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31.07
Como as organizações ainda podem colaborar nesse momento de pandemia?

Por Natália Tamura Estamos em uma fase diferente daquela que vivenciamos no mês de março, quando a pandemia do coronavírus começou a se expandir latentemente colocando-nos em quarentena. Como... Leia mais

Por Natália Tamura

Estamos em uma fase diferente daquela que vivenciamos no mês de março, quando a pandemia do coronavírus começou a se expandir latentemente colocando-nos em quarentena. Como pessoas físicas, ajudar os pequenos comerciantes é dar-lhes fôlego para os próximos meses. Por isso, comer um pãozinho em uma cafeteria do nosso bairro ao invés de optar por uma grande rede pode ser uma atitude de grande apoio.

Já as organizações, principalmente no início da crise, tiveram importantes iniciativas relacionadas à doação, seja de alimentos, álcool gel, máscaras e outras tantas necessidades fundamentais para seguirmos em frente naquele momento. Hoje, no entanto, alguns meses depois, outras iniciativas se fazem necessárias. Por isso, esta é mais do que a apresentação de uma iniciativa. É uma convocação para as organizações que querem se envolver em um coletivo que conecta pessoas a informações e serviços. Principalmente para os profissionais de comunicação.

Quer saber como? Abaixo, detalhamos cada ação estratégica do Covid Radar!

O que é o Covid Radar?

O Covid Radar é um coletivo de mais de 40 empresas e instituições, apoiada pela Rede Brasil do Pacto Global, que coordena esforços para enfrentar os desafios da Covid-19 no país e seus impactos negativos em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O intuito é contribuir para evitar o colapso do sistema de saúde brasileiro diante do cenário de pandemia e acelerar a retomada econômica em bases melhores.

Alguns dos seus princípios são a colaboração, a empatia, a solidariedade, o impacto, o apartidarismo, a integridade e o diálogo. São seus valores o foco nos mais vulneráveis, o respeito aos limites planetários, a segurança da informação e o compromisso com a privacidade

Como empresas podem participar dessa iniciativa?

Todas as organizações estão convidadas a divulgar a iniciativa, usando suas estruturas de comunicação e redes sociais, lembrando que o foco deve sempre priorizar o coletivo, seguindo as orientações sobre mensagens-chave, tom de voz e linguagem da iniciativa que são compartilhadas pelo coletivo.

A proposta se reúne em uma plataforma de ação contra a pandemia, concentrando-se nas iniciativas:

Painel Covid Radar

painel.covidradar.org.br

O Painel Covid Radar é uma plataforma que reúne informações da pandemia em tempo real, que permitem acompanhar e simular o avanço da Covid-19 por regiões, cidades e até bairros. Com essa iniciativa, pesquisadores, secretarias de saúde e usuários em geral podem criar seus modelos para antecipar os rumos da doença e se preparar, permitindo respostas rápidas e assertivas nas mais diversas áreas atingidas.

Conexão Covid Radar

conexao.covidradar.org.br

A Conexão Covid Radar é uma plataforma de marketplace que reúne anúncios de solicitação e de oferta de recursos e realiza matchmaking, unindo quem precisa de ajuda com os que podem ajudar, incluindo a logística.

Saúde Covid Radar

linktr.ee/colabapp

Saúde Covid Radar é um aplicativo de celular para autoavaliação dos usuários quanto ao Covid-19, gerando informações anônimas que permitem melhor rastrear a progressão da doença.

Retomada Econômica e Empresarial

https://www.covidradar.org.br/retomada-empresarial

Agora em julho, foi lançada a plataforma para retomada econômica empresarial, com ações que visam orientar executivos e empresários durante a crise.

“A plataforma foi criada por diferentes organizações para servir como uma bússola para que executivos montem seus planos de ação para a retomada a partir de suas realidades e problemáticas”, diz Marcelo Linguitte, Head de Parcerias Estratégicas e Captação de Recursos do Pacto Global da ONU e líder da Frente de Retomada do Covid Radar.

Conhecimento

Conhecimento

A página é um acervo de conteúdo online para disseminação de conhecimento e ampliação da visibilidade dos conteúdos produzidos por instituições e organizações, oferecendo conteúdo relevante para empresas e profissionais.

Enfrentando a pandemia com responsabilidade social: guia para empresas

Guia de Recomendações

As novas dinâmicas e desafios impostos ao contexto atual de pandemia causada pelo novo coronavírus ressaltam a importância de parcerias e exigem ações coletivas por parte de todos os setores da sociedade, visando garantir a preservação da saúde da população, sem violar os direitos humanos e de modo a manter a transparência e a integridade. Ao considerar essa realidade, o Guia de Recomendação orienta como as empresas podem responder aos desafios, superar o momento e pensar no processo de retomada responsável e sustentável.

Como uma organização pode contribuir diretamente com cada uma dessas iniciativas?

E de que maneira cada ator de organizações privadas consegue apoiar o coletivo Covid Radar?

Para as organizações que quiserem participar do coletivo ou obter mais informações, basta entrar em contato com Piero (pieroscacchetti@falconi.com). Após entender em qual ação estratégica a organização gostaria de atuar, ele ajudará no direcionamento para o porta-voz da respectiva ação.

#CovidRadar!

24.07
Cadeias de valor em tempos de pandemia

Por Natália Tamura Uma das pautas que muito precisam de atenção em tempos de pandemia é sobre como pequenas e médias empresas têm sobrevivido ao contexto atípico. Por isso, na terça-feira,... Leia mais

Por Natália Tamura

Uma das pautas que muito precisam de atenção em tempos de pandemia é sobre como pequenas e médias empresas têm sobrevivido ao contexto atípico. Por isso, na terça-feira, dia 30 junho, foi promovido pela Plataforma Ação para Comunicar e Engajar, da Rede Brasil do Pacto Global, o Webinar sobre Cadeias de Valor em tempos de pandemia. A discussão, que tinha também como foco ouvir sobre o papel das grandes empresas no apoio aos seus fornecedores, contou com a participação de Marcelo Leonessa, Vice-presidente de Compras da BASF, Rodrigo Figueiredo, Vice-presidente de Sustentabilidade e Suprimentos da Ambev e Rafael Moreira, Coordenador das pesquisas de impacto da COVID nos pequenos negócios do Sebrae Nacional.

A plataforma Ação para Comunicar e Engajar, formada por representantes de quase 30 empresas signatárias do Pacto Global, entre elas a Aberje, lançou inicialmente uma pesquisa para pequenas e médias empresas relatarem suas principais atitudes desde que anunciada a pandemia. Foram obtidas 230 respostas, em sua maioria, de empresas que não são signatárias do Pacto Global. 65% dos entrevistados apontaram evitar a contaminação dos funcionários como um dos principais desafios da empresa na pandemia. A segunda resposta mais frequente foi manter os empregos, mencionada por 57%. Já manter o faturamento foi citado por apenas metade dos entrevistados.

Sobre as maiores oportunidades que a crise pode trazer para a empresa, 50% mencionaram ampliar o engajamento interno dos colaboradores. Para 46%, a diversificação dos negócios pode ser uma consequência positiva desse período difícil. Melhorar os padrões de higiene e limpeza (42%) e tornar a empresa mais sustentável (33%) também foram aspectos destacados pelos empreendedores.

Mais dados sobre a pesquisa podem ser vistos na matéria publicada pela Exame: https://exame.com/pme/pmes-estao-mais-preocupadas-com-funcionarios-do-que-com-faturamento/

O Webinar está disponibilizado no canal do Youtube do Pacto Global:

https://www.youtube.com/channel/UCuAgAFLt-TKdV2s0BX3zGLA

10.07
Fake News: a necessidade de se falar em sustentabilidade da informação

Por Rodrigo Gomes O que se diz e o que se propaga nas redes precisa e deve ser mais sustentável Enquanto a população mundial aguarda uma medicação milagrosa que combata de vez o novo... Leia mais

Por Rodrigo Gomes

O que se diz e o que se propaga nas redes precisa e deve ser mais sustentável

Enquanto a população mundial aguarda uma medicação milagrosa que combata de vez o novo coronavírus, a doença continua deixando um triste rastro na história. E enquanto pesquisadores e cientistas trabalham para descobrir o antídoto que trará novamente a normalidade diária, incrivelmente, a pandemia trouxe à tona uma discussão sobre o papel da ciência e da informação e a capacidade das pessoas entenderem sua importância.

Infelizmente, foi preciso que uma pandemia surgisse para que alguns resultados simples e práticos sobre a ciência da sustentabilidade pudessem ser vistos. Em Nova Delhi, a megalópole indiana que possui 20 milhões de pessoas, por exemplo, houve diminuição significativa de poluição atmosférica após o isolamento social, fechamento de indústrias e menor quantidade de automóveis circulando nas ruas, segundo a Agence France-Presse.

Em abril, a cidade de Veneza cumpriu um rígido isolamento deixando as ruas desertas. Com as águas mais límpidas, seus canais receberam visitas de animais marinhos, normalmente não frequentes, diante de menor poluição provocada pela atividade social.

Estes são pequenos exemplos que ocorreram durante o doloroso isolamento de como a ausência de atividade industrial afeta diretamente na qualidade de vida e a dinâmica do planeta, coisas que a ciência já vem falando há muito tempo.

Assim como as transformações do planeta já conhecidas da ciência, o coronavírus também não surgiu de forma oculta e alheia ao conhecimento científico. Logo no final de dezembro e início de janeiro os chineses identificaram o novo vírus, um tipo semelhante à Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars). Seu alto índice de contágio foi percebido e notificado à Organização Mundial da Saúde (OMS), que, com a evolução rápida de casos para demais países, classificou a situação como pandêmica.

Mesmo diante da gravidade em escala mundial, a ciência já sabia e alertava: ainda não há medicação, redobre os cuidados com a higiene e evite aglomerações. Ainda que a pesquisa científica chegasse ao seu limite em relação à nova doença sem uma vacina de cura ou imunidade contra o coronavírus, conseguiu praticamente cercar suas características, DNA, formas de contágio, cuidados, prevenções, etc. E assim foi alertado para órgãos e autoridades de países do mundo todo.

O cenário de acesso à informação com mais de 5 milhões de pessoas usando aparelhos celulares em todo o mundo, segundo dados da GSM Association, seria propício para que a informação certa chegasse ao maior número possível de pessoas. Informações corretas correram o mundo, mas logo informações falsas também começaram a circular com potencial de agravar ainda mais a situação.

Mentiras, batizadas contemporaneamente em um contexto de internet como “fake news”, começaram a circular de forma rápida, tomaram as ruas e até governos. Veículos de imprensa precisaram se mobilizar para desvendar mensagens inverídicas que se multiplicam em uma velocidade assustadora.

A Revista Exame, por exemplo, publicou em 12 de março uma matéria identificando 11 fake News que estavam circulando o mundo. O mesmo fez o portal G1, que criou uma espécie de editoria chamada “Fato Ou Fake” exclusiva para o assunto coronavírus.

o jornal Folha de São Paulo publicou um trabalho do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da USP, do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), sediado na Universidade Federal da Bahia, intitulado “Ciência Contaminada – Analisando o contágio de desinformação sobre coronavírus via YouTube”.

O resultado da primeira fase desse estudo é surpreendente. A rede de desinformação sobre a doença, ou seja, canais que contém fake news, teorias da conspiração e dados nada científicos tiveram cerca de três vezes mais acessos no YouTube do que outros canais completamente opostos que possuem conteúdos sérios que tratam sobre a Covid-19.

Outro dado importante, triste e grave é o uso da informação falsa para vender produtos médicos que prometem a tão sonhada cura ou imunidade à doença.

Como já não bastasse o próprio sofrimento, dor e angústia causados pelo novo coronavírus nas vítimas e seus familiares, a humanidade precisa lutar agora não apenas contra esse mal natural, mas agora contra o mal causado pelas próprias pessoas que se apropriam das fake news para promover ideologias, fazer dinheiro e enganar cidadãos de boa-fé.

O exemplo é temporal dada a gravidade e circunstância histórica a qual nos encontramos, mas a gravidade das fake news assola os diversos campos da ciência, da política e da vida cotidiana. Neste contexto de pandemia, informações inverídicas possuem potencial de letalidade ao se evitar um tratamento correto em relação às instruções disseminadas intencionalmente com finalidades diversas.

O trabalho da “Ação Para Comunicar e Engajar” empresas e pessoas em relação aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é bastante árduo e envolve diretamente a disseminação do saber científico que envolve a sustentabilidade e a comunicação. Para cada um dos 17 ODS, grupos estratégicos e multidisciplinares são criados para estudar a melhor forma com que estas temáticas devem chegar ao público para que de fato as metas sejam alcançadas.

E nesse contexto as fake news surgem como inimigas diretas de planejamentos inteiros de comunicação. As notícias tendenciosas, mentirosas e criminosas ganharam uma espécie de linha de produção e já chegaram em praticamente todos os usuários de redes sociais. Esse tipo de comunicação está na contramão da informação e precisa ser combatido de forma veemente por profissionais da área.  Segundo a agência de notícias Reuters, o Brasil ocupava uma posição destaque em 2018 como o terceiro países que mais se produz e dissemina fake news, atrás apenas de Estados Unidos e Turquia.

A informação tem o poder de ser uma ferramenta de educação muito forte e durante uma pandemia pode salvar vidas. Como profissionais de sustentabilidade e comunicação devemos cumprir o nosso dever com a veracidade compartilhando e valorizando trabalhos sérios de empresas e colegas. É nosso dever produzir e difundir uma comunicação sustentável.

 

Rodrigo Gomes é analista de Comunicação na Assessoria de Imprensa da MRV Engenharia, jornalista formado pela universidade federal de São João del Rei UFSJ e MBA em Comunicação Corporativa pela Universidade Estácio de Sá.

19.06
Um espaço valioso de diálogo sobre sustentabilidade

Por Natália Tamura Ocorreu, entre esta segunda e terça-feira (15 e 16 de junho), a Cúpula Global de Líderes do Pacto Global da ONU, reunindo milhares de porta-vozes para discutir e decidir... Leia mais

Por Natália Tamura

Ocorreu, entre esta segunda e terça-feira (15 e 16 de junho), a Cúpula Global de Líderes do Pacto Global da ONU, reunindo milhares de porta-vozes para discutir e decidir como empresas podem apoiar países e comunidades em todo o mundo a se recuperarem e se fortalecerem dos efeitos da crise do COVID-19.

Este ano, a tradicional reunião da cúpula, que normalmente ocorre em Nova York, comemora 20 anos de encontro, mas, pela primeira vez, em formato diferenciado: virtualmente. Foram convidadas as principais vozes de empresas, governo, Nações Unidas, sociedade civil e academia para uma conversa de 26 horas sobre como podemos reconstruir economias e sociedades mais inclusivas e definir um novo rumo socialmente justo e acessível a todos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou a Covid-19 de “o maior teste que enfrentamos juntos desde a formação das Nações Unidas”. Essa pandemia, segundo ele, “é um lembrete importante de que nenhuma nação, nenhum negócio, nenhum indivíduo é mais forte que o mais fraco entre nós em nosso mundo interdependente. Todos são convidados a inspirar, aprender e contribuir para a forte recuperação de que o mundo precisa”.

Entre os vários painéis, a presença marcante de muitas mulheres, entre elas a primeira mulher presidente da Etiópia, a diplomata Sahle-Work Zewde, que comentou sobre o quanto a pandemia evidenciou o que devemos ou não fazer, a necessidade fundamental do respeito pelos direitos humanos, a força das tendências solidárias e das conversas honestas e a boa notícia: o quanto as novas gerações estão aprendendo com esta situação atípica.

As discussões dos vários painéis que ocorrem simultaneamente, trazem muito em comum: a necessidade dos Estados desenvolverem serviços públicos fortes, progredirem com a pauta dos direitos humanos obrigatórios e manter foco na dimensão social, ainda que todas as outras dimensões (ambiental e financeira) precisem de suporte, apoio e desenvolvimento concomitantes. “No one behind” (ninguém para trás) foi a máxima dessa edição.

Segundo Paul Polman, Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU, não podemos pensar em soluções rápidas para uma sociedade que está doente. Meio ambiente e mudanças climáticas mostram sintomas de que não estão bem, mas principalmente o social, como a dimensão racial que não foi tratada devidamente até então. “Não podemos ficar imparciais diante de problemas graves. Igualdade e dignidade importam sim e são instrumentos de uma sociedade”, afirma.

Os impactos da Covid-19 estão atingindo as mulheres de maneira desproporcional. Antes do início da pandemia, as estimativas globais sugeriam que levaria mais de 250 anos – ou dez gerações – para alcançar a igualdade econômica entre homens e mulheres. Para evitar retroceder nos progressos realizados e ampliar ainda mais a diferença global de gênero, os esforços de resposta e recuperação da Covid-19 devem reconhecer e abordar impactos diferenciais em mulheres e meninas. Por isso, essa edição da cúpula colocou especialmente em pauta o quanto as empresas estão levando em conta as questões de gênero no enfrentamento ao COVID-19 .

Desafios socioambientais pós Covid-19: caso da América Latina e da Amazônia

A sessão sobre a América Latina discutiu os aspectos sociais e ambientais dos impactos da Covid-19 na região, principalmente na Amazônia, fornecendo informações sobre como o setor privado, as Nações Unidas e os governos podem enfrentar os principais desafios das pessoas e do planeta.

Gonzalo Muñoz, da COP25, nos lembrou sobre a gravidade que podemos alcançar se o mundo subir em 5 graus celsius. “Esta crise não está em quarentena. Ela continua a existir. Por mais que a natureza tenha reagido a este tempo que nos resguardamos, é provisório. Precisamos de uma mudança estrutural”. Para ele, estamos em uma situação que precisamos abrir mão de tecnologias antigas para adotar novas soluções – “precisamos mudar nosso mecanismo de vida”. Como solução cita a aproximação da academia do mercado, sugerindo, como na Universidade Católica do Chile, cursos que enfocam a discussão climática em meio aos negócios.

Jessica Faieta, Representante Residente do PNUD na Colômbia, comentou sobre o quanto as desigualdades no país, que já eram uma pauta alarmante, se agravam em meio à pandemia. Para ela, para que a encontremos soluções próprias à realidade da América Latina, mais especificamente na Colômbia, é preciso ter mapeado todos os públicos que mais tem se fragilizado nessa situação, para além dos pobres – os bairros isolados, as pessoas que não tem patrimônio ou economias, aquelas que não têm computadores ou conectividade, os ambulantes, aquelas com saúde precária (como má nutrição), os profissionais autônomos (que são mais de 40% da população da AL), as mulheres (empregadas domésticas, agrícolas), os povos indígenas, as comunidades afro e os adultos mais idosos. “A recuperação econômica precisa ser mais verde e ajudar a expandir os sistemas de proteção social de maneira mais inclusiva. Teremos que avançar nos sistemas de pensão, seguros, desempregados. Todo o mundo precisaria ter isso”, afirma.

Participou da sessão, o brasileiro Jean Jereissati, CEO da Ambev, que chamou atenção para a relação da empresa com a Amazônia, há mais de 100 anos, local onde se cultiva o principal ingrediente do guaraná. Ele acredita que a Amazônia foi atingida de forma mais dura pela pandemia porque se trata de uma região com estrutura de saúde carente, além de afastada e de difícil acesso. Comentou sobre as ações que a empresa tomou em meio a pandemia: apoiou os pequenos varejistas através de negociações com bancos e o fortalecimento do Donus, a fintech criada pela empresa para atender os comerciantes; readaptou uma de suas fábricas para produção de álcool gel e distribuição em hospitais públicos; construiu, em parceria com a Gerdau, um hospital anexo ao Hospital Municipal M’boi Mirim; transformou garrafas pet em três milhões de máscaras (do tipo face shield, que cobrem o rosto todo) doadas para o Ministério da Saúde; contratou mais de 6000 motoqueiros para entregas do Zé delivery (aplicativo desenvolvido pela empresa para entrega de bebidas com preço de supermercado, na casa do cliente). Jereissati entende que a indústria do desmatamento, um dos grandes motivos que coloca em risco a Amazônia, infelizmente ainda é lucrativa e por isso, precisa ser encarada a partir de planos de desenvolvimento para a região de longo prazo. “O setor privado tem a capacidade de se reformular e isso é uma riqueza para a sociedade. Isso pode ajudar, em certa medida, a retomada do desenvolvimento da Amazônia, desde levemos em conta que é um assunto que exige compromissos de longo prazo”, comentou.

Natália de Campos Tamura é especialista em Gestão de Comunicação e representante da Aberje na secretaria executiva da CEC e editora do blog Agenda 2030: Comunicação e Engajamento.

10.06
O papel da integridade para a reputação das organizações

  Durante a última reunião do Comitê Aberje de Comunicação, Integridade e Compliance, no dia 27 de maio, conversamos sobre o papel da integridade como ativo reputacional para as... Leia mais

 

Durante a última reunião do Comitê Aberje de Comunicação, Integridade e Compliance, no dia 27 de maio, conversamos sobre o papel da integridade como ativo reputacional para as organizações. Como acredito que este tema seja de interesse geral, compartilho neste espaço as reflexões que levei ao grupo, com o intuito de contribuir para o entendimento da questão e para o fortalecimento de uma cultura de integridade nas organizações.

No artigo “Afinal, o que é reputação corporativa?”, defino reputação como mais do que a imagem que uma organização transmite. É a percepção que os diversos públicos com os quais uma organização interage têm acerca dela ao longo do tempo. É o somatório de imagens pontuais que validam ou se contrapõem às expectativas que as pessoas têm sobre determinada organização. Sendo Reputação um pré requisito para operação, vou adiante e defino reputação como todos os atributos que conferem competitividade às organizações.

Se engana quem acha que faz gerenciamento de reputação com press releases. Gerenciamento de reputação se faz gerenciando expectativas que os diversos grupos de stakeholders possuem em relação à organização. E, tão simples quanto pode parecer esta afirmação, tem boa reputação quem excede expectativas, perde reputação quem falha no cumprimento de expectativas.

As pessoas possuem variadas expectativas em relação à qualidade dos produtos e serviços ofertados, à capacidade de inovação, ao ambiente de trabalho, ao cumprimento das leis e normas, à governança e à cidadania corporativa. Integridade é um aspecto cuja expectativa não sofre escalas de gradatividade. Espera-se que as organizações sejam íntegras e ponto final. Por esta razão, comunicar integridade como diferencial competitivo não faz sentido. Mas se em cenários positivos, a integridade não é mais que obrigação das organizações, em cenários negativos, ser percebido como uma organização que fez esforços para se tornar íntegra confere licença social para continuar existindo.

Convidado para gravar um vídeo para o encontro sobre o impacto da integridade para a reputação, o pesquisador em confiança e ativos intangíveis da FGV e consultor empresarial Marco Tulio Zanini resumiu a integridade das organizações como o principal elemento para construir confiança e reputação. Integridade reforça a confiança, que reforça a reputação.

A Petrobras é um exemplo que ilustra o que acontece com uma organização quando a expectativa de percepção de integridade se rompe. Em 2014, quando começaram as denúncias da Lava Jato em relação à Petrobras, ela estava na 30ª posição no ranking da Forbes das 2.000 maiores cias abertas do mundo. Em 2015, despencou para a 416ª posição e em 2020, como resultado dos esforços para reforço da governança, ela está na 70ª posição. Ùnica empresa brasileira a figurar no Global RepTrak, que lista as 100 empresas de melhor reputação do mundo, em 2014, a Petrobras possuía 69 pontos de reputação em uma escala de 0 a 100. Em 2015, apenas 32. A queda é brusca, a retomada é lenta.

E o que fazer para reconstruir confiança e reputação? Trabalhar com humildade, transparencia e empatia. Humildade de reconhecer os erros. Transparência para falar sobre lições aprendidas e o processo para mudança de cultura. E empatia para o diálogo com as partes interessadas e que se interessam pela organização.

Por fim, trabalhar integridade como ativo reputacional não significa “fazer press releases ou publicidade sobre como a empresa é integra”. Trabalhar integridade como ativo reputacional demanda mapear os processos que representam riscos reputacionais e fortalecer a culturade integridade para evitar crises reputacionais.

02.06
Principais impressões da sexta edição do ‘State of Marketing’ da Salesforce

Para a sexta edição do relatório "State of Marketing", a Salesforce Research entrevistou quase 7000 líderes de marketing em todo o mundo para descobrir alterações nas definições de sucesso de... Leia mais

Para a sexta edição do relatório “State of Marketing”, a Salesforce Research entrevistou quase 7000 líderes de marketing em todo o mundo para descobrir alterações nas definições de sucesso de marketing, mudanças nos padrões de engajamento e práticas de privacidade, desenvolvimento de conjuntos de habilidades em processos de marketing e desenvolvimento de estratégias e táticas de gerenciamento de dados.

O relatório observa que, após a pandemia da COVID-19, os padrões de engajamento do cliente estão mudando mais uma vez e os profissionais de marketing estão na vanguarda da inovação. Aqui estão as três principais conclusões:

1) A transformação do marketing assume nova urgência: as expectativas e comportamentos dos consumidores, empresas e sociedade em geral estão mudando com rapidez e magnitude sem precedentes. Os profissionais de comunicação e marketing estão sob uma tremenda pressão para revisar seus modelos organizacionais e usar a tecnologia para fornecer um envolvimento diferenciado do cliente digital. A inovação é a prioridade número um dos líderes desta área;

2) Os conjuntos de dados do cliente preparam o terreno para o marketing empático: à medida em que os clientes navegam em uma série de “novas normais”, o envolvimento personalizado e empático nunca foi tão importante. A entrega de mensagens e ofertas compatíveis com as necessidades e expectativas únicas de um indivíduo requer insights profundos. Os profissionais de comunicação e marketing estão mudando a maneira como obtêm e gerenciam os dados dos clientes e aumentam o uso de tecnologias como inteligência artificial (IA) que os ajudam a aproveitar ao máximo. Os profissionais de marketing relatam um aumento de 186% na adoção da IA desde 2018;

3) Os profissionais de comunicação e marketing dobram o valor do negócio: profissionais da área têm uma oportunidade única de transformar relacionamentos confiáveis com os clientes em valor comercial. Acompanham cada vez mais métricas como satisfação do cliente, engajamento digital e valor vitalício do cliente para obter uma imagem holística do que está funcionando e do que não está ao longo da jornada do cliente.

As informações contidas neste relatório demonstram a importância dos principais valores: 1. foco incansável na experiência do cliente, 2. compromisso inabalável com a ajuda, a relevância e a confiabilidade, e 3. busca contínua pela inovação – e o que os principais profissionais de marketing fazem para viver com eles.

Veja algumas lições importantes para profissionais de marketing digital:
– Em uma economia digital hiperconectada, compartilhando conhecimento, a experiência do cliente se tornou mais importante do que nunca;
– Inovação e engajamento do cliente em tempo real são as duas principais prioridades para os profissionais de marketing;
– O marketing é um trabalho de equipe e a colaboração multifuncional é uma aposta na mesa;
– A IA, as ferramentas sociais e as análises são as principais prioridades para o aumento da adoção e uso – e a TI desempenhará um grande papel no sucesso.

* para fazer download, o produtor do conteúdo quer seus dados. Decida e vá em https://www.salesforce.com/form/pdf/6th-state-of-marketing/

28.05
A covid-19 e sua relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Por Marcos Cardinalli Em exatamente dez anos para a conclusão da Agenda 2030, o mundo enfrenta uma crise causada pela covid-19, doença infecciosa que, até a última semana de maio deste ano,... Leia mais

Por Marcos Cardinalli

Em exatamente dez anos para a conclusão da Agenda 2030, o mundo enfrenta uma crise causada pela covid-19, doença infecciosa que, até a última semana de maio deste ano, já matou mais de 340 mil pessoas no planeta. Para conter o avanço da doença, as nações precisaram adotar medidas de isolamento social, e cidadãos de todo o mundo foram confinados em suas casas. Empresas fecharam suas portas físicas e suspenderam seus negócios. A situação desencadeou mais que uma crise de saúde global, mas também crise social, econômica, sanitária, ambiental e política.

A pandemia provou uma realidade assustadora: ainda falta muito para se alcançar, de fato, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU. Por outro lado, a empatia, união e cooperativismo que temos presenciado pelo mundo entre as pessoas e empresas geram a certeza de que aquilo que torna humana a humanidade é a chave para uma sociedade mais justa, inclusiva e segura, bem como da esperança por um mundo melhor, com todos os ODS alcançados.

Neste artigo, tento relacionar o atual momento de pandemia com os ODS, reforçando as necessidades que temos como sociedade, não como forma de desestimular a busca por soluções, mas para apontar os ODS como bússola que guia nossas ações. Ao final, depois dos questionamentos, uma esperança: o ODS17.

Poluição do ar é um agravante

A covid-19 é uma doença causada por um coronavírus, uma família de vírus que causam infecções respiratórias. De acordo com a OMS, cerca de 20% dos casos podem requerer atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade para respirar e, desses, aproximadamente 5% podem necessitar de respiradores artificiais para tratamento de insuficiência respiratória. Devido a essas características da covid-19, idosos e pessoas portadoras de doenças crônicas (diabetes, hipertensão, asma) ou com problemas respiratórios formam os grupos de risco da doença.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), problemas respiratórios têm aumentado no mundo todo durante as últimas décadas, e a poluição do ar é o principal causador dessa alta. Aqui é até possível provocar uma reflexão sobre a poluição atmosférica ser, inclusive, um agravante para os casos de covid-19. O questionamento é apontado, por exemplo, em um estudo realizado pelas Universidades de Aarhus, na Dinamarca, e de Siena, na Itália. A Itália foi um dos países mais impactados pela doença e, de acordo com a pesquisa, as regiões mais afetadas do país são justamente as que vivem em um maior nível de poluição do ar, que poderia levar uma série de complicações àquela população.

A problemática da poluição atmosférica foi o tema oficial das discussões no Dia Mundial do Meio Ambiente de 2019, sediadas na China. Na ocasião, foi apresentado um relatório da ONU com informações relevantes sobre a situação do planeta e da poluição do ar. De acordo com o documento, aproximadamente 7 milhões de pessoas morrem prematuramente devido às consequências da poluição atmosférica. Crianças e idosos (estes pertencentes ao grupo de risco da covid-19) são os públicos que mais sofrem.

Já no Brasil, de acordo com a OMS, a poluição do ar causa a morte de mais de 50 mil pessoas por ano, e esse é um dos principais desafios de saúde pública do país. Nos próximos anos, conforme projeção do Instituto Saúde e Sustentabilidade, da USP, a poluição atmosférica será responsável por cerca de 256 mil mortes, sendo 25% apenas na capital paulista. São Paulo é o maior centro urbano do país – com mais emissões de gases poluentes e, também, com mais vítimas da covid-19.

A poluição atmosférica está diretamente relacionada às mudanças climáticas, devido às emissões de gases de efeito estufa, e por isso o ODS13 (ação contra a mudança global do clima) é fundamental para a saúde do planeta e para reduzir impactos na saúde das pessoas.

A população pobre é a que mais sofre

Por ser uma situação de pandemia, o momento relaciona-se intimamente com o ODS3 (saúde e bem-estar), mas não é novidade quando cientistas e especialistas publicam pesquisas indicando que populações mais pobres são as mais afetadas por doenças como a covid-19. Um estudo realizado pelo Imperial College, de Londres, instituição de referência em medicina, por exemplo, aponta as camadas mais pobres da população global como as mais atingidas pela doença. Segundo o estudo, a taxa de mortalidade entre as pessoas que não têm acesso a hospitais e a recursos como água e sabão para higienizar as mãos e um local seguro que permita o isolamento social é 32% mais alta.

Os órgãos de saúde, como a OMS, fazem duas recomendações principais para prevenção da covid-19: que as pessoas lavem bem as mãos e que adotem o isolamento social. Entretanto, uma pesquisa de 2019 da própria OMS, junto ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), revela que 1 em cada 3 pessoas no mundo – ou cerca de 2,2 bilhões de pessoas – não tem acesso a água potável. Além disso, 4,2 bilhões de indivíduos não têm acesso a esgotamento sanitário seguro. A pesquisa das duas agências também afirma: “3 bilhões de pessoas não possuem instalações básicas para lavar as mãos de forma adequada”. Para esses indivíduos, a covid-19 se torna muito mais grave, pois já estão submetidos a riscos de doenças como diarreia, cólera, febre tifoide, hepatite A, esquistossomose e outras. Ou seja, o ODS6 (água potável e saneamento para todas as pessoas) é essencial para diminuir o impacto causado por pandemias como a de covid-19.

A outra recomendação para controle da pandemia é o isolamento social, para o qual é necessária moradia adequada. De acordo com informações de 2017 do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), “1,6 bilhão de pessoas vivem em moradias inadequadas, das quais 1 bilhão vive em favelas e assentamentos informais”.

Nessas habitações, serviços básicos como saneamento, segurança, educação e cuidados de saúde costumam ser extremamente limitados. E cerca de 40% do crescimento urbano mundial ocorre em favelas, segundo relatório divulgado na Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável de 2016 (Habitat 3). O relatório ainda aponta que as taxas de doenças e de morte prematura são consideravelmente mais altas entre moradores de favelas e assentamentos informais.

Em São Paulo, maior cidade brasileira em população e em número de infectados e mortos pela covid-19, os casos da doença têm aumentado significativamente nas periferias. Regiões onde há favelas, cortiços e assentamentos informais são os mesmos locais que apresentam mais mortes registradas, segundo dados divulgados pela Prefeitura. Em entrevista coletiva, o prefeito da cidade, Bruno Covas, afirmou que a epidemia se iniciou na área central – e mais rica – da cidade, mas se espalhou com mais gravidade na periferia. Aqui, reiteramos a importância do ODS11 (cidades e comunidades sustentáveis), cuja primeira meta é “garantir o acesso de todos a habitação segura, adequada e a preço acessível, e aos serviços básicos e urbanizar as favelas”.

E apesar do sentimento de “todos estarem no mesmo barco”, a covid-19 expõe a realidade da desigualdade socioeconômica, e ao concluirmos que a pandemia é mais perigosa para os mais pobres, entendemos que o ODS1 (erradicação da pobreza) precisa ser alcançado para que a sociedade global esteja mais protegida e preparada para lidar com situações de crise como essa que estamos vivendo.

A mortalidade é pior entre os negros

A precarização de serviços básicos nas favelas e periferias, contudo, relaciona-se a outras questões de desigualdade social, como o racismo estrutural presente nas sociedades globais. No Brasil, onde houve escravização do povo negro por quatro séculos, e com seu fim oficial há apenas 130 anos, o racismo estrutural é uma realidade bastante infeliz e que precisa ser apontado, discutido e combatido. No Mapa da Desigualdade 2019, lançado pela Rede Nossa São Paulo no final do ano passado, é possível observar alguns indicadores: a concentração da população negra se dá majoritariamente nas regiões periféricas, que chega até 60% (quase o dobro da porcentagem de moradores da cidade autodeclarados pretos ou pardos), enquanto a região central possui os distritos com menos negros, como pode ser observado nessa reportagem.

Voltando à entrevista coletiva dada por Bruno Covas, o prefeito de São Paulo afirma que a doença começou na região central mas se espalhou com mais gravidade na periferia. Com o cruzamento dessas informações é possível concluir que, no recorte da cidade de São Paulo, a população negra é a mais afetada pela covid-19. Essa afirmação é comprovada por estudos científicos, como o realizado em parceria entre o grupo de cientistas Observatório Covid-19 e a Prefeitura de São Paulo. A análise científica das mortes registradas até 17 de abril na cidade aponta que pretos e pardos têm uma chance de 62% e 23%, respectivamente, maior de morrer por covid-19 que em relação a brancos. E isso não acontece só em São Paulo. Outros estudos apontam que, apesar da doença não fazer distinção de cor da pele de suas vítimas, a mortalidade é maior na população negra, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, devido à desigualdade histórica de índices sociais, econômicos e de acesso à saúde. Nesse contexto, reafirmamos a necessidade de se alcançar o ODS10 (redução das desigualdades), para “empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, sexo, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra”.

Aumento da violência doméstica

Outro problema que tem se agravado com a situação de isolamento social é a violência doméstica, sobretudo contra a mulher. Segundo dados do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), houve um aumento de mais de 50% no número de denúncias desde o início do isolamento social no Rio de Janeiro. Contudo, assim como os casos de covid-19, a violência doméstica é subnotificada. De acordo com especialistas, muitas mulheres não denunciam a situação de violência, principalmente por medo ou por dificuldade em identificar as agressões psicológicas que podem levar à agressão física e ao feminicídio.

Governos do mundo todo relatam aumento das denúncias de violência doméstica durante o isolamento social, e essa é uma das preocupações da ONU Mulheres, pois as vítimas, além da situação, nesse momento, de muita ansiedade e tensão, estão afastadas de suas redes de apoio e tendo que conviver constantemente com seus possíveis agressores. A violência contra a mulher, apesar do aumento preocupante durante a pandemia de covid-19, é uma realidade que precisa ser transformada, e por isso a Agenda 2030 conta com um ODS específico para esse tema: o ODS5 (igualdade de gênero), que visa acabar com todas as formas de discriminação e violência contra mulheres e meninas, empoderando-as.

Educação para todos?

Com o isolamento social, as escolas foram fechadas e as aulas, suspensas. Em todo o mundo, segundo dados da ONU, 9 em cada 10 estudantes estão temporariamente fora da escola em resposta à pandemia. Uma solução encontrada pelos governantes, no Brasil, foi o oferecimento do ensino à distância (EaD). Com a tecnologia disponível atualmente, a educação na modalidade EaD tem sido cada vez mais uma realidade presente na sociedade. E isso é ótimo. Mas se for realizado com planejamento, qualidade e acessibilidade. O ODS4 (educação de qualidade) prevê “assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”.

Infelizmente, internet e equipamentos como computadores são acessíveis apenas a uma parte da população. De acordo com levantamento de 2018 feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar do aumento em comparação a pesquisas passadas, 25,3% da população do país com 10 anos ou mais de idade não têm acesso à internet. Isso representa um quarto dos brasileiros.

Outra questão do fechamento das escolas é em relação à alimentação. Muitas crianças de baixa renda encontram na merenda escolar sua única refeição diária, e podem acabar ficando sem ela. Garantir alimentação nutritiva para todas as pessoas, ainda mais em tempos de pandemia, devido à baixa imunidade que a subnutrição causa, deve ser uma das principais preocupações da sociedade. Como medida paliativa, alguns governos e prefeituras do país, cientes dessa realidade, passaram a oferecer um “vale-merenda” a famílias de baixa renda que ficaram sem a refeição nas escolas. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição são temas inclusos no ODS2 (fome zero e agricultura sustentável).

Como fica a economia?

Para frear a disseminação do coronavírus, empresas foram incentivadas a adotarem o home office o quanto for possível. Essa situação muda as relações de trabalho e antecipam realidades previstas, até então, para um futuro um pouco mais distante. A conectividade permite que várias empresas consigam continuar com pelo menos parte de suas operações.

Mas esse é um grande desafio para pequenos negócios. Muitas empresas, microempreendedores e profissionais autônomos não têm estrutura ou recursos para o trabalho à distância, ou essa possibilidade é impossível para o tipo de negócio realizado. Profissionais foram demitidos, afastados ou tiveram seu salário reduzido. É uma situação complicada para o pequeno comércio ou prestadores de serviço, para o pedreiro, para a faxineira, e tantos outros profissionais e empresas.

De acordo com uma pesquisa do Sebrae divulgada no início de maio, 89% dos pequenos negócios declararam que o seu faturamento mensal caiu e estão operando com uma receita 60% menor que no período pré-crise, e a situação só não está pior graças ao auxílio emergencial liberado pelo governo e pelas diversas iniciativas realizadas em prol dos pequenos negócios.

Tanto as condições e relações de trabalho quanto o desenvolvimento econômico das empresas estão relacionados ao ODS8 (trabalho decente e crescimento econômico), que visa “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todos”.

Nossa esperança: parcerias e meios de implementação

Até aqui, falei dos principais agravantes da crise global que vivemos com a pandemia de covid-19. A minha intenção foi convidá-lo à reflexão sobre como os ODS estão interligados com nossa realidade e sobre a importância de implementarmos a Agenda 2030. E temos mais 10 anos para sua conclusão.

Esses agravantes aqui apresentados são sérios e importantes, mas há um outro lado dessa moeda que observamos diariamente, seja como Ideia Sustentável ou como qualquer outra empresa signatária da Rede Brasil do Pacto Global. São as boas práticas e ações realizadas por instituições públicas, privadas e do terceiro setor para aliviar o impacto causado pelo coronavírus.

Várias empresas, com o apoio de líderes engajados, têm colocado o seu propósito acima do lucro e utilizado de sua expertise em prol da sociedade. Grandes corporações têm ajudado as médias e pequenas empresas a sobreviverem. Grupos empresariais têm realizado doações de alimentos e produtos de higiene a centros de saúde e comunidades carentes. Cervejarias e perfumarias estão produzindo álcool em gel. Concorrentes uniram esforços para oferecer serviços de apoio à população. Companhias de tecnologia liberaram acesso gratuito a suas ferramentas. Empresas têm consolidado parcerias para a construção de hospitais para a rede pública, além da compra e fabricação de respiradores artificiais e máscaras. Funcionários estão se mobilizando voluntariamente em campanhas para apoiar profissionais de saúde. Esses são alguns exemplos de ações que nos renovam a esperança. Algumas dessas iniciativas podem ser conferidas no Radar de Sustentabilidade da Ideia Sustentável, no Pacto contra a Covid-19, do Pacto Global, e em diversos veículos de comunicação, sites e blogs que estão divulgando essas boas práticas.

Nas inúmeras discussões e conversas com lideranças engajadas, é unânime a afirmação de que o período pós-coronavírus será um tempo de um “outro normal”, em que a importância da sustentabilidade será fortalecida, e os negócios serão muito mais responsáveis, éticos, transparentes, sustentáveis, inclusivos e humanizados. A crise do coronavírus realmente está mudando a forma de se pensar e fazer negócios, e, no final, o bem sempre vence.

O ODS17 (parcerias e meios de implementação) ganhou total relevância nesse contexto, e a experiência revela que é possível, sim, instituições e pessoas se juntarem e oferecerem aquilo que podem fazer por uma causa maior. E se após tudo isso realmente for um período de “outro normal”, em que a sustentabilidade é a nova regra, que as instituições continuem, com a mesma energia e dedicação conferidas ao combate da covid-19, se unindo e formando parcerias para alcançarmos, juntos, todos os ODS da Agenda 2030.

 

Marcos Cardinalli é jornalista e administrador, com MBA em Marketing. É coordenador de Comunicação na consultoria Ideia Sustentável e membro da Comissão de Engajamento e Comunicação da Rede Brasil do Pacto Global.

12.05
Reputação, Coronavírus e pós-crise: o que mudou e vai mudar

Publicado originalmente na Revista da Reputação, em 23 de abril. Reputação é o principal ativo intangível de qualquer instituição - seja ela pública ou privada, com ou sem fins lucrativos.... Leia mais

Publicado originalmente na Revista da Reputação, em 23 de abril.

Reputação é o principal ativo intangível de qualquer instituição – seja ela pública ou privada, com ou sem fins lucrativos. Reputação é o principal ativo intangível de qualquer instituição porque ela é pré-requisito para que as pessoas façam negócios com ela. Sem boa reputação, nem a padaria da esquina consegue vender pão. Você compraria pão em um lugar tido como sujo e que não cumpre as normas da Vigilância Sanitária? Pois bem.

Os tempos não são de pensar a reputação do modo em que o seu gerenciamento acontecia até antes da pandemia de Coronavírus atingir o mundo. Se antes reputação tinha como alicerce a percepção dos stakeholders sobre um conjunto de fatores que incluía a qualidade de produtos e serviços, o ambiente de trabalho, a governança, inovação, cidadania e a capacidade de estabelecer relacionamentos com os públicos de interesse e interessados para a construção de confiança, o que mais parece pesar agora é a capacidade de adaptação e de resposta das instituições aos cenários de incerteza.

Não que os atributos antigos não tenham mais peso. Não é isso. Mas o que se entendia sobre o almejado em relação a eles mudou. Se antes ter um escritório descolado contribuía positivamente para a reputação das empresas, neste momento, ter manicure, chope no final do expediente e mesa de sinuca no escritório não faz mais o menor sentido. O que as pessoas querem agora são boas condições de trabalho remoto. Com respeito à divisão de horários e jornadas de trabalho viáveis e garantias (ainda que mínimas) de que não serão demitidas. Receber um mimo da empresa em casa nunca foi tão bem visto pelos funcionários e colaboradores. É um afago em meio ao turbilhão de emoções nem sempre positivas que todos estão enfrentando. Empatia é a palavra-chave.

Se antes a capacidade de inovar era avaliada pela quantidade de novos produtos e serviços revolucionários lançados a cada ano, agora, a percepção de inovação vem da capacidade das instituições adaptarem as suas linhas de produção e suas ofertas de produtos e serviços para algo que resolva problemas que a sociedade está enfrentando. A Ambev está surpreendendo as pessoas com o álcool gel, não com o álcool de suas cervejas.

Se antes as marcas competiam para oferecer os menores preços e/ou pela maior percepção possível de qualidade, hoje a concorrência está mais fortemente baseada na comodidade de o consumidor ou a consumidora receber os produtos e os serviços em casa o mais rápido possível. E se os pequenos negócios estão sofrendo mais que os grandes para continuarem operando, são os pequenos negócios que estão recebendo maior apoio por parte da população em campanhas diversas para estímulo do negócio local e de pequeno porte. Isso se explica tanto pela ligação afetiva que os pequenos negócios conseguiram construir com os seus clientes antes da pandemia (lastro reputacional) como pelo fato de os micro e pequenos negócios serem os maiores empregadores do país. De acordo com o Sebrae, 99% das empresas brasileiras são de micro ou pequeno porte, responsáveis, em 2019, por 54% dos empregos formais do país. O comércio concentra a maior parte das empresas, somando 41%.

Capacidade de regeneração ganha espaço

Enquanto escrevo este texto, estou há 42 dias em isolamento social por causa da pandemia de Coronavírus. Ainda é cedo para prever o que mudará em definitivo em relação à reputação corporativa. Mas o meu palpite – baseado na observação do que está acontecendo e no acompanhamento de estudos pré-pandemia – reside no aumento da importância de percepção dos stakeholders sobre a capacidade de as empresas e agentes sociais regenerarem a sociedade e a economia.

Esta tendência já se apresentava há alguns anos, diluída na percepção de cidadania corporativa, presente em todos os estudos que avaliavam a reputação das empresas, desde os do antigo Reputation Institute, hoje The RepTrak Company, aos da Merco, passando pelas análises do Grupo Caliber.

Porém, está evidenciada nas respostas das redes sociais às publicações de empresas que estão assumindo o que chamo de “papel de Estado” durante esta crise. Em outras palavras, estão adotando ações que as colocam como protagonistas de alívios para a sociedade no momento de crise. O que definirá a reputação de uma instituição após a pandemia e, por consequência, a sua competitividade será a percepção de como ela agiu para minimizar os danos à economia e proteger a população em um momento de crise extrema.

E como esta percepção será formada? A partir das ações da instituição neste momento e nos próximos meses. Mais do que nunca, espera-se das empresas privadas uma atuação que deixe de lado a busca pelo lucro financeiro como razão mais importante de sua existência, priorizando medidas de bem-estar social. O lucro financeiro é importante e seguirá como importante. Mas a percepção de que a empresa tem funções sociais além da geração de lucro financeiro garantirá, mais facilmente, licença social para operação e licença social para continuidade de operação.

Outro aspecto importante de mencionar é o crescimento da importância do gerenciamento de riscos para os negócios. As empresas que mapearam, antes da pandemia, o risco de problemas de mobilidade afetarem em massa a capacidade de funcionários e consumidores se deslocarem até os seus escritórios largaram na frente na adaptação ao cenário de isolamento social. Os governos que mapearam a capacidade de seus sistemas de saúde absorverem os possíveis casos de doenças contagiosas de massa antes da pandemia puderam adotar medidas de contingenciamento mais efetivas e mais rapidamente. A pandemia também deixa para os brasileiros o legado de imaginar (e viver) cenários de escassez e o risco de escassez pode redesenhar o modo como as pessoas vivem e consomem.

Usando o poder de escala para o bem

Usar o poder de escala para o bem é o caminho que as instituições devem adotar para o fortalecimento de suas reputações neste momento de crise. Basta olhar a história e ver o que aconteceu com companhias que agiram em defesa dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial e o que aconteceu com as empresas que se aliaram ao Nazismo.

As que ajudaram as pessoas são lembradas até hoje de modo positivo, podendo estampar seus feitos em espaços de convivência e de memória corporativa. Já as que se aliaram ao Nazismo até hoje se vêm tendo que dar explicações e pedir desculpas.  “A Lista de Schindler” é um grande exemplo de memória corporativa que ganhou as telas de cinema e sete Oscars, entre eles o de Melhor Filme de 1993, ilustrando o grupo de empresas que ajudaram as pessoas, apesar das controvérsias. Em se tratando de memória corporativa, a Lista de Schindler retrata também a boa prática de documentar a história enquanto ela acontece. Se a lista de nomes dos funcionários não existisse à época dos fatos, levaria muito mais tempo e esforços para ser construída no pós-guerra. O mesmo vale agora e fica o conselho para as instituições que estão fazendo algo que mereça ser contado no futuro: comecem o quanto antes a documentação de suas ações com as mais variadas memórias. Elas poderão ser valiosas em um futuro próximo.

Não se enganem, estamos diante de um marco divisor de eras tal qual a Segunda Guerra Mundial ou o ataque terrorista ao World Trade Center. Na queda das Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001, morreram cerca de três mil pessoas. Apenas no dia 15 de abril de 2020, 2.806 pessoas morreram nos Estados Unidos por causa do Coronavírus. Enquanto escrevo este artigo, o mundo contabiliza mais de 183 mil mortes confirmadas por Coronavírus. É muita coisa. De todo modo, o maior impacto para o mundo desta pandemia pode não ser atrelado ao número de mortos. os maiores impactos podem ser atrelados à conscientização da interdependência de povos e economias e às transformações na forma como as pessoas trabalham e consomem.

Métricas de reputação precisam ser revistas

Uma vez que estamos presenciando mudanças nas expectativas em relação aos atributos de valor que compõem a reputação de uma instituição, é de se esperar que haja uma revisão das métricas que estão sendo usadas para acompanhar o sucesso das ações desempenhadas. Neste cenário, métricas como quantidade de pessoas realmente impactadas pelas ações da instituição são mais importantes do que as óbvias métricas de exposição das ações na mídia.

Métricas de geração de valor compartilhado e de percepção de lucro ético devem ser desenhadas ou aprimoradas ao cenário e às realidades de cada instituição. Este aprendizado ou exercício será de grande valia para as instituições quando chegar a hora de prestar contas aos públicos de interesse sobre as ações desenvolvidas durante a pandemia. Se precisar de ajuda para a análise e redesenho de métricas de reputação, sigo à disposição.

Mais ajuda quem não atrapalha

Muitas instituições estão se mobilizando para ajudar a população e os governos durante a pandemia. Esta atitude é louvável. Porém, cabe lembrar que ter apenas a boa intenção não basta. Para que a ajuda seja efetiva, as instituições devem procurar os comitês de crise locais para alinhar as suas ofertas às necessidades reais das populações e dos governos. Assim como, devem procurar as autoridades locais em busca de informações sobre o que fazer e como fazer para que o aproveitamento da ajuda seja maximizado.

Muitas empresas estão distribuindo máscaras de tecido para a população, por exemplo. Mas nem toda máscara de tecido realmente protege as pessoas. Para garantir a proteção, as máscaras precisam de barreiras de celulose entre as camadas de tecido. O papel funciona como uma barreira para a propagação do vírus de modo mais eficaz do que as camadas simples de tecido.

Outras pessoas, no afã de doar alimentos, estão fazendo com que pessoas se aglomerem em filas para recebê-los, o que pode representar um maior risco de contaminação. Então, se você quiser ajudar, certifique-se de que a sua ajuda será eficaz seguindo as normas de segurança divulgadas pela Organização Mundial de Saúde e alinhando as suas ofertas às necessidades concretas da sua região ou público-alvo.

Juntos vamos sair mais rapidamente desta crise que é tanto sanitária como econômica. Vai passar. Até lá, faça a sua parte.

08.05
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e logística reversa

Por Fernanda Defourny Corrêa e Henrique Mendes Segundo o Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2018), estima-se... Leia mais

Por Fernanda Defourny Corrêa e Henrique Mendes

Segundo o Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2018), estima-se que a massa total de RSU coletada em 2018 chegou a 62,78 milhões de toneladas, sendo 46,68 milhões dispostos em aterros sanitários e 15,05 milhões em aterros controlados e lixões. Apenas 124 mil toneladas foram destinadas a unidades de compostagem e 1,05 milhões a unidades de triagem.

Frente a esse cenário, vê-se necessário ações mais sustentáveis no gerenciamento de resíduos sólidos, ações que vão ao encontro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em especial aqueles que propõe cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11) e consumo e produções responsáveis (ODS 12).

Dentre as metas estipuladas para o cumprimento destes dois objetivos, está a redução substancial da geração de resíduos, através da prevenção, redução, reciclagem e reuso, a fim de reduzir consequentemente o impacto ambiental negativo per capta das cidades.

A logística reversa, seguindo o mesmo propósito, propõe como instrumento, “viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada” (PNRS, 2010).

Com isso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a fim de aplicar a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto, obriga os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes a implementarem sistemas de logística reversa para produtos pós consumidos pelos cidadãos, dando ênfase à indústria de: embalagens de agrotóxicos; pilhas e baterias; pneus; lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; produtos eletroeletrônicos e seus componentes; além das embalagens em geral.

São através de acordos setoriais ou termos de compromisso entre as empresas e o governo que esses sistemas vêm sendo estabelecidos. No Brasil, muitos já foram implementados e estão sendo executados, antes mesmo da promulgação da PNRS.  Porém, a grande maioria ainda está em processo de expansão.

Compreende-se, portanto, que a logística reversa possui ainda um potencial enorme de avançar no país, assim como um crescente poder de transformação do cenário atual da geração e destinação dos resíduos sólidos, possibilitando ainda, direta ou indiretamente, proporcionar mais saúde e bem-estar à população (ODS 3), colaborar na redução de gases de efeito estufa e nas mudanças climáticas (ODS 13) e evitar que resíduos sejam despejados em locais inapropriados, como em corpos d’água (ODS 14).

O papel dos integrantes do Pacto Global, como uma iniciativa voluntária que fornece diretrizes para a promoção do crescimento sustentável, está em contribuir para o alcance da Agenda 2030, trabalhando em conjunto e compartilhando experiências e melhores práticas, como proposto no ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação. As empresas envolvidas na logística reversa, tem se estruturado de forma consorciada, seguindo também esta proposta ao implementar sistemas coletivos para assegurar a coleta e destinação dos materiais descartados pelos consumidores.

Referências

BRASIL, 2010. Lei nº 12.305 de 02 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Brasília, Brasil: Diário Oficial da União, de 03 ago. 2010.

SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO (SNIS). Diagnóstico do manejo de resíduos sólidos urbanos – 2018. Brasília, mar. 2018.

 

Fernanda Defourny Corrêa é Analista de Sustentabilidade da Abinee e Henrique Mendes é Gerente de Sustentabilidade da Abinee.

 

 

29.04
ODSs no Brasil: entraves, avanços e caminhos.

Por Clarice M O Kobayashi e Neuseli Martins Costa   Atualmente vivemos uma situação sem precedentes, a paralisação de boa parte das atividades econômicas dos países, a adaptação a... Leia mais

Por Clarice M O Kobayashi e Neuseli Martins Costa

 

Atualmente vivemos uma situação sem precedentes, a paralisação de boa parte das atividades econômicas dos países, a adaptação a novas formas de organização do trabalho e das relações entre as pessoas, a maioria dos países engajada em deter o avanço de uma pandemia que expõe várias de nossas fragilidades. Mesmo países desenvolvidos enfrentam dificuldades para lidar com a rapidez e a facilidade da transmissão do COVID-19 e essa situação só se agrava em países cujas áreas essenciais como saúde, infraestrutura, saneamento básico, educação não foram prioridades das autoridades públicas.

Ao escolhermos esse tema os ODSs no Brasil, o intuito era fazer uma avaliação dos avanços, entraves e possíveis caminhos para atendermos a Agenda 2030. Ao nos depararmos com a crise gerada pelo coronavírus, percebemos o quão importante é para um país ter a sociedade, o meio ambiente e a economia equilibrados, assim como ficou evidenciada a relação de interdependência entre eles e a necessidade de planos e projetos a curto, médio e longo prazo, para que esses objetivos sejam atendidos.

Fica claro também que para sermos bem sucedidos nessa tarefa é necessário preparação, resiliência, organização, cooperação e ação de todos os interessados, assim como proposto pelos ODS 17 Parcerias pelas metas que diz o seguinte: “Os ODSs só serão realizados mediante um compromisso renovado de cooperação entre a comunidade internacional e uma parceria global ampla que inclua todos os setores interessados e as pessoas afetadas pelos processos de desenvolvimento”. O mesmo serve para nosso atual contexto em que graças ao esforço e cooperação coletiva, desafios globais podem ser vencidos e objetivos comuns podem ser alcançados.

Setembro de 2015 foi um marco nas relações internacionais para os 193 Estados Membros da Organização das Nações Unidas que juntamente com a sociedade, os setores privados da economia, as instituições do Terceiro Setor e do poder público,  definiram os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, cujo princípio é o do crescimento econômico socialmente responsável e ambientalmente correto.

Um programa ambicioso uma vez que fixa metas de desenvolvimento globais, pois reconhece que a aplicabilidade das mesmas deve considerar as realidades diversas dos países anuentes, e também por trazer uma proposta inovadora em relação aos processos de implementação desses objetivos com base na ação integrada e coletiva e na responsabilidade compartilhada através da intersetorialidade, transversalidade e pluralidade de todos os atores envolvidos na realização dos 17 objetivos, das 169 metas propostas e com mais de 200 indicadores de acompanhamento dos atingimentos.

De acordo com o Relatório 2019 de Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Report 2019[1] – June 2019 – from Independent Experts of SDNS Secretariat ad the Bertelsmann Stiftung), nenhum país está a caminho de cumprir todas as metas da Agenda 2030. Sobre o Brasil, o mesmo relatório (p.6), afirma que em 2017, havia 237 indicadores de acompanhamento da evolução das metas dos ODS, mas não havia verbas alocadas e nem comprometimentos públicos da alta cúpula do País.

Estamos em contagem regressiva para 2030 e, pelo que temos acompanhado, por meio da participação em palestras, workshops, fóruns de discussão e diálogo sobre o tema, observa-se que ainda existe falta de informação, muitos questionamentos e dúvidas, não só sobre os ODSs em si, mas também sobre a razão de sua origem e crença na iniciativa. Em muitas instâncias e setores da sociedade questões como as mudanças climáticas e suas consequências, assim como a falta de consciência em relação ao consumo, a geração de resíduos e as formas corretas de descarte ainda não são temas importantes a serem tratados por todos.

Em relação aos ODSs observam-se algumas ações em andamento, de forma pontual, na maioria das vezes de curto prazo e sem perspectiva de continuidade uma vez que são feitas com um orçamento ocasional, doação pontual, visão imediatista e estreita, que vislumbra através das ações relativas aos ODSs, uma forma de capitalizar financeiramente, afirmar e/ou melhorar a imagem e a reputação da empresa e/ou patrocinador junto ao mercado consumidor interno e externo. Vale ressaltar que algumas empresas do setor privado, assim como organizações do Terceiro Setor  e algumas instâncias do poder público estão efetivamente comprometidos e buscam desenvolver projetos e realizar ações que tenham em seu core business a essência proposta pelos ODSs.

Na prática, percebe-se a necessidade de uma compreensão mais global e sistêmica em relação aos ODSs, isto porque ao focarmos em um dos objetivos, suas metas e métricas, poderíamos, no cumprimento de uma das metas, interferir na realização de outro objetivo. Por exemplo, usar energia a partir do recurso solar pode ajudar a atingir metas do ODS 7 que é Energia limpa e acessível. Esse ODS se relaciona diretamente com o ODS 12 – Produção e Consumo Sustentáveis. Se não observarmos a cadeia como um todo, se não tivermos a visão sistêmica da implantação desses objetivos, corre-se o risco de produzir sem considerar o melhor uso dos recursos naturais, o que fazer no pós-consumo, como descartar corretamente os resíduos e como manter a perenidade e evolução desses processos. Desta forma, com este olhar ampliado, ao se definir uma ação para atender a um determinado ODS, pode-se incluir, por meio de uma reflexão de toda a comunidade envolvida, quais são os outros ODSs que serão impactados: se positivamente ou negativamente. Vai depender de como estão sendo feitas as ações.

Uma das ações mais inovadoras propostas pelos ODSs é a da responsabilidade compartilhada, isso porque não determina um ou outro grupo, como responsáveis pelo desenvolvimento e sucesso do projeto, mas todos os atores envolvidos. Essa proposta está vinculada à ideia da governança cooperativa, conceito que surgiu na segunda metade do século XX com a intensificação do processo de globalização, o fortalecimento de grandes conglomerados empresariais e da proposta de interatividade e democratização da informação, alavancada pelo avanço das redes digitais e sociais no final do século XX e início do século XXI.

A governança é responsável pela organização, direção e monitoramento das ações e por garantir um alinhamento entre todos os atores participantes no processo, consequentemente proporciona maior qualidade da gestão. É responsável também por avaliar e determinar metas e objetivos, monitorar o desempenho e o desenvolvimento das atividades de acordo com os objetivos estabelecidos. Tem por base a transparência nas informações e ações realizadas, a equidade entre os atores, a prestação de contas à sociedade e as outras instâncias de poder, e por fim, a responsabilidade corporativa. Nada fica centralizada em uma só pessoa e/ou organização, as responsabilidades são divididas, o que propicia a execução de um projeto mais completo e com a cobertura de todas as possibilidades, uma vez que a união de gestores diferentes, com visões distintas a respeito de algo oferece uma visão ainda mais ampla e completa a respeito do trabalho, projeto ou tema em questão.

A ideia de que o trabalho cooperativo é mais vantajoso para todos tem sua origem na teoria dos jogos e no teorema do equilíbrio do matemático John Nash, vencedor do prêmio Nobel de Economia em 1994 por esse trabalho. Segundo a teoria de Nash a estratégia conjunta leva ao sucesso. Em um projeto que nasceu da cooperação de toda a sociedade, a governança cooperativa é efetivamente a melhor estratégia para a organização e realização das ações, pois essas devem ser conjuntas e retratar a estrutura sistêmica dos ODSs.

É responsabilidade da Governança verificar os indicadores de eficiência das ações de implementação dos ODSs, indicadores que possibilitam a avaliação da evolução das políticas públicas adotadas em todas as dimensões, ou seja, regionais, nacionais e mundiais. Segundo a ONU, são esses dados que poderão garantir que “ninguém seja deixado para trás”, como preconiza o lema dos ODSs. Sendo assim, é necessário que eles sejam totalmente acessíveis, confiáveis e constantemente atualizados. A ONU, desde 2015, se empenha na discussão e construção de indicadores que sejam globais e possíveis de serem utilizados por todos os países participantes. Importante ressaltar que a governança compartilhada em nenhum momento reduz a responsabilidade de criação de políticas públicas para a implementação dos ODSs, isto significa que são os governos que devem tomar essa iniciativa e criar condições para que, em conjunto com a iniciativa privada, o Terceiro Setor e a sociedade, os objetivos e suas metas sejam alcançados.

A Agenda 2030 estabelece que além dos indicadores propostos pela ONU os países membros desenvolvam os seus, de acordo com suas condições. Seguindo essa recomendação foi criada em 2016 a Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável no Brasil cuja função é fazer a governança em nível nacional e é formada por representantes do poder público em nível federal, estadual e municipal, empresas do setor privado e associações, organizações do Terceiro Setor e universidades. Esse processo está sendo desenvolvido em conjunto e é contínuo.

Ao observarmos as iniciativas em vários países e ao analisarmos o processo de implementação dos ODSs no Brasil, percebe-se que todo esse esforço conjunto ainda não apresenta resultados significativos. Dos 17 ODSs conseguiremos nesse ritmo atual totalizar as ações referentes à energia e ao sistema de parcerias. Certeza de que podemos fazer melhor do que isso! Os ODSs são interligados, integrados e correlacionados, sendo assim devemos trabalhar nesse sentido, devemos unir esforços, trabalhar em conjunto e compartilhar responsabilidades. O “meu” tem que dar lugar “ao nosso”, as “ações isoladas” tem que dar lugar “trabalho em equipe, para um bem maior”, o “fazer sozinho, no meu pedaço” tem que dar lugar ao “diálogo”, esse com certeza é o caminho para que possamos estar alinhados aos países mais desenvolvidos e ter resultados positivos em todos os ODSs.

 

* Clarice M O Kobayashi é engenheira Elétrica, EPUSP; EMBA, BSP; membro de board de empresas, sócia diretora da CK Counseling & Knowledge; fundadora e diretora do Instituto Prospectiva – INSPRO – com atuação em Planejamento de Longo Prazo; membro do CONECTICIDADE da PRO Poli USP; membro do CRA SP nos grupos TST, GENE, GPG e participa da CEC Comissão de Engajamento e Comunicação da Rede do Pacto Global.

* Neuseli Martins Costa é especialista em Redes Digitais, Terceiro Setor e Sustentabilidade pela ECA USP, Mestre em Educação, Artes e História da Cultura pelo Mackenzie, formação em Lideranças para a Nova Economia pela Sorbonne, Paris e consultora pedagógica da UNESCO.

 

[1] Sachs, J., Schmidt-Traub, G., Kroll, C., Lafortune, G., Fuller, G. (2019): Sustainable Development Report 2019. New York: Bertelsmann Stiftung and Sustainable Development Solutions Network (SDSN).