Tato Carbonaro

Prita - Entrevista (1)

Prita Kemal Gani, criadora e atual presidente da Asean Public Relations Network

Para entender o mundo da comunicação corporativa no Sudeste Asiático é preciso conhecer Prita Kemal Gani – ou Ibu Prita, como é conhecida na região. “Ibu”, em indonésio, quer dizer “mãe” e é uma referência clara ao papel desenvolvido por ela no campo da comunicação ao longo de seus quase 35 anos de carreira.

Criadora e atual presidente da Asean Public Relations Network, a mais importante associação de comunicação do Sudeste Asiático, Prita é também diretora e fundadora da respeitada London School of Public Relations de Jacarta, na Indonésia, e foi a primeira mulher a liderar a PERHUMAS – Public Relations Association of Indonesia (Associação Indonésia de Relações Públicas). Em 2015, recebeu o prêmio de Mulher Empreendedora da Ásia-Pacífico da Ernst & Young, mesmo ano em que foi eleita para o conselho da Global Alliance for Public Relations and Communication Management, federação internacional de associações e instituições de comunicação.

Prita Kemal Gani é unanimidade entre os comunicadores da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), formada por Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Mianmar, Camboja, Laos e Vietnã. A associação, assim como a Aberje, completa 50 anos em 2017. Além de sua pujança econômica, com um crescimento médio do PIB de 5% desde 2010, a região tem uma população que ultrapassa 600 milhões de pessoas, uma grande diversidade cultural e linguística e está em uma posição estratégica: próxima à China, Índia, Japão e Austrália, o que tem atraído investimento estrangeiro, principalmente após a crise econômica de 2008. “A comunicação corporativa vive um bom momento na Ásia, pois muitas empresas internacionais trouxeram seus negócios e abriram empreendimentos por aqui, sobretudo nos países que compõem a Asean”, afirma Prita.

O desenvolvimento do bloco também tem atraído a atenção dos empresários brasileiros. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o intercâmbio comercial do país com as nações da Asean em 2016 foi de aproximadamente 16,5 bilhões de dólares (55 bilhões de reais), o equivalente a 5% de todo o comércio realizado pelo Brasil naquele ano. Grandes empresas nacionais, como BRF, Vale e Marcopolo, estão aumentando sua presença na região, com a abertura de escritórios regionais e o estabelecimento de parcerias para entrar nesse mercado.

A Comunicação Empresarial entrevistou Prita Kemal Gani em outubro, durante a I Asean Public Relations Conference, organizada em Bali, na Indonésia, pela Asean Public Relations Network e pela Global Alliance for Public Relations and Communication Management. Confira a nossa conversa sobre comunicação, relações públicas, cultura, o crescimento do Sudeste Asiático e a projeção para o futuro da Asean.

Prita - Entrevista

Qual é a sua definição de relações públicas?

Para mim, relações públicas é uma comunicação de mão dupla entre a organização e seus públicos. Assim, um relações-públicas deve ser capaz de transmitir a informação da organização, adaptando a mensagem e a informação para suas diferentes audiências. Isso é relações públicas, e, por isso, acredito muito na educação para a comunicação. Quem é graduado em Comunicação aprende sobre estratégias, planejamento, relações públicas e ética, habilidades necessárias para um bom desempenho na profissão.

Você acha que sua visão é muito diferente do conceito ocidental de comunicação corporativa?

A grande diferença entre o que fazemos aqui em comunicação e o conceito ocidental é que temos um foco maior em aspectos culturais da comunicação, relacionados a família, cultura, diversidade e gênero, por exemplo. As questões de comunicação da Asean são tratadas e trabalhadas de uma forma mais holística, dando a informação como um todo. Em países ocidentais, geralmente a comunicação é mais focada em fatos, que devem necessariamente ter provas e evidências. Ela é mais voltada para resultados e baseada em performance.

É possível falar de uma comunicação comum para a Asean, já que o bloco é formado por dez países muito diferentes entre si?

Apesar de termos uma grande diversidade de idiomas e culturas, somos muito parecidos em vários aspectos, sobretudo nas atitudes, valores e crenças, o que faz com que cada um possa contribuir de forma diferente. Com todas essas similaridades, é fácil que possamos aprender uns com os outros, compartilhar uns com os outros e trabalhar juntos, em harmonia. Ainda temos muito que aprender em comunicação e relações públicas com os países do ocidente, mas lentamente começamos a trabalhar uma comunicação intercultural, tentando a integração por meio das artes, cultura, culinária, performances, turismo, patrimônio e crenças da região.

Dentro do desafio de unir culturas tão diversas, apesar das similaridades, como vocês têm trabalhado a ideia de uma marca regional para o bloco sem desprezar as narrativas de cada um dos países que formam a Asean?

Acho que, se podemos falar de uma “marca Asean”, eu diria que ela é uma mistura das qualidades e características de todos os países que formam o bloco. Seria a marca que reúne as marcas de todos os países em um mesmo lugar. As pessoas na Indonésia, por exemplo, são conhecidas por sua tolerância, compreensão e criatividade; enquanto os cidadãos de Singapura o são por sua eficiência; os filipinos são agradáveis, calorosos, criativos, comprometidos e sinceros. Se somarmos tudo isso com as qualidades das pessoas da Tailândia, Vietnã, Camboja, Mianmar e Brunei, teremos características muito competitivas. Mas, como também compartilhamos tantas outras coisas, podemos trabalhar juntos, e o resultado é incrível! É por isso que a Asean está cada vez mais conhecida e todos se sentem atraídos pela região e por suas pessoas.

Muitos países do Sudeste Asiático possuem governos fortes e bastante presentes na economia. Isso faz com que as relações entre setor público e setor privado sejam cruciais para o bom andamento dos negócios na região. Como a comunicação se insere nesse mundo das relações governamentais na Asean?

Aqui na Asean, o profissional que cuida das relações com o governo tem função primordial para a organização. Eles devem comunicar e interpretar as regulamentações governamentais, como os governos planejam suas regras etc. O papel de um relações-governamentais nas organizações é manter a empresa informada para que seu planejamento estratégico esteja alinhado com as estratégias do governo. Eles são responsáveis por certificar que a companhia seja correta e siga as regulamentações e diretrizes, que não haja violações e oposições às políticas governamentais. Eles também agem como lobistas perante o governo, para planejamento e estratégia. Claro que ele deve estar comprometido com o bem do coletivo, e não somente com o da empresa. Se ele pensar somente na empresa, certamente caminhará para o suborno, e isso é proibido.

Olhando para o futuro, podemos ver que a Ásia ocupa um espaço cada vez maior no mundo dos negócios. A comunicação corporativa cresce no mesmo ritmo?

A comunicação corporativa é praticada regularmente e tem se tornado obrigatória para as empresas. Isso tanto na comunicação interna como na externa, à qual deveríamos dar importância equivalente em nossas organizações. A comunicação corporativa vive um bom momento na Ásia porque muitas companhias internacionais trouxeram seus negócios e abriram empreendimentos por aqui, sobretudo na Asean. Entretanto, eu não acredito em uma “comunicação asiática” predominando no mundo. Acho que a comunicação será certamente mais balanceada, mas devemos conhecer primeiro as culturas locais para depois seguirmos determinados estágios e processos em comunicação. Claro que não podemos usar o approach ocidental para ganhar o coração das pessoas na Asean, mas nós também estamos cada vez mais adaptáveis à cultura comunicacional do ocidente, já que muitas pessoas da região vão estudar em países ocidentais.

Vocês possuem um vizinho que tem mudado as perspectivas políticas e econômicas globais, com diversos desafios e oportunidades para o bloco. Que papel a China tem desempenhado na região?

A China se aproximou da Asean inspirada pelo Japão e usando a mesma estratégia que os japoneses usaram anos atrás: ajudando outros países economicamente e lentamente introduzindo a “civilização chinesa” por aqui. Hoje a China tem um papel fundamental na região, com diversas missões em conjunto com os governos. Basicamente, somos amigos dos chineses.

Com toda a sua experiência em comunicação e cultura na Ásia e na Asean, como você vê o futuro da comunicação corporativa em um mundo ameaçado pelas fake news?

Vivemos hoje a era digital, e tudo, incluindo as notícias, pode ser espalhado em segundos. É uma obrigação para todas as organizações ter uma equipe de comunicação preparada para produzir informação precisa, confiável e atualizada sobre a instituição ou a empresa que representam. Assim, quando algum tipo de informação falsa ou qualquer outra questão enganosa surgir, isso possa ser instantânea e propriamente solucionado, fazendo com que as pessoas tenham a informação correta na mesma velocidade em que obtiveram a informação negativa. Não dá mais para imaginar uma organização sem um departamento de comunicação para lidar com esse tipo de problema. Por isso eu acredito tanto na formação em comunicação.

Que conselho você daria aos novos comunicadores?

Acho também que já é hora de aprendermos mais uns com os outros. Todas as culturas são boas e interessantes, mas temos de entender que a liderança da comunicação deve estar com um profissional que atue com ética e boas maneiras, especialmente quando está lidando com questões negativas, como infâmia, difamação ou escândalos. Por isso acredito que os professores deveriam ensinar os estudantes a ser profissionais decentes nas escolas de comunicação.