Carina Almeida

 

Tarefa difícil essa minha, falar deste grande fotógrafo que também é meu pai. Mas vamos lá!

Começo pelo lado profissional. A fotografia de Evandro Teixeira ocupou as primeiras páginas do Jornal do Brasil a partir de 1963, iniciando uma longa trajetória que só se encerraria em 2010 e imprimindo uma nova dimensão ao fotojornalismo brasileiro.

São 8 livros publicados, exposições em todo o Brasil e em várias partes do mundo. Suas fotos integram acervos de importantes museus do país e de capitais da América Latina e da Europa. Ele ainda é verbete da Enciclopédia Suíça de Fotografia, que destaca os melhores fotógrafos do século XX. E também recebeu uma das homenagens populares mais tocantes: foi destaque no alto de um carro alegórico no desfile da escola de samba Unidos da Tijuca, do carnaval do Rio de Janeiro (RJ) em 2007, com enredo dedicado à fotografia.

O talento de Evandro Teixeira até ganhou um documentário. Evandro Teixeira: Instantâneos da Realidade traz, em 76 minutos, uma gostosa combinação da sua obra com histórias curiosas, que contam como algumas daquelas imagens foram captadas. Ver a foto e conhecer seu contexto é um ótimo caminho para mergulhar no universo do fotojornalista com alma de artista.

Foto feita na passeata do 100 mil no Rio de Janeiro em 25 de julho de 1968

Foto feita na passeata do 100 mil no Rio de Janeiro em 25 de julho de 1968

Ainda recorro a dois mestres escritores e jornalistas que, por meio de seus textos, desvendaram brilhantemente o que move e alimenta Evandro. Em seu primeiro livro, lançado em 1983, Fotojornalismo, a primeira coletânea de sua obra, Antonio Callado sentenciou: “Evandro tem a obsessão do artista exigente consigo mesmo”. Já Otto Lara Resende traduziu: “Aqui está um estilo. Aqui se vê uma sensibilidade. Porque aqui se encontra ‘um certo modo de ver’, como o do Poeta. Esse modo de ver é singular, porque é próprio de um ser humano, muito humano, chamado Evandro Teixeira”.

Esse é também o meu pai. Foi no exercício da sua fotografia que ele, talvez mesmo sem saber, me ensinou os significados de valores fundamentais que influenciaram, de forma decisiva, a minha vida: a paixão pelo fazer bem-feito, a disciplina, dedicação, ousadia, senso de justiça e generosidade.

Evandro Teixeira em ação

Evandro Teixeira em ação

Desde pequena, inclusive quando tinha a alegria de acompanhá-lo por algumas horas aos plantões de fim de semana no JB, observava o grau de exigência que ele impunha ao seu trabalho. Era muito atento, sempre ligado, insatisfeito até sentir que tinha feito o melhor – e naquele tempo, só se descobria depois do filme revelado… A quantidade de livros de fotografia e revistas especializadas que inundavam as estantes lá de casa me mostravam um profissional sedento por aprender e conhecer o que havia de melhor no mundo.

Cresci, então, folheando as páginas em preto e branco de Cartier Bresson e Robert Capa, entre outros mestres. Quem diria que, muitos anos depois, eles e Evandro estariam reunidos na exposição internacional Momentos Mágicos, promovida pela Leica. Em 2005, estávamos de férias em Nova York e a exposição estava em cartaz na galeria da marca na cidade. Foi curioso ouvir minha filha, Manoela, e minha sobrinha, Carina, na época com menos de 10 anos, comentarem: “Vovô, essas fotos estão naqueles livros lá da sua casa”. Era a história se repetindo…

De observadora, tive o prazer de, já adulta, compartilhar com ele alguns importantes trabalhos, como a edição de três de seus livros pela Textual: Canudos 100 Anos, Neruda: Vou Viver; e 68 destinos: Passeata dos Cem Mil. E aí, senti na pele o grau de exigência dele com todas as etapas do trabalho, a busca pela perfeição, muitas vezes escondida nos pequenos detalhes.

O curioso é que alguns episódios dessa dedicação se tornaram quase folclóricos. Lembro que, para o Vou Viver, ele retornou a Santiago, no Chile, para retratar em cor locais da cidade que haviam sido fotografados em preto e branco por ele durante o golpe militar, em 1973. A ideia era fazer o contraponto das duras cenas da ditadura com as cores da democracia que se consolidava no país.

A viagem precisava ser vapt vupt, porque tínhamos menos de 1 mês para produzir o livro, cujo primeiro exemplar seria entregue ao então presidente chileno Ricardo Lagos pelo prefeito Cesar Maia, durante uma reunião dos países integrantes do Grupo do Rio.

Uma das fotos que ganharia uma “nova versão” era a de uma pomba branca na frente do Palácio La Moneda bombardeado. No primeiro dia em Santiago, o plantão de horas foi infrutífero – nenhuma pomba aparecia na bela praça florida em frente à sede do governo. Evandro cumpria as outras etapas da agenda, mas sempre voltava ao local para tentar o flagrante. E nada! Nossa equipe de edição no Rio decidiu, então, que essas duas fotos não entrariam no livro. Mas Evandro não desistiu. No dia do retorno ao Brasil, ele madrugou na porta do Palácio e depois de duas horas, bingo! Uma revoada de pombas brancas surgiu na frente da sua câmera! Ele quase perdeu o voo, mas assim justificou: “Esta imagem era muito simbólica. Não dava para ficar de fora do livro”.

Passagem de ano no Jardim de Alá (Ipanema Leblon). Rio, 1992

Passagem de ano no Jardim de Alá (Ipanema Leblon). Rio, 1992

Mas a produção do ensaio fotográfico sobre Canudos é ainda mais reveladora do “certo modo de ver” e de ser do Evandro. Quando, infelizmente, um dos mais violentos episódios da recém-criada república andava esquecido, meu pai fazia, por conta própria, viagens periódicas à região, resgatando as histórias de sobreviventes e dos filhos dos seguidores de Antônio Conselheiro. A motivação era quase pessoal: quando criança, ele ouvia as histórias da guerra contada por sua avó. Foram mais de 6 anos registrando um material magistral, que acabou virando livro em 1997 e se tornando um símbolo do centenário da guerra, contribuindo efetivamente para resgatar o debate sobre mais um triste capítulo da história de desigualdade e violência do nosso país.

Ao longo de todo esse período, ele inundou a casa com várias edições de Os Sertões, de Euclides da Cunha, e mergulhou a fundo nesse universo. Descobriu até um grupo de estudiosos sobre o tema na Alemanha.

Mas Canudos também revela a sua generosidade: Evandro estabeleceu uma relação de carinho e amizade singela com os “velhinhos de Canudos”, e continuou voltando lá várias vezes para visitá-los e até para entregar os óculos de grau que mandou fazer para um deles, o seu João de Regis. Esse também é o Evandro!

Eu só não consegui aprender a fotografar, porque essa parte do DNA ficou com a minha irmã Adryana. Mas tudo o que eu aprendi com o meu pai fotógrafo foi e é decisivo na condução da minha vida pessoal e profissional. Por tudo isso, obrigada, Evandro!

 

Carina Almeida é jornalista e economista, CEO da Textual Comunicação, e ganhadora de 26 edições do Prêmio Aberje