Nara Almeida

 

A adaptação ao meio é uma vantagem competitiva essencial em tempos de crise. O biólogo inglês Charles Darwin dizia que a vantagem não é necessariamente a do mais forte, mas daquele que melhor se adapta ao meio. Esse pensamento inspira equipes em suas estratégias de inovação, resiliência e até gestão de crises. Contudo, em alguns casos, há vantagens em não se adaptar.

É essa a provocação feita pela escritora e estrategista de inovação Alexa Clay. A norte-americana é coautora do livro A economia dos desajustados: alternativas informais para um mundo em crise (Figurati), produto de um estudo de mais de 5 mil casos de pessoas vistas como marginais, que resultaram em 30 casos de como elas podem trazer inovação e quebrar paradigmas. São piratas, hackers, gângsteres e outros desajustados, que questionam o mundo como lhes é apresentado e desenvolvem soluções para desafios que negócios tradicionais não conseguem desenvolver.

A autora americana Alexa Clay

A autora americana Alexa Clay

As lições que os “bad boys” podem ensinar aos executivos podem parecer uma temática hollywoodiana, mas o Índice de Economia Subterrânea (IES), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), em conjunto com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBRE), mostra que o chamado mercado informal movimentou R$ 932 bilhões em 2015. O valor representa 16,1% do PIB do país, mantendo o percentual obtido em 2014. Foi a primeira vez, na história do levantamento, que não houve redução percentual do mercado informal. O principal motivo apontado pelos analistas é a crise econômica que o Brasil enfrenta. E é aí que as alternativas informais passam a interessar os líderes contemporâneos.

Graduada na Universidade Brown e na Universidade de Oxford, Clay é cofundadora e diretora da Human Agency, um negócio colaborativo que visa gerar ideias inovadoras com fins humanitários. Além disso, é fundadora da Wisdom Hackers, uma incubadora para investigação filosófica. Uma terceira iniciativa dela ainda mostra que os grandes líderes globais já se deram conta de que as respostas ao nosso contexto atual podem estar sendo desenvolvidas em canais alternativos. Ela também é cofundadora de uma rede chamada League of Intrapreneurs, que reúne empreendedores desajustados de empresas da Fortune 500, propondo a criação de valor para os negócios e sociedade a partir das ideias deste público para desencadear a revolução social corporativa.

A autora americana Alexa Clay

A autora americana Alexa Clay

Em entrevista à Comunicação Empresarial, Clay debate o perfil dos desajustados, seu papel nas empresas, na sociedade e nas mudanças de paradigmas, contando como os empreendedores desajustados – sobretudo aqueles que estão dentro de grandes empresas – podem criar novas formas de pensar e operar.

 

Por que pesquisar os desajustados?

Esse tema é algo com o que eu cresci. Meus pais eram desajustados. Meu pai trabalhou na Amazônia, em projetos de comércio ético, enfrentando toda a resistência que havia ao seu trabalho. Minha mãe trabalhava para um cara que fazia pesquisas sobre alienígenas. Ele viajava o mundo entrevistando pessoas que diziam ter sido abduzidas por tais seres. E eu estava sempre por perto, uma criança solitária, crescendo nesses ambientes. Assim, comecei a olhar para as pessoas que não se ajustavam e, no ambiente corporativo, para aqueles que não se encaixavam ou para os empreendedores que queriam mudar as coisas. Era uma piada no início, mas logo se tornou algo sério.

 

Quem são os desajustados no mundo de hoje?

Você pode encontrá-los em diferentes posições e de diferentes modos. São as pessoas que estão mudando as instituições a partir de dentro. Empreendedores e intraempreendedores, hackers culturais, pessoas à margem do sistema, como piratas e gângsteres. São também as que enfrentam antagonismos com os sistemas existentes, como ativistas, e as que mudam o sistema a partir de fora. Ou são dissidentes, pessoas que simplesmente abandonam o sistema.

 

O que podemos aprender dessas pessoas desajustadas?

Há muita gente, dentro do sistema atual, questionando e enfrentando desafios em suas culturas. É cada vez maior o número de pessoas que não querem mais trabalhar para grandes empresas, porque as consideram muito hierárquicas e desiguais, principalmente quando olham para o grande desnível entre o CEO e o trabalhador mais baixo. Os desajustados abordados nos livros são pessoas mais democráticas e igualitárias, que trabalham em sistemas que não são tanto como uma “caixinha”. E vemos isso gerando culturas horizontais, descentralizadas, onde não há chefes e a autonomia não é apenas um privilégio. Isso é algo que os piratas antigos já faziam. Eles tinham constituições democráticas em seus navios.

A questão é mais sobre olhar para como nós construímos essas formas de cultura e como podemos transformá-las em algo que as pessoas queiram fazer parte. No Brasil, por exemplo, eu tive uma discussão muito interessante sobre culturas emergentes, como as ecovilas, espaços de coworking, grupos de hackers e comunidades alternativas. O que esses grupos estão criando faz com que as pessoas queiram estar lá e, geralmente, é o oposto da burocracia e do antigo mindset.

 

Qual a importância dos desajustados para superarmos as crises e transformações atuais?

Estamos atravessando um momento de crise intensa que atinge o Brasil e o mundo todo. Neste grande momento de transição econômica, é preciso pensar em como o futuro da economia será e, por isso, precisamos de mais desajustados. São esses indivíduos os mais propensos a assumir riscos, a saltar para fora da cultura mainstream, testando novas formas de troca de valor, sejam eles empreendedores, freelancers, integrantes das chamadas economia geek ou da economia colaborativa.

É excitante ver esse tipo de energia e eu acho que a economia será muito diferente no futuro: menos dependente de empresas gigantescas e mais baseada nas economias locais e regionais. É interessante notar que as favelas, inclusive no Brasil, são consideravelmente mais imunes às crises econômicas. Isso porque elas são baseadas em uma economia mais local – exatamente o oposto de manter uma dependência exclusiva de um único e grande modelo.

Acredito que, nesse futuro próximo, os cidadãos irão se tornar mais participativos no desenvolvimento e na otimização dos setores primários e secundários, dos sistemas de produção e distribuição, e isso não será mais responsabilidade exclusiva das grandes empresas, mas de inciativas menores.

 

Qual o papel dos desajustados dentro de uma empresa?

São eles que fazem com que as organizações evoluam, porque eles criam protótipos de modelos de negócios e alternativas. Mas esse é um trabalho muito difícil, porque todo o resto das organizações costuma ser resistente. Geralmente, há uma faixa à frente das empresas – líderes inovadores, jovens talentos ou mesmo CEOs que estimulam a mudança. Há uma faixa intermediária e, finalmente, uma base que trabalha para manter os negócios exatamente como eles são. É preciso um grande esforço político do desajustado em termos de como ele apresenta as ideias dentro da empresa, como se mantém resiliente e como constrói networking internamente para permitir que a inovação aconteça. Até mesmo a linguagem que ele usa será considerada. O inovador precisa camuflar a sua agenda sutilmente, porque se ele for percebido como muito disruptivo, humanista ou socialmente engajado, pode ser percebido como não estratégico dentro das empresas. Portanto, é uma identidade difícil, mas, quando se realiza, abre a possibilidade de provocar mudanças em escalas gigantescas.

 

O que a comunicação representa nesse contexto?

Essa grande transição econômica pode ser entendida como uma questão de comunicação e de narrativas. Grande parte do meu trabalho é mergulhar nesse possível futuro emergente e encontrar uma linguagem – quase como um poema, porém mais estratégico – que indique como falar desse novo futuro de um modo que contagie as pessoas e as faça querer participar. É isso que os desajustados internos precisam fazer: eles precisam viabilizar o futuro, apelando ao racional das pessoas, mas também aos seus corações. E isso é algo muito precioso e delicado.

Muitas vezes, conversamos sobre como as mudanças da economia são impulsionadas pelas histórias das pessoas que as provocaram. A história de Henry Ford é a história de sua ideia do que era ser eficiente na indústria automotiva. A de Steve Jobs é a história do que realmente significa ser um empreendedor. E, agora, temos as histórias desses desajustados, que são histórias sobre estar em uma economia em transição. Logo, a comunicação é tudo. É sobre como você se torna envolvido com essas narrativas e como você cria essa espécie de profecia sobre o futuro.

Todos nós estamos perdidos. O livro é, na verdade, sobre isso: como aceitar a ideia de que estamos em um momento de transição e ambiguidade e como encontramos as histórias que contaremos a nós mesmos para que possamos criar algo diferente.

 

Como a liderança pode guiar as pessoas através desses cenários?

O líder de hoje precisa saber distribuir o poder e lidar com a ambiguidade e a incerteza. O modelo de liderança pelo controle e comando está em extinção. A questão, hoje, é sobre como liderar com integridade, se colocando em uma posição de servir a algo maior, como criar espaço para que as pessoas sejam mais autogovernáveis.

Há muitas formas interessantes de lideranças, especialmente no submundo. Liderança, hoje, está relacionada a como você reconhece e aprecia o que há de bom em uma cultura e usa isso como uma fonte de metamorfose, mais do que apenas revolucionar.

 

Como você imagina um mundo sob uma revolução dos desajustados?

Um mundo onde se pode ser realmente honesto sobre o que está acontecendo ao redor. Quanto mais pudermos assumir nossa vulnerabilidade, com nossas verdadeiras intenções, e realmente honrar os dons e talentos que temos, mais poderemos transportar isso para a economia. As pessoas querem descobrir como arrancar as máscaras, estão famintas por algo diferente. É a partir dessa vulnerabilidade que podemos perceber como as empresas podem mudar e como os produtos e seus propósitos se transformarão.

Parte do papel do desajustado é estar dentro e fora ao mesmo tempo. É impossível estar totalmente fora do sistema, mas se você não sair dele, você nunca terá perspectiva e pode se perder. Esse tipo de movimento, esse olhar de “estrangeiro”, onde quer que você esteja, é essencial.