Luís Humberto Rocha Carrijo

Luís Humberto Rocha Carrijo é jornalista, comunicador e principal da Rapport Comunicação

Luís Humberto Rocha Carrijo é jornalista, comunicador e principal da Rapport Comunicação

Somos hoje resultado de nossas escolhas do passado e seremos amanhã produto do caminho que trilharmos hoje. Na área da comunicação em massa, a reputação da imprensa no Brasil, por exemplo, dependerá em grande medida de como seus players (empresas de notícias, plataformas de redes sociais, assessorias de imprensa e organizações públicas e privadas) vão operar ante a indústria de conteúdo falso que desinforma a sociedade. Debater o fenômeno é parte do processo, e a Aberje, legitimada por ser o mais importante think tank da comunicação do país, foi instada a mediar a discussão, promovendo encontros sobre um tema central nos países onde a imprensa livre é pilar da democracia, principalmente em períodos plebiscitários.

No Brasil, sua prática pode ganhar protagonismo na próxima disputa presidencial. De acordo com levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política, aprofundando a distorção das percepções públicas e do debate político. Sempre bom lembrar os casos de Donald Trump e do Brexit, classificados como exemplos clássicos de resultados desastrosos derivados da pós-verdade.

Entretanto, como um grupo de pesquisadores da Universidade de Washington provou, estamos ainda na era “paleolítica” das fake news, e seu futuro é assustador. Eles conseguiram, com o uso de inteligência artificial e de algoritmos, desenvolver uma geração de ferramentas de manipulação de vídeo e áudio que permite a criação de filmagens de notícias realistas, imitando com alta fidelidade tiques, gestos e modos de expressão de políticos e personalidades, como o falso discurso de Barack Obama. Breve não se poderá confiar não apenas no que se lê, mas no que se ouve e no que se vê.

Por isso a urgência em vacinar o público contra todo tipo de ataque à verdade. A melhor forma é qualificando a produção de conteúdo, de maneira que a sociedade tenha uma base de informação confiável para poder refletir e escolher seu caminho. Essa jornada passa pelo aperfeiçoamento da imprensa e pelo resgate do jornalismo puro-sangue. Como sugere Steve Coll, reitor de Jornalismo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, a melhor forma de combater o fenômeno das fake news é entregar à audiência um trabalho transparente, dar satisfações para o público. Assim como ele, Dawn Garcia, diretora na Universidade Stanford, na Califórnia, acredita que é preciso levar às pessoas o DNA da notícia, começando pelo histórico do autor.

Trata-se de uma reflexão que não é de hoje. Desde o século passado, pesam sobre as empresas de notícia severas críticas de estudiosos como Jürgen Habermas e Umberto Eco, que romanceou o mau jornalismo, de que prestidigitam os fatos a favor de causas de grandes grupos de interesse com o intuito de interferir em decisões políticas e de mercado. Por isso a definição de Walter Lippmann, fundador do jornalismo moderno, segundo o qual “notícia e verdade não são a mesma coisa e devem ser claramente distinguidas”.

Colocando em perspectiva, a desinformação engendrada pelos meios de comunicação em massa é de um tipo muito mais grave de fake news, pois a imprensa tradicional ainda dispõe de uma poderosa prerrogativa: a de autenticar o que é e o que não é fato, avalizando, por exemplo, medidas governamentais que impactam as pessoas. No Brasil, o governo se aproveitou dessa certificação como permissão tácita na batalha pelas reformas trabalhista e da Previdência. O colunista da Folha de S.Paulo Janio de Freitas é um que, sem meias palavras, tece críticas ao “sistema de comunicação informativa do país”, do qual faz parte, por reproduzir e validar as “notícias falsas” do governo, aplicando recursos pouco transparentes – mas difíceis de contestar numa mesa de bar – em sua cobertura jornalística: seleciona o que entra ou não no noticiário, destaca certos aspectos e oculta outros, privilegia muito mais um ponto de vista em detrimento de outro, reiterando uma versão até que ela vire consenso nacional. Isso ocorre porque, conforme o Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM), o Brasil, entre os 11 países estudados, é o mais negativo nos quesitos pluralidade na mídia e transparência na imprensa.

A imprensa deve aproveitar a oportunidade nesses debates para rever suas práticas, pois ela não é vítima das notícias falsas, senão o epicentro. Para Steve Coll, boa parte das pessoas atualmente não confia no trabalho da imprensa tradicional, o que favorece o florescimento das fake news. Ao mesmo tempo, as cacofonias da imprensa forçam para baixo sua credibilidade, como foi detectado em pesquisas de opinião, como as do DataFolha e da Edelman Significa.

A despeito da importância da implementação de ferramentas como o fact checking, penso que o debate sério deve ser sobre a desinformação em suas mais diferentes dimensões, não apenas sobre como acanhar as fake news. É momento de a imprensa deixar sua zona de conforto e parar de apontar os outros como responsáveis por uma situação que talvez ela tenha ajudado a criar. A imprensa, nota-se, está na busca desenfreada pelo prestígio e pelo market sharingperdidos, mas caminha para repetir o mesmo erro caso não revalorize o jornalismo. A solução do problema muitas vezes não está do lado de fora, mas bem próximo do nosso umbigo.