Jorge Soto*

Nas indústrias químicas, até para que os produtos se tornem viáveis financeiramente, sempre foi preciso haver aproveitamento total dos materiais. Eles sempre devem ter um destino apropriado e produtivo, o que é bastante sustentável. Por outro lado, por causa das fábricas poluidoras, essas indústrias normalmente também tinham uma imagem ruim perante a sociedade. Era preciso mudar isso. As pessoas deviam compreender a utilidade das indústrias químicas, e as empresas precisavam melhorar seus processos.

A evolução dos temas de sustentabilidade nas indústrias químicas avançou mais rapidamente a partir da década de 1980. Em 1984, mais de 3 mil pessoas morreram na explosão de uma fábrica na Índia, talvez o maior acidente industrial de todos os tempos. Por isso, o assunto mais discutido naquele momento foi a segurança das instalações e dos processos produtivos. Essa preocupação melhorou a situação de controle das substâncias tanto para quem trabalha nas fábricas quanto para quem circula pelo entorno, diminuiu a contaminação dos afluentes, a poluição causada pela queima de resíduos e a utilização de produtos contaminantes. A questão ambiental acabou sendo uma consequência natural dessas ações. Em 2009, por exemplo, a Braskem montou sua diretoria de desenvolvimento sustentável. Foi uma evolução dessa ideia de como conduzir de maneira responsável uma indústria que traz benefícios efetivos para as pessoas.

Com o tempo, alguns impactos sobre o meio ambiente começaram a ser percebidos de maneira científica, como é o caso das mudanças climáticas. Além das questões de segurança e da mitigação dos impactos mais próximos, tornou-se necessário pensar em estratégias relacionadas ao clima, ter um olhar de longo prazo. O problema, porém, é que o setor industrial se alimenta de gás e petróleo ‒ o mundo se move usando combustíveis fósseis, e muitos países os utilizam para gerar energia. A sociedade não vai deixar, de repente, de depender de produtos fósseis.

Por isso, essa mudança não acontecerá com uma iniciativa pequena; ela precisa fazer parte de uma estratégia geral. É preciso criar processos totalmente alternativos. Sair da fonte de matéria-prima fóssil para a renovável. Isso não se faz de um dia para o outro. Quando a Braskem lançou o polietileno verde, em 2010, ficou famosa no mundo todo. Não foi um movimento trivial; foi estratégico. E não são todas as empresas que têm esse olhar para o futuro. Muitas ainda ficam presas nos processos do dia a dia.

O impacto das mudanças climáticas mudou a relação das empresas com esse pilar ambiental. Boa parte delas passou a olhar para a sustentabilidade não apenas como uma licença para operar, ou seja, sobrevivência, fazer o que a lei pede, mas também como uma maneira de diferenciar seu negócio: “Como eu posso entregar produtos novos e melhores para uma sociedade que quer, e vai querer cada vez mais, algo muito diferente do que temos hoje?” A sustentabilidade impulsionou esse pensamento estratégico.

Antes, as empresas tinham metas para quatro, cinco anos no máximo. Hoje, na Braskem, algumas estão estabelecidas para 2040. As decisões de investimento sempre são baseadas no risco. Isso está acontecendo pelo lado positivo, da sustentabilidade, e não como uma reação ao controle legal ou à pressão da sociedade, mas ao fomentar a ideia de que é possível entregar para a sociedade algo diferente e, em função disso, vender mais, ser melhor percebido, ser vista como uma empresa diferenciada. Isso é ter uma visão estratégica.

A Braskem deu um passo assim no início da década de 2000, quando decidiu investir em uma linha de produtos com origem em renováveis. Agora, esses produtos podem ser uma solução real para as mudanças climáticas porque retiram CO2 da atmosfera. Esse movimento acabou por colocar a empresa frente a frente com o desafio de integrar as dimensões sociais e ambientais à dimensão econômica em todas as suas decisões, e não apenas na questão dos renováveis. Hoje, temos dez temas com metas concretas de longo prazo, ações que buscam diferenciar a empresa justamente com essa lógica de melhorar o negócio por meio da sustentabilidade. Os três assuntos principais são mudanças climáticas, que envolvem renováveis; água, porque sua falta pode trazer um risco relevante para os nossos negócios; e o pós-consumo dos plásticos, o que acontece com os resíduos, um tema hoje muito abordado, mas com o qual já lidamos desde 2009. Essa forma de pensar acabou se transformando em um negócio. A verdade é que, se você não incluir o pilar econômico, a sua sustentabilidade fica manca.

A Braskem já nasceu com o compromisso público de atuar de acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável. Porém, os problemas do desenvolvimento não vão ser resolvidos por uma empresa, um governo, uma ONG ou uma ação única. E a comunicação é muito relevante nesse processo. Precisa ser clara e transparente, pois, ao entender o que uma empresa pensa e o que pretende nesse sentido, outras podem se identificar e se unir a esse movimento. Só que as decisões estratégicas têm de ser consistentes com esse compromisso, não podem ser apenas verbais. Também é preciso engajar clientes, fornecedores e outras partes interessadas e apoiar as iniciativas nesses aspectos, fazendo parte de organizações empresariais e instituições como o Pacto Global, para incentivar outros setores.

Algumas empresas não entenderam a dimensão da sustentabilidade e fazem apenas o que é necessário para seguir a lei, mas existem aquelas que estão convencidas de que isso é relevante para seu negócio. Certos fundos de investimentos já estão afirmando que não vão mais trabalhar com empresas que tenham alto impacto ambiental. O impulso da precificação do carbono pode ajudar, já que vai induzir economicamente um movimento da indústria e fazer com que as empresas reduzam suas emissões ou desenvolvam produtos que capturem CO2. Entretanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

A sustentabilidade também se tornou uma questão geopolítica. Espera-se sempre que os governos deem um sinal claro de que ela é relevante para o modelo de desenvolvimento do país. Assim que os Estados Unidos recuaram no assunto, a China avançou. O Brasil perderá se não assumir um papel de liderança porque tem ativos ambientais muito importantes, como água, solo e grande produtividade de biomassa. O valor agregado é imenso nos produtos de origem agrícola e nos químicos de origem renovável. Existe uma cadeia enorme de produtos com grande potencial, e desconsiderar isso é pouco inteligente. Se o país não aproveitar essas oportunidades para crescer de maneira estratégica, será um desperdício do ponto de vista econômico, social e ambiental.

 

*Jorge Soto é diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem