Revezamento da Tocha Olimpica para os Jogos Rio 2016

Giovanna Chencci

 

Após percorrer 300 cidades e passar por 12 mil mãos ao longo de 20 mil quilômetros, a Tocha Olímpica Rio 2016 chega à cidade do Rio de Janeiro em 5 de agosto de 2016. A ocasião marca o início dos Jogos Olímpicos. O revezamento da Tocha como conhecemos hoje nasceu na Grécia Antiga, onde mensageiros anunciavam a chegada dos Jogos na cidade de Olímpia. Além de convidarem a população para acompanhar o grande evento que estava por vir, os mensageiros clamavam pela “trégua olímpica”, que simbolizava a pausa em todas as guerras que estavam acontecendo. A medida garantia a segurança de todos durante os Jogos.

O fogo tinha para os gregos um caráter divino. Por isso, eles mantinham as chamas acesas diante dos principais templos, onde ocorriam as competições esportivas durante os Jogos. Na Era Moderna, o símbolo foi reintegrado ao evento na Olimpíada de 1928, em Amsterdã. Nesta edição, somente uma pira de fogo foi acesa em uma das arenas esportivas, e o revezamento, como na Antiguidade, passou a fazer parte a partir de 1948, em Londres.

Atualmente, o propósito do revezamento da Tocha Olímpica vai além de convidar as pessoas às competições. Serve também para engajar o país sede no “espírito olímpico”, trazendo toda a energia positiva envolvida no evento. “O revezamento da Tocha vem com uma missão: avisar que os Jogos estão chegando e preparar os atletas para as competições”, afirma Adriana Garcia, diretora de Comunicações do Comitê Rio 2016.

Adriana Garcia, do Comitê Rio 2016

Adriana Garcia, do Comitê Rio 2016

Além da missão de anunciar um evento tradicional e de tamanha complexidade – sem perder a sua simbologia –, Garcia explica que o fogo é um símbolo perene, que não perde o significado, fato evidenciado na grande audiência que o revezamento está tendo por onde passa. Segundo Adriana, o que muda de uma edição para a outra é o tipo de narrativa que envolve as pessoas que conduzem a Tocha Olímpica até o seu destino final: a cidade sede. “Há uma preocupação em representar todas as camadas da sociedade, todas as idades, todos os gêneros, já que temos um compromisso grande com a diversidade no Movimento Olímpico”, diz Garcia.

Essa saga, recontada em cada cidade que recebe os Jogos Olímpicos, é o que caracteriza cada uma das edições, já que ressalta os pontos mais fortes do anfitrião, convidando todos para acompanhar os Jogos. Carina Almeida, presidente da Textual, a agência corporativa oficial do Comitê Organizador, afirma que “a narrativa do revezamento da Tocha que desenvolvemos é exatamente isso: uma jornada para valorizar o melhor dos brasileiros, de gente que faz a diferença em todos os segmentos”.

Com vasta experiência na área – ela atuou nas últimas cinco edições dos Jogos Olímpicos e nas últimas cinco edições da Copa do Mundo de Futebol –, Almeida compara a comunicação realizada no revezamento da Tocha Olímpica com a comunicação corporativa, já que é preciso trabalhar no engajamento do público, no relacionamento, na produção de conteúdo e na gestão de crise.

“A gente trabalha como uma grande agência de conteúdo, mas também no relacionamento com os influenciadores e com a imprensa, além do gerenciamento de crise. No final do dia, a gente está produzindo a pauta do dia seguinte”, afirma Almeida. “É o espírito intenso do esporte, que envolve disciplina, paixão e foco.”

Carina Almeida, da Agência Textual

Carina Almeida, da Agência Textual

A dinâmica das equipes de comunicação do revezamento da Tocha Olímpica é bem intensa durante os 100 dias. Ao chegar ao Brasil, toda uma equipe é montada para acompanhar cada passo dos milhares de corredores. Enquanto um grupo segue com o comboio produzindo conteúdo para abastecer todos os canais digitais criados pelo Comitê Organizador Rio 2016, um outro grupo fica em contato com as prefeituras das próximas cidades que receberão o fogo Olímpico, definindo os últimos detalhes de engajamento do público, com o objetivo de envolver cada vez mais pessoas com o esporte e com os Jogos que virão.

 

Histórias

A partir de uma ação de engajamento e cobertura dos acontecimentos, surgem fatos inéditos e que marcam o revezamento da Tocha em solo brasileiro como um acontecimento único no mundo do esporte olímpico. Garcia conta que o revezamento, nos dias atuais, não é capaz de impedir todas as guerras do mundo, como a trégua olímpica na Grécia fazia. Como alternativa, o Comitê desenvolveu uma campanha junto com a ONU para trazer à tona uma mensagem de inclusão e diversidade. “Nesta edição, o tema de trégua olímpica é proteção à infância”, diz.

O adolescente Breno dos Santos Ferreira da comunidade Pataxó, em Porto Seguro, representou as crianças e a Unicef

O adolescente Breno dos Santos Ferreira da comunidade Pataxó, em Porto Seguro, representou as crianças e a Unicef

A professora Bianka Lins, a primeira transexual a participar do revezamento da tocha

A professora Bianka Lins, a primeira transexual a participar do revezamento da tocha

Como símbolos dessa temática, foram convidadas personagens características para compor o revezamento, como a menina refugiada síria, Hanan Khaled Daqqah, que conduziu a Tocha no primeiro dia, em Brasília; a professora de português Bianka Lins, que foi a primeira transexual a participar do revezamento da Tocha Rio 2016; o adolescente Breno dos Santos Ferreira, da comunidade Pataxó, de Porto Seguro, representando as crianças e a Unicef; e o velejador João José Bracony, de 97 anos, que participou dos Jogos de Londres, em 1948, e foi homenageado com a visita da Tocha Olímpica Rio 2016 em sua casa, em Vila Velha, Espírito Santo.

A menina refugiada síria Hanan Khaled Daqqah conduziu a tocha no primeiro dia em Brasília

A menina refugiada síria Hanan Khaled Daqqah conduziu a tocha no primeiro dia em Brasília

O velejador João José Bracony, de 97 anos que participou dos Jogos de Londres, em 1948, e foi homenageado com a visita da Tocha Olímpica

O velejador João José Bracony, de 97 anos que participou dos Jogos de Londres, em 1948, e foi homenageado com a visita da Tocha Olímpica

No entanto, histórias negativas também fizeram parte da corrida. Em junho, em Manaus, a onça Juma, que acompanhava o revezamento, foi morta por militares quando fugiu de sua jaula. Medidas estão sendo tomadas para esclarecer o que aconteceu, enquanto ativistas protestam contra a morte do animal. Em maio, outra situação também gerou grande repercussão. João Paulo Nascimento, jogador paralímpico de basquete, se desequilibrou de sua cadeira de rodas enquanto carregava a Tocha, em Anápolis, Goiás. Quando caiu, apoiou a perna no chão para evitar uma queda mais grave. Muitas pessoas começaram a falar, sobretudo nas redes sociais, sobre a fraude de um atleta paralímpico conseguir andar mesmo usando cadeira de rodas. Para acabar com as dúvidas sobre o ocorrido, Nascimento explicou via redes sociais o que aconteceu: na verdade, ele não é tetraplégico, mas sofre da doença do joelho em “X”, o que o torna de fato um cadeirante e um paratleta.

Para lidar com os problemas e as variáveis no enredo, um dos pontos fortes da comunicação do revezamento é o diálogo. “Vemos comunicações mais impositivas, ao contrário do que nós estamos tentando fazer, que é trazer uma relação de troca, principalmente para gerenciar determinadas situações”, diz Almeida.

O uso de celulares como forma de propagação das informações é uma maneira de se comunicar com as pessoas e contar essas histórias marcantes para todo mundo. Almeida explica que “existe uma equipe toda multimídia, usando o celular, mas ainda tem o conteúdo, feito em alta qualidade, que vai para a imprensa”. Ela destaca que o que é feito pelo celular normalmente vai para as redes sociais.

Devido à velocidade em que as informações são divulgadas atualmente, livrar-se das redes sociais acaba se tornando impossível. Por isso, o Comitê criou para o revezamento da Tocha Olímpica plataformas que vão além de salas de imprensa e hotsites, como uma página no Facebook, uma conta no Twitter, no Instagram e no Snapchat.