Paulo Noviello

Por sua localização estratégica, entre o Porto de Santos e a capital paulista, Cubatão, cidade da Baixada Santista encravada no sopé da Serra do Mar, tornou-se um dos principais polos industriais do Brasil a partir da década de 1950. Mas a instalação de refinarias, siderúrgicas e indústrias químicas, numa época em que ainda não se tinha noção dos efeitos da poluição na fauna e na flora e na saúde da população, levou a cidade a ser reconhecida pela Organização das Nações Unidas como uma das mais poluídas do mundo nos anos 1980. Tragédias como o incêndio da Vila Socó, causado pela explosão em um duto da Petrobras, em 1984, e o caso das crianças nascidas com anencefalia na Vila Parisi contribuíram para reforçar a triste fama internacional de Cubatão no período.

Foi em meio a esse cenário pessimista que, em 1985, a Carbocloro (hoje Unipar Carbocloro), uma das principais indústrias da região, criou um projeto pioneiro com a intenção de mostrar seu comprometimento com o meio ambiente e com a comunidade de Cubatão: o Programa Fábrica Aberta. A proposta era simples, porém de execução complexa em uma indústria que lida com um elemento químico como o cloro: a fábrica estaria aberta à visitação pública 24 horas por dia, 365 dias por ano. E, desde aquele longínquo 1985, grupos de estudantes, técnicos, profissionais de segurança e sustentabilidade e curiosos são orientados a agendar a visita para ser melhor recebidos pelos monitores, todos funcionários da empresa, tanto efetivos quanto aposentados. No entanto, se alguém chegar à portaria da fábrica a qualquer hora do dia, também pode visitar as instalações. As visitas são gratuitas, duram cerca de 3 horas e podem ser feitas por pessoas maiores de 15 anos. O resultado é que, nos 33 anos de funcionamento, o projeto se revelou um sucesso: foram mais de 100 mil visitantes (uma média de nove por dia) e diversos prêmios.

Mudança de percepção

Para Teodoro Pavão, gerente de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade da Unipar Carbocloro, a preocupação com a segurança e o controle de poluição na empresa precede a implantação do programa e até mesmo a repercussão mundial das tragédias ambientais em Cubatão nos anos 1980. “Na época, tínhamos um acionista americano, e lá a preocupação ambiental começou antes. Aqui, na década de 1970, quando não havia nem lei ambiental no Brasil nem formação na área, a Carbocloro já tinha programas ambientais, mas mesmo assim a imagem da indústria química estava muito pesada”, lembra Pavão. Para o público, a Carbocloro era “uma indústria suja, enferrujada e poluída”. “Percebemos que havia um gap grande entre ser bom e parecer bom. Precisávamos melhorar essa imagem e criamos o Fábrica Aberta”, afirma o gerente. A ideia era que quem visitasse a fábrica espalhasse entre amigos e familiares a informação de que seu interior era limpo e seguro. “Em pouco tempo a percepção mudou: de menos de 50% para mais de 60% dos pesquisados avaliando a Carbocloro como uma indústria não poluente e com a segurança em dia.”

Teodoro Pavão, gerente de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade da Unipar Carbocloro

Pavão afirma que a maior parte do público que visita a fábrica são estudantes – do ensino técnico e superior, em áreas de alguma forma ligadas ao ramo de atuação da Unipar Carbocloro, a alunos do ensino fundamental e médio da Baixada Santista e, em menor número, de outras regiões. “Mas vem gente de todo tipo”, salienta Pavão. “Você pode chegar aqui e conhecer a fábrica, sem agendar, e o funcionário que te recebe não é um profissional de Relações Públicas ou alguém engravatado; é o trabalhador. Imagine que, para fazer isso em 1985, precisávamos de um sistema de segurança muito bom; cloro é um produto perigoso. Só conseguimos porque isso já estava organizado internamente.”

Ciclo virtuoso

Pavão esclarece que o Programa Fábrica Aberta funciona como uma “retroalimentação” para a melhoria contínua de todos os processos de segurança, ambientais e de sustentabilidade da empresa. “É um ciclo virtuoso. A melhoria contínua vem da sociedade, que é cada vez mais crítica”, resume. Sobre o treinamento que os funcionários recebem para atuar como monitores, ele afirma que a empresa não determina sobre o que falar ou não. “A pessoa explica o que faz e como faz.”

Sylvia Tabarin Vieira, assessora de Comunicação Corporativa da Unipar Carbocloro, salienta que a essência do programa não mudou nesses 33 anos. “Até porque a fábrica é a mesma, e a ideia também: mostrar o que fazemos e como fazemos.” Ela lembra que boa parte dos visitantes é da área técnica, portanto sabe que produzir cloro tem seus riscos. “É um produto tóxico. Ter essa disponibilidade de estar apto a receber pessoas 24 horas por dia, 365 dias por ano, é um diferencial da empresa.” Desde 2013 o Fábrica Aberta faz parte do Roteiro Científico e Ambiental indicado para visitação na publicação Circuito Turístico Costa da Mata Atlântica, elaborada pelo Sebrae-SP.

Sylvia Tabarin Vieira, assessora de Comunicação Corporativa da Unipar Carbocloro

A assessora de comunicação enfatiza que a segurança é sempre a preocupação primordial, por isso visitas, agendadas ou não, podem não ser realizadas se houver qualquer ameaça à segurança no momento. “Raramente isso acontece, mas é uma questão de transparência com nossos visitantes, pois nossa indústria tem uma característica diferente.” Ter a fábrica aberta a visitas a todo momento, utilizando os próprios trabalhadores como monitores e oferecendo conhecimento, foi o que fez, segundo ela, o Programa Fábrica Aberta se tornar referência e receber diversos prêmios nessas três décadas de história. Entre eles estão o Prêmio Fiesp de Mérito Ambiental 1995, o Prêmio Eco 2007 (Modalidade Valores, Transparência e Governança, Categoria Práticas de Responsabilidade Social Empresarial) e a medalha de ouro na categoria Ações de Saúde e Segurança do Trabalho Junto à Comunidade do Prêmio Proteção, conferido anualmente pela Revista Proteção, principal publicação segmentada sobre segurança do trabalho do Brasil.

Para Alexandre Eggler Gusmão, diretor de redação da Revista Proteção, o prêmio “destaca um projeto robusto, desenvolvido pela empresa há mais de 30 anos de forma corajosa e que abre suas portas para a comunidade todos os dias”. Segundo Gusmão, o case apresentado sobre o programa demonstra a preocupação da companhia com a responsabilidade social e seu desenvolvimento tem forte impacto junto à comunidade local, pois os visitantes têm acesso a boas práticas de meio ambiente e segurança do trabalho desenvolvidas em seu interior. “A população da região conhecer e entender o funcionamento de uma grande empresa como a Unipar Carbocloro é uma forma muito eficiente de percepção do processo produtivo, o que ajuda a preparar inclusive os moradores para o caso de uma situação emergencial que venha a acontecer no local”, afirma.

A interação da Unipar Carbocloro com a comunidade não se limita ao Fábrica Aberta. Em 2004 foi criado o Conselho Comunitário Consultivo (CCC), formado por porta-vozes da comunidade. O CCC discute temas ligados à saúde, à segurança e ao meio ambiente, e seus conselheiros participam ativamente da criação e do desenvolvimento de projetos sociais da empresa.

Histórias curiosas

A especificidade de ter como princípio inegociável que a fábrica fique aberta à visitação ininterruptamente já gerou situações curiosas. “Não muito tempo atrás tivemos um gerente da produção que era líder de turno, responsável pela fábrica fora do horário administrativo. Um grupo de Goiás havia agendado uma visita, mas calculou errado o tempo de viagem e chegou às 2 da madrugada. O pessoal estava faminto, e o nosso gerente pesquisou um restaurante para eles, que comeram por ali e fizeram a visita”, recorda Sylvia. Pavão lembra outro episódio: “Um senhor aposentado há muitos anos, mas que já tinha sido presidente do conselho da empresa, leu um relatório de sustentabilidade que falava do programa e, como tinha casa no Guarujá, resolveu visitar a fábrica num domingo. Entrou, fez a visita e começou a chorar. O vigilante perguntou para a esposa por que ele estava chorando, e ela respondeu: ‘Ele que fundou isso lá atrás’”.

Pavão puxa ainda da memória que, há alguns anos, durante a reunião anual dos comitês técnicos que emitem os certificados ISO no Brasil, uma comitiva visitou a Unipar Carbocloro. “A reunião não era nem no estado de São Paulo, mas eles tiraram um dia e vieram para cá. Há até uma árvore plantada aqui pelo pessoal. Isso é a maior mostra de que alcançamos reconhecimento, sem necessidade de sair panfletando.”

Para além da preocupação com a segurança, Sylvia acentua que outro diferencial da Unipar Carbocloro é o foco na preservação ambiental. “Desde 1982 temos uma reserva grudada à fábrica. A área ambiental [650 000 metros quadrados] é sete vezes maior do que a área industrial. Somos a primeira e a única indústria química a ter uma reserva desse porte, com outorga para receber animais silvestres.” Ela encerra lembrando outro traço particular do programa: “Abrimos a oportunidade para o funcionário ser um monitor após se aposentar e temos uma grande adesão, pois a pessoa tem carinho pela empresa. Afinal, é um relacionamento de quase uma vida”.