analisando o contágio de desinformação sobre coronavírus via YouTube”.

O resultado da primeira fase desse estudo é surpreendente. A rede de desinformação sobre a doença, ou seja, canais que contém fake news, teorias da conspiração e dados nada científicos tiveram cerca de três vezes mais acessos no YouTube do que outros canais completamente opostos que possuem conteúdos sérios que tratam sobre a Covid-19.

Outro dado importante, triste e grave é o uso da informação falsa para vender produtos médicos que prometem a tão sonhada cura ou imunidade à doença.

Como já não bastasse o próprio sofrimento, dor e angústia causados pelo novo coronavírus nas vítimas e seus familiares, a humanidade precisa lutar agora não apenas contra esse mal natural, mas agora contra o mal causado pelas próprias pessoas que se apropriam das fake news para promover ideologias, fazer dinheiro e enganar cidadãos de boa-fé.

O exemplo é temporal dada a gravidade e circunstância histórica a qual nos encontramos, mas a gravidade das fake news assola os diversos campos da ciência, da política e da vida cotidiana. Neste contexto de pandemia, informações inverídicas possuem potencial de letalidade ao se evitar um tratamento correto em relação às instruções disseminadas intencionalmente com finalidades diversas.

O trabalho da “Ação Para Comunicar e Engajar” empresas e pessoas em relação aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é bastante árduo e envolve diretamente a disseminação do saber científico que envolve a sustentabilidade e a comunicação. Para cada um dos 17 ODS, grupos estratégicos e multidisciplinares são criados para estudar a melhor forma com que estas temáticas devem chegar ao público para que de fato as metas sejam alcançadas.

E nesse contexto as fake news surgem como inimigas diretas de planejamentos inteiros de comunicação. As notícias tendenciosas, mentirosas e criminosas ganharam uma espécie de linha de produção e já chegaram em praticamente todos os usuários de redes sociais. Esse tipo de comunicação está na contramão da informação e precisa ser combatido de forma veemente por profissionais da área.  Segundo a agência de notícias Reuters, o Brasil ocupava uma posição destaque em 2018 como o terceiro países que mais se produz e dissemina fake news, atrás apenas de Estados Unidos e Turquia.

A informação tem o poder de ser uma ferramenta de educação muito forte e durante uma pandemia pode salvar vidas. Como profissionais de sustentabilidade e comunicação devemos cumprir o nosso dever com a veracidade compartilhando e valorizando trabalhos sérios de empresas e colegas. É nosso dever produzir e difundir uma comunicação sustentável.

 

Rodrigo Gomes é analista de Comunicação na Assessoria de Imprensa da MRV Engenharia, jornalista formado pela universidade federal de São João del Rei UFSJ e MBA em Comunicação Corporativa pela Universidade Estácio de Sá.


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