Giovanna Chencci

Jackson Katz

Jackson Katz

Crescemos acreditando que a violência contra as mulheres é um assunto tratado e combatido pelas próprias mulheres. Os homens, autores da maioria dos crimes, pouco entram em evidência nessa luta para combater uma realidade que mata milhares de mulheres por ano. No entanto, Jackson Katz, PhD em Estudos Culturais e Educação pela UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), propõe enxergar essa questão por um outro viés, isto é, dar essa tarefa ao seu verdadeiro dono: o homem.

Katz, de 56 anos, é um dos militantes mais ativos na luta contra a violência de gênero. Sua palestra no TED de 2013, disponível no YouTube, tem mais de 1 milhão de visualizações. Publicou dois livros sobre o tema, The Macho Paradox: Why Some Men Hurt Women and How All Men Can Help (2006) e Man Enough? Donald Trump, Hillary Clinton, and the Politics of Presidential Masculinity Paperback (2016). Em novembro de 2015, veio ao Brasil, quando participou do 3º Fórum Fale sem Medo, organizado pela Avon. É ainda cofundador do Mentors in Violence Prevention (MVP), programa desenvolvido na Universidade de Northeastern que tem por objetivo engajar jovens atletas universitários na causa contra a violência sexual.

Em entrevista à Comunicação Empresarial, Katz conta sobre as responsabilidades do homem no combate à violência contra a mulher e explica como os pais, a sociedade e a própria narrativa podem influenciar na mudança desse paradigma.

 

Comunicação Empresarial: Como o homem pode colaborar na questão da violência contra a mulher? Seria colaborar ou trabalhar ao lado delas?

Jackson Katz: Os homens cometem a grande maioria dos casos de violência contra as mulheres. Por definição, qualquer estratégia que reduza essa violência deve incluir homens. Os homens também continuam sendo os maiores representantes do poder econômico, social, político e religioso no mundo. Soluções duráveis para o problema da violência de gênero só podem ser atingidas nos níveis institucionais, políticos e culturais, onde os homens detêm uma influência desproporcional. Não podemos simplesmente ir atrás de cada homem e menino individualmente e tentar resolver isso. É preciso reorganizar as prioridades e a liderança em uma escala maior. Se os homens em posições de poder e influência realmente acreditam em princípios de justiça social e não violência, é um imperativo moral que eles trabalhem contra o sexismo. Se eles não acreditarem nesses princípios, precisaremos arrumar outros líderes – homens ou mulheres – que trabalharão nessa causa.

 

CE: Como você acha que a educação de pai para filho influencia na erradicação da violência contra a mulher?

Katz: Os pais precisam ajudar suas filhas a desenvolver respeito próprio e intolerância a quaisquer maus tratos. Talvez ainda mais importante seja os pais ensinarem seus filhos que tratar uma mulher ou qualquer outra pessoa de forma desrespeitosa é errado e inaceitável.

 

CE: No seu livro, The Macho Paradox, você diz que violência contra a mulher é assunto de homens. Qual a função das mulheres nesse caso?

Katz: As mulheres de qualquer raça e grupo étnico são e continuam sendo as líderes nessa luta. Mas nós precisamos mudar o paradigma se ainda tivermos a esperança de aumentar dramaticamente o número de homens envolvidos nessa causa. Ao invés de ver a violência de gênero como uma “questão de mulheres” que alguns “bons homens” ajudam, nós precisamos ver isso como uma questão do homem.

 

CE: Considerando seus anos de militância, você acha que essa questão está tendo progresso? Por que o movimento feminista tem se intensificado desde 2014?

Katz: Estamos progredindo, mesmo que ainda tenhamos um longo caminho pela frente. Temos muitos, mas muitos mais homens mesmo, engajados hoje em dia do que nunca tivemos antes. Há sinais de um aumento de interesse nessa questão de igualdade de gênero e prevenção da violência contra as mulheres entre homens em cargos de negócios no mundo inteiro. Essa motivação não é sempre altruísta – é um bom negócio!

Ao mesmo tempo, há várias razões para o aumento do movimento feminista. Um deles é a proliferação das mídias sociais e de outras formas de comunicação. As mulheres mais jovens em particular têm mais voz nesse universo digital do que poucas mulheres de gerações passadas já tiveram. Gerações inteiras de mulheres cresceram na esperança de serem tratadas da mesma forma que os homens – e elas compreensivelmente ficam indignadas quando se defrontam com a realidade de sexismo persistente tanto no plano institucional como pessoal.

 

CE: Se a batalha dos sexos já é complicada, a batalha dos gêneros não fica ainda mais difícil?

Katz: Gênero e sexualidade são características complexas da identidade humana e também da organização social. No século XXI, nós entendemos que gênero é um conceito fluido e não fixado somente em dois eixos. Nós, que trabalhamos para promover a justiça social, estamos tentando ser o que chamamos de “apoiadores da causa dos gêneros” nas nossas estratégias educacionais e nas produções textuais. Mas ser um apoiador não é adotar um gênero neutro. Gênero deve ser uma construção fluida, mas continua sendo muito real.

 

CE: Os homens estão compreendendo a mensagem?

Katz: Acredito que um número crescente de homens no mundo todo está assimilando a igualdade de gênero como um objetivo básico dos séculos XX e XXI, entendendo que a redução e a prevenção da violência de gênero são questões fundamentais de direitos humanos. Claro que existem homens que não querem perder seus privilégios, ou outros que têm um ego muito frágil e, por isso, ficam na defensiva quando se trata desse assunto, ou mesmo negam a dimensão do problema. Assim, continua sendo importante lembrar às pessoas que, em muitos aspectos, homens e meninos também são vítimas de violência de gênero. Por exemplo, o mesmo sistema cultural e de crenças que produz homens que abusam de mulheres também produz homens que abusam de outros homens. Citando um de vários exemplos: o escândalo global dos abusos sexuais cometidos pela Igreja Católica.

 

CE: Como a narrativa do discurso influencia esse comportamento?

Katz: Precisamos usar a voz ativa, não a passiva, quando tratamos de assuntos como abuso sexual e violência doméstica. Em vez de perguntar “Como tantas mulheres são estupradas ou sexualmente abusadas a cada ano no Brasil?”, devemos perguntar “Como tantos homens estupram ou abusam sexualmente de mulheres?”. Usando a voz passiva, nós chamamos a atenção não para os criminosos – que sãos os responsáveis pela violência –, mas para as vítimas.

 

CE: Falando sobre seu último livro Man Enough? Donald Trump, Hillary Clinton and the Politics of Presidential Masculinity, o que as próximas eleições nos Estados Unidos podem nos mostrar sobre a batalha dos sexos?

Katz: Essa eleição presidencial nos Estados Unidos já catalisou mais essa discussão sobre as questões de gênero e poder do que qualquer outro evento político em 100 anos, desde que as mulheres ganharam o direito de votar. No meu livro Man Enough?, eu falo sobre a ideia de todos pensarem que a questão de gênero nessas eleições de 2016 é o fato de Hillary Clinton se tornar a primeira presidente mulher dos Estados Unidos. Mas então Donald Trump se candidatou. O gênero continuou sendo o assunto central, mas dessa vez voltado para o homem. A popularidade de Trump está totalmente interligada com o seu gênero, com a sua performance de um tipo “retrô” e valentão, de uma masculinidade branca que tem sua popularidade vinda de uma grande misoginia que afeta muitos homens brancos (e algumas mulheres!), em vez de avançar nas questões da mulher, imigrantes e outras pessoas de cor. Obviamente, as pessoas têm suas diferenças políticas. Mas milhões de americanos estão extremamente envergonhados por Trump ter chegado tão longe. Isso só mostra que temos que ir ainda mais longe, mesmo em uma das nações mais ricas e supostamente mais bem educadas do mundo.

 

CE: Depois de um homem negro, o que uma mulher na presidência significa, levando em conta a democracia americana?

Katz: O presidente dos Estados Unidos ocupa uma posição simbólica extremamente significativa na nossa sociedade. Vamos deixar de lado as diferenças que as pessoas possam ter em relação às políticas de Clinton. Se Hilary Clinton for eleita, será um grande passo na questão da igualdade de gênero e da justiça, e eu espero que isso encoraje outras mulheres a se envolver na política em todos os níveis. A nossa sociedade e o restante do mundo precisam desesperadamente de mulheres na liderança nas esferas públicas e privadas, em especial as que estão envolvidas em questões de gênero, de raça e quaisquer outras relacionadas à justiça social.

 

CE: Como você analisa o estupro coletivo de uma menina de 16 anos que aconteceu no Rio de Janeiro em março de 2016?

Katz: Esse caso foi chocante e trágico. Se é possível emanar um pouco de esperança desse evento perturbador, é que ele irá forçar as pessoas – especialmente os homens – a confrontar a gravidade da situação da violência sexual no Brasil e no restante do mundo. Nós precisamos conversar aberta e honestamente sobre como nós estamos socializando os meninos no Brasil (e em todos os lugares). Esse caso torna claro que o estupro não é um problema individual. Ele se alinha a certas ideias prejudiciais sobre o que é ser homem. Precisamos falar sobre a pressão que os jovens sentem para provar a sua masculinidade para outros jovens – no caso do Rio, a partir da degradação de uma garota. Por último, precisamos falar sobre a responsabilidade dos homens adultos na questão. É claro que os pais precisam desempenhar um papel fundamental. Mas, infelizmente, muitos meninos e jovens não têm pais. Nós também precisamos engajar os líderes homens da educação, da política, dos negócios, dos esportes e da religião. O que esse triste caso demonstra é que nós precisamos de um aumento drástico no número de homens que se envolvem na promoção da igualdade de gênero e que possam falar sobre a violência dos homens contra as mulheres.

Jackson Katz no Fórum Fale sem Medo, organizado pela Avon

Jackson Katz no Fórum Fale sem Medo, organizado pela Avon

 

Coisas que o homem pode fazer para evitar a violência de gênero

  1. Abordar a violência de gênero como um problema dos HOMENS, envolvendo homens de todas as idades e contextos socioeconômicos, étnicos e raciais. Encará-los não apenas como autores ou possíveis criminosos, mas como espectadores que podem ajudar a enfrentar abusadores.
  2. Se um irmão, um amigo ou um colega de equipe estiver abusando de sua parceira – ou for desrespeitoso com meninas e mulheres em geral – não finja que não está vendo. Caso você se sinta confortável, tente falar com ele sobre essa atitude. Incentive-o a procurar ajuda. Se não souber o que fazer, consulte um amigo, um responsável, um professor ou um conselheiro. NÃO PERMANEÇA EM SILÊNCIO.
  3. Tenha coragem de olhar internamente. Questione suas próprias atitudes. Não fique na defensiva quando algo que você faz ou diz acaba ferindo alguém. Tente entender como suas próprias atitudes e ações podem inadvertidamente perpetuar o sexismo e a violência, e tente mudar isso.
  4. Caso você suspeite que uma mulher próxima de você está sendo abusada ou que tenha sido vítima de violência sexual, pergunte gentilmente se você pode ajudar.
  5. Caso você seja abusado de forma emocional, psicológica, física ou sexual por mulheres, ou caso tenha sido no passado, procure ajuda profissional AGORA.
  6. Seja um aliado das mulheres que estão tentando acabar com todas as formas de violência de gênero. Apoie o trabalho das mulheres que estão militando.
  7. Reconheça e fale contra a homofobia e a perseguição aos gays. A discriminação e violência contra as pessoas LGBT são erradas por si só. Esse abuso também tem ligações diretas com o sexismo e muitas vezes é questionado, uma estratégia consciente ou inconsciente destinada a fazer os homens ficarem quietos. Esta é uma das principais razões pelas quais poucos o fazem.
  8. Participe de programas, faça cursos, assista a filmes e leia artigos e livros sobre as masculinidades multiculturais, a desigualdade de gênero e as causas profundas da violência de gênero. Aprenda e eduque os demais sobre como forças sociais maiores afetam os conflitos entre homens e mulheres individuais.
  9. Não apoie o sexismo. Recuse o consumo de qualquer revista, vídeo, sites ou músicas que retratem meninas ou mulheres de uma forma sexualmente degradante ou abusiva. Fale sobre o ciber-sexismo e os ataques misóginos contra as mulheres em redes sociais como Facebook, Twitter e Tumblr. Proteste contra o sexismo nos meios de comunicação novos e antigos.
  10. Oriente e ensine os jovens sobre como ser homem de uma maneira que não envolva a degradação ou o abuso de meninas e mulheres (ou homens). Se ofereça para trabalhar com programas de prevenção de violência de gênero, incluindo programas de homens antissexistas. Lidere e seja o exemplo.

Este cartaz (adaptado) foi produzido pela MVP Strategies, uma organização de educação para a prevenção da violência de gênero e treinamento: www.mvpstrategies.net