Carlo Pereira*

Em setembro de 2015, as Nações Unidas chegaram ao fim das negociações para o estabelecimento dos 17 objetivos e das 169 metas do desenvolvimento sustentável, a chamada Agenda 2030. Eles envolvem temas sociais, econômicos e ambientais, como erradicação da pobreza, segurança alimentar e agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, luta contra a corrupção, mudanças climáticas, água e saneamento, entre outros.

Hoje, a ONU entende que o setor empresarial privado é fundamental tanto na condução quanto no financiamento de ações que buscam atingir esses objetivos. Por isso, o sistema de funcionamento da agenda de sustentabilidade das Nações Unidas está passando por uma reforma em que as empresas vão ganhar destaque. E um bom número de companhias privadas já compreendeu que a agenda 2030 não é uma preocupação exclusivamente da ONU, mas de toda a sociedade.

Segundo estimativas, serão necessários de 3 a 4 trilhões de dólares por ano para que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) sejam cumpridos. Boa parte desse dinheiro terá de vir da iniciativa privada, já que as corporações são direta e indiretamente responsáveis por vários dos impactos negativos, e os governos e as entidades não governamentais não dispõem de toda essa verba. O Pacto Global da ONU foi colocado no centro dessa mudança porque reúne empresas e outras organizações.

A Rede Brasil do Pacto Global é a terceira maior do mundo, e sua atuação promove a integração de diversos setores da sociedade em um ambiente neutro. Um terço das cerca de 900 organizações que compõem a rede é formado por grandes companhias; outro terço, por pequenas e médias empresas; e o restante por instituições (ONGs, escolas de negócios, municípios, ministérios, órgãos públicos e governos). O foco dos participantes é implantar a agenda por meio do setor empresarial.

Essa mudança na maneira de agir da ONU nasce com o reconhecimento da importância do setor privado no mundo em várias áreas. Além de empregar uma imensa quantidade de pessoas, se os PIBs dos países e as receitas das empresas fossem colocados lado a lado, em uma lista única, dos 200 valores mais altos, 157 seriam das corporações. A economia de Portugal, por exemplo, está entre as 30 maiores do mundo, mas, se fosse comparada com as receitas das grandes companhias, cairia para o centésimo lugar da lista. Se as dez maiores receitas de empresas do mundo forem somadas, o valor será mais alto do que a soma dos PIBs dos 180 países mais pobres. A importância econômica do setor privado é brutal, e, com a globalização, ele continua ganhando força, tamanho e influência. Para o bem e para o mal. Por isso, o objetivo do Pacto é que as corporações sejam sempre uma força para impulsionar o bem.

Cada vez mais as empresas entendem que é imperativo que essa agenda seja trabalhada de maneira sistêmica, se não por compreensão própria de que não há outra opção, por questões financeiras. Os dez maiores fundos de investimentos, que detêm 34% das ações do mundo, estão pressionando cada vez mais as companhias para que assumam a agenda da sustentabilidade.

Larry Fink, CEO da Black Rock, o maior fundo de investimentos do mundo – que têm o valor de dois PIBs brasileiros sob sua gestão –, escreveu uma carta pública no ano passado chamada “Um senso de propósito” e outra, neste ano, “Propósito e lucro”. Nas duas, afirma que as empresas não podem apenas entregar resultados financeiros; têm de contribuir positivamente para a sociedade. Quem não responder a essa demanda vai deixar de fazer sentido para o mundo e, consequentemente, para o portfólio dele. Fink, a personificação do capitalismo, está dizendo que quem não estiver alinhado com a agenda da sustentabilidade estará fora dos fundos da Black Rock.

Outro bom exemplo é a Climate Action 100+, uma iniciativa em que 320 investidores com cerca de 33 trilhões de dólares se comprometem a parar de investir nas empresas que não controlarem suas emissões de gases do efeito estufa. Os investidores eram a última fronteira, pois até agora o discurso pregava que as companhias só precisavam dar lucro. Isso mostra que a sustentabilidade já se tornou um tema importante no mundo. As empresas hoje devem estabelecer um propósito, que é a maneira como elas criam um impacto positivo na sociedade, e está muito claro que quem não assumir isso vai sucumbir.

No Brasil, a maior porcentagem do PIB está esclarecida nesse sentido. Mesmo setores tradicionais, como a Bolsa de Valores, já vêm refletindo temas como diversidade e inclusão. Até porque está provado que fundos com maior diversidade têm melhor desempenho. As empresas hoje também descobriram que projetos de sustentabilidade não podem ser usados como jogada de marketing. Esses temas devem se tornar uma questão estratégica, a maneira de levar adiante o propósito da companhia e um meio para que a empresa e a sociedade saiam ganhando.

Nesse processo, a mentalidade dos diretores das empresas precisa mudar e muita gente pode andar para trás por não se adaptar. O trabalho dos CEO ficou mais complicado. Não tem como fugir dessas discussões. E elas estão acontecendo por toda parte. Algumas companhias já estão até colocando os ODS em seu propósito e as metas dos funcionários atreladas a eles.

Hoje, mesmo com certos retrocessos recentes do conservadorismo em algumas partes do mundo, o interesse pela sustentabilidade só aumenta. Um exemplo é que o Pacto ganha novos adeptos a todo momento. Um dos motivos para isso é financeiro: a economia global está cada vez mais interconectada. Nesse contexto, nações e empresas não conseguem funcionar isoladamente. Se uma companhia quiser exportar, precisará seguir as leis de sustentabilidade dos países para os quais seus produtos irão, e o mesmo acontece se for distribuir sua produção por cadeias varejistas internacionais dentro de seu próprio país. Se ela estiver listada na bolsa, vai ter de cumprir algumas regras; se tiver investimentos estrangeiros, também. Então, não vão sobrar muitos canais para quem não quiser entrar no jogo da sustentabilidade.

Estamos em uma época de transformação intensa, e há uma nova geração que chega com uma mentalidade propícia para essas mudanças. Grande parte dos jovens pensa em um mundo globalizado, unido e sem fronteiras. Uma pesquisa da Bloomberg mostra que 84% deles sabem que seus investimentos podem afetar a fome no mundo, e 75%, que seu dinheiro tem o poder de influenciar as mudanças climáticas. A mobilização dessa turma é muito forte. Pela primeira vez na história há uma linguagem comum que repete a receita de sucesso da agenda do milênio da ONU, que tirou 1 bilhão de pessoas da extrema pobreza e que agora se volta para os ODS, sem deixar ninguém para trás, com foco em um planeta seguro, próspero e em paz onde vivam pessoas saudáveis.

 

*Carlo Pereira é secretário executivo da Rede Brasil do Pacto Global