Por Nicholas Vital*

Intervalo da novela das 9. Entre um comercial e outro, surge uma lavoura dourada cercada por matas nativas, onde máquinas modernas trabalham na colheita de grãos. Na sequência, grandes números destacando os impactos econômicos e sociais da atividade saltam na tela, impressionando milhões de pessoas de norte a sul do país. Muito bem produzida, a campanha “Agro: a indústria-riqueza do Brasil”, veiculada há cerca de dois anos em horário nobre na Rede Globo, tem como objetivo valorizar o agronegócio nacional, que, se por um lado se consolida cada vez mais como motor da economia brasileira, por outro é atacado dia sim, outro também pelos críticos do setor – que não são poucos. A qualidade dos filmes impressiona, mas infelizmente não é suficiente para convencer uma parcela significativa dos telespectadores, especialmente nos grandes centros urbanos.

Se em países como os Estados Unidos o produtor rural é visto como herói, responsável por produzir a comida que abastece as cidades e por manter os preços dos alimentos estáveis, no Brasil a percepção é bem diferente. Mesmo sendo responsável por cerca de um quarto do PIB nacional, o agronegócio é visto com desconfiança pelos brasileiros. Em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, os produtores não raro são vistos como latifundiários, desmatadores, mercenários, inimigos dos índios e pouco preocupados com o bem-estar animal ou com a saúde de seus consumidores. Uma imagem totalmente deturpada e descolada da realidade. No entanto, como é possível um setor historicamente tão importante, que garante a comida barata na mesa dos brasileiros, gera milhões de empregos e ainda rende dividendos para o país, ter uma imagem tão ruim perante sua população? A resposta é simples: embora precise avançar em algumas práticas e processos, ainda falta uma boa comunicação. Nas últimas quatro décadas, graças à adoção de tecnologias de ponta, o Brasil deixou a incômoda posição de importador de alimentos para se transformar no celeiro do mundo. A produtividade média por hectare disparou, o que contribuiu inclusive para a sustentabilidade da atividade, mas o setor simplesmente se esqueceu de comunicar seus feitos à sociedade. A história do agronegócio brasileiro, no fim das contas, acabou sendo contada pelos seus detratores.

Quando o setor finalmente percebeu que estava perdendo a batalha da comunicação, já era tarde demais. A narrativa negativa estava estabelecida – comprada, inclusive, pelos grandes veículos de imprensa. Nos últimos anos, porém, o tema vem ganhando importância dentro das organizações ligadas ao agronegócio. A comunicação hoje é um assunto de destaque nos principais eventos do setor, nos quais o que mais se ouve é: “O agro precisa se comunicar melhor”, “Temos de contar as nossas boas histórias”, “Precisamos nos relacionar melhor com os consumidores”. Apesar da percepção das lideranças, no entanto, a realidade é que a comunicação ainda não tem um papel de protagonismo na maioria das companhias agro brasileiras.

De acordo com a pesquisa “A comunicação do agronegócio no Brasil”, realizada pela Aberje, em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e com patrocínio da Bayer, em somente 28% das empresas do setor a comunicação se encontra estruturada em nível de diretoria ou de vice-presidência.

“As estruturas de comunicação ainda são frágeis diante do tamanho e da relevância do setor”, afirma Paulo Nassar, professor titular da ECA-USP e diretor-presidente da Aberje. “A pesquisa é muito rica em dados e mostra falhas comunicacionais importantes. O que vemos é que a comunicação ainda está muito focada nas ações práticas, fora, portanto, da conversa em torno do desenho das políticas organizacionais. A alta direção é quem determina como a organização narra o mundo e como se comunica com a comunidade. Quando os comunicadores não participam dessas discussões, a organização acaba descolada da sociedade.”

É preciso destacar ainda que a pesquisa apresenta um recorte das grandes empresas do setor, teoricamente mais bem estruturadas – no agronegócio como um todo, esse cenário pode ser ainda pior. Entre as companhias ouvidas, 69% têm mais de mil funcionários, sendo 14% com mais de 20 mil colaboradores. Entre as respondentes, somente 7% têm até 50 funcionários. Porém, quando olhamos para as estruturas de comunicação, fica evidente o papel secundário do departamento dentro das organizações. Em 67% das empresas, a equipe de comunicação conta com até cinco pessoas, sendo que 7% não têm sequer estrutura própria na área. Na outra ponta, somente 2% dos respondentes afirmaram ter estruturas com mais de 15 funcionários.

O investimento em ações de comunicação também está muito aquém do potencial e das necessidades do setor. Entre as empresas participantes da pesquisa, apenas 24% investem acima de 500 mil reais anuais. Pode parecer muito, mas não é. Lembre-se de que estamos falando de organizações com faturamento na casa dos bilhões de reais. “O investimento em comunicação ainda é muito baixo pela importância desse segmento, principalmente quando comparamos com outros setores, como serviços, montadoras, indústria farmacêutica. Nesses setores, a comunicação já faz parte das políticas organizacionais, guiam o posicionamento das empresas, suas narrativas em relação às grandes questões”, afirma Paulo Nassar.

Gislaine Balbinot, gerente de Comunicação da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), parceira da Aberje na pesquisa, tem opinião parecida. Segundo ela, as estruturas reduzidas e o baixo investimento na área dificultam a comunicação do agro com a sociedade. “Com equipes enxutas, alguma coisa sempre acaba ficando descoberta”, diz. “É preciso mais investimento para que os resultados melhorem, porque este não é um trabalho pequeno nem fácil. A comunicação já é reconhecida pelas lideranças, mas ainda não é uma prioridade no agro.”

De acordo com a executiva, os produtores rurais nunca se preocuparam com a comunicação devido às características do negócio. Por produzirem commodities, não havia motivos para perseguir uma diferenciação. Historicamente, a indústria de processamento, que recebe um produto final, é que sempre fez essa comunicação, o que ajuda a explicar o distanciamento da população urbana em relação aos produtores e as críticas ao agronegócio feitas por parte dos consumidores menos informados.

O setor, felizmente, já percebeu isso e passou a humanizar sua comunicação. Nos últimos anos, inúmeras ações realizadas por grandes empresas passaram a envolver os produtores, principalmente os pequenos. A agricultura familiar cada vez mais tem feito parte das narrativas do agronegócio, em um movimento que visa a esclarecer à sociedade que os diferentes métodos produtivos não são excludentes, mas sim complementares.

“Muitas das boas histórias do agronegócio envolvem os produtores familiares. Não dá para ficar falando apenas dos grandes números, que são apenas uma parte dessa história. A mesa do brasileiro é composta de produtos da agricultura familiar. É preciso expor mais esses personagens”, afirma Gislaine Balbinot. “A evolução que nós tivemos nos últimos anos também impactou a comunicação. Há uma década, a reclamação era que não havia espaço para o agro na grande mídia. Hoje não dá mais para reclamar disso. A mídia já percebeu a importância do setor e faz uma cobertura bem próxima do dele. Agora, o que precisa melhorar são as mensagens que são passadas.”

Ainda assim, boa parte do investimento em comunicação é feita nos momentos de crise, quando a receptividade por parte da sociedade é significativamente menor. Para Paulo Nassar, as empresas do agro em sua maioria ainda se mostram muito reativas e pouco dispostas e enfrentar os debates mais sensíveis, como no âmbito do ativismo. “Isso não é uma ameaça. A ameaça é você ficar fora dessas conversas. É preciso falar mais sobre o que é positivo e também sobre o que é delicado. O setor tem trabalhado fortemente em questões relacionadas ao meio ambiente, a pessoas e governança, mas ainda não dá a devida atenção à comunicação. Os gestores precisam enxergar a comunicação de forma estratégica.”

De jornalista a CEO

Um exemplo de como uma comunicação eficaz pode transformar a reputação de um setor vem da indústria de suco de laranja. O Brasil é o maior produtor mundial da commodity, exporta para os quatro cantos do planeta, mas até pouco tempo atrás as empresas do setor eram vistas como pouco transparentes, o que abalava a relação com seus fornecedores e gerava desconfiança por parte da imprensa. Em 2008, uma reportagem da revista Exame intitulada “Setor de laranja: dados, nem espremendo” expôs o problema para todo o país e fez com que esse setor passasse a adotar uma nova postura.

A virada teve início em 2009, com a criação de uma nova associação setorial, a CitrusBR, entidade que já nasceu com o DNA da comunicação e tinha como missão melhorar a imagem do setor por meio da informação. O jornalista Ibiapaba Netto, profissional com larga experiência em redações e à época consultor de Comunicação da CitrusBR, era o responsável por coordenar o projeto, que envolvia ainda acadêmicos, pesquisadores e agências de comunicação

e publicidade. O trabalho começou a dar resultados rapidamente. As informações sobre o setor passaram a circular nos principais veículos de economia do país, e a reputação do setor passou a melhorar. Três anos depois, Netto foi nomeado CEO da associação.

“Como jornalista, eu já tinha feito matérias sobre o setor e sempre tive muita dificuldade em encontrar dados e fontes da indústria. Ao mesmo tempo, também tinha muita facilidade em encontrar gente disposta a falar contra as empresas. A oposição era muito bem estabelecida e organizada. À laranja ajudou a explicar as tendências de consumo e dar uma racionalidade econômica para os fenômenos que aconteciam em campo, além de rebater, de forma embasada, as acusações feitas pelos detratores. Desde 2010 a divulgação dos dados figura no calendário oficial do setor. “Todo mundo sabe que em fevereiro nós divulgamos os estoques referentes a 31 de dezembro e que em agosto divulgamos os dados referentes a 30 de junho. Todo mundo que cobre o setor sabe que, em 10 de maio, faça chuva ou faça sol, vai ter estimativa de safra.” A mesma lógica vale quando as informações não são favoráveis. Entre 2012 e 2013 o setor sofreu com os estoques elevados, o que causou uma depreciação nos preços globais do suco de laranja, mas as informações foram divulgadas da mesma maneira. A partir desse momento o mercado passou a confiar nos números e a CitrusBR se consolidou como a principal fonte de informações do setor.

Outra ação de comunicação simples e eficaz encampada pela entidade foi a divulgação de boletins semanais, em formato de vídeos e newsletters, para os stakeholders do setor via WhatsApp. Toda sexta-feira o boletim é enviado a cerca de 800 produtores, além de membros do governo e executivos da indústria. Mais do que uma ferramenta de disparo, o WhatsApp se transformou em um canal de comunicação direta entre citricultores e a indústria, já que todos os questionamentos são respondidos pela equipe da CitrusBR.

“As indústrias firmaram um compromisso de transparência que já dura uma década, e eu espero que isso dure para sempre. Todos ganham com essa transparência. Atualmente a CitrusBR é citada como referência em comunicação setorial no agronegócio. Até por isso, hoje eu sou chamado por outras entidades para contribuir de alguma forma”, afirma o jornalista, que atua também como conselheiro de comunicação do Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, em Brasília.

Segundo Ibiapaba Netto, sua formação como jornalista também facilita seu trabalho na área de relações governamentais. “O governo é muito parecido com o jornalista. Ele cuida de várias coisas ao mesmo tempo e precisa se comunicar com a sociedade, que entende muito pouco sobre esses temas. O governo precisa tomar decisões sobre o que muitas vezes não tem conhecimento. Quem chega com uma informação de qualidade, bem estruturada, leva vantagem”, conclui o executivo, também autor do livro A Notícia Relevante – Um guia para as empresas entenderem o processo de decisão nas redações, publicado pela Aberje Editorial.

Entretanto, não é preciso ter um jornalista como CEO para fazer um bom trabalho de comunicação. Muitas empresas do agro brasileiro já perceberam a importância dessa atividade para o sucesso dos negócios e, dessa forma, têm investido em estruturas de comunicação mais robustas. Representante de outro setor importante, mas tradicionalmente malvisto pela sociedade, o sucroenergético, a Atvos é um bom exemplo. Fundada em 2007 como Odebrecht Agroindustrial, a companhia mudou de nome em 2017 e é atualmente uma das poucas empresas do setor a contar com uma vice-presidência de Comunicação.

Há 30 anos no Grupo Odebrecht, Genésio Lemos Couto assumiu como VP de Comunicação, Sustentabilidade e Pessoas em 2011 com a missão de inovar em um setor que se mistura com a história do Brasil, mas que pouco evoluiu nos últimos 100 anos. A escolha de Couto foi proposital. A direção queria alguém de fora do setor para cuidar da imagem da empresa. Só assim, eles acreditavam, poderiam fazer algo diferente do que era feito no agronegócio até então.

“Tenho uma posição privilegiada em que posso me relacionar com a imprensa, com os colaboradores da empresa e com as comunidades em que atuamos”, afirma Couto, listando 37 segmentos da sociedade com os quais precisa se comunicar, divididos entre construtores (acionistas, clientes, academia, mercado financeiro…), avalizadores (agências de rating, auditores, seguradoras, certificadoras…), influenciadores (imprensa, blogueiros, estudantes, comunidades…), representantes de interesses (sindicatos, servidores públicos, movimentos sociais, Ministério Público…) e reguladores (Poder Judiciário, políticos e governo). Sua estrutura de trabalho, no entanto, não foge muito da média do setor. Dos 10.540 colaboradores da Atvos, somente seis são exclusivos da área de Comunicação. Existem ainda outros cinco colaboradores alocados nas usinas, os quais cuidam basicamente da comunicação interna nas instalações da companhia, localizadas nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, e alguns fornecedores externos, como a assessoria de imprensa – expediente utilizado por 72% das empresas do agro, segundo a pesquisa Aberje.

Apesar da estrutura enxuta, a Comunicação já está enraizada como cultura empresarial na Atvos. Prova disso é a presença de Genésio Couto no board da organização, no qual diz ter amplo apoio e liberdade para inovar. “Possuo um assento no Conselho de Administração da empresa, onde todos os anos apresento o plano de comunicação interna e externa da Atvos. Essa apresentação é muito mais para eles saberem o que vai acontecer do que para pedir aprovação. A nossa CEO também se interessa pelo assunto e apoia as nossas iniciativas. Hoje estamos envolvidos em todas as estratégias da companhia”, afirma o executivo.

Mais do que comunicar, o papel do VP da Atvos também é o de manter a boa imagem da empresa nas regiões em que atua. Dessa forma, ações de relacionamento com a comunidade também têm espaço de destaque no plano de comunicação da empresa. O objetivo, nesse caso, é mostrar que, mais do que a geração de empregos, a Atvos também contribui para o desenvolvimento das regiões nas quais atua por meio de projetos sociais, realizados em sua maioria em parceria com os órgãos públicos e a sociedade civil.

Um exemplo bem-sucedido da atuação da companhia é o programa Energia Social, que conta com 14 projetos no município de Costa Rica, em Mato Grosso do Sul, que vão da construção de um auditório público a cursos de qualificação profissional para a população, passando pelo monitoramento da biodiversidade na região, a doação de ambulâncias e o investimento na ampliação do hospital local. “Ações como esta contribuem para o engajamento dos colaboradores. Em 2011, quando eu cheguei, o turnover na empresa era de 74%. Hoje é de 10%, bem abaixo da média do setor, que é de 17%.”

Ser agro é bom

Se por décadas o setor pecou por não contar suas boas histórias, hoje felizmente vemos inúmeras ações de valorização do agricultor brasileiro. Entre as de maior sucesso está a campanha “Ser Agro é Bom”, realizada pela Bayer. Lançado em 2017, o projeto busca resgatar a autoestima do homem do campo, um tanto quanto abalada diante das constantes críticas sofridas nos últimos tempos. Ao contrário do que acontece nos países desenvolvidos, onde os produtores rurais são valorizados pela população, por aqui, por incrível que pareça, a visão que se tem é a de que fazendeiros não passam de desmatadores e inimigos do meio ambiente.

“Daí surgiu a ideia de fazermos uma série humanizando o agricultor, mostrando que são pessoas de carne e osso, apresentando e incentivando o trabalho dessas pessoas”, explica Paulo Pereira, diretor de Comunicação Corporativa da Bayer. “Existem vários tipos de produtores, mas todos têm uma ligação muito forte com a terra. O agricultor não é mais aquele cara que nunca estudou, que faz o plantio de forma amadora. Ele está cada vez mais atualizado, as novas gerações estão trazendo um ar novo para o negócio. Os produtores brasileiros são profissionais, sabem muito bem o que estão fazendo.”

A série de vídeos tem como objetivo, além de apresentar as histórias de vida das pessoas que produzem os alimentos que consumimos todos os dias, mostrar como é o trabalho no campo, ensinar sobre as boas práticas agrícolas, explicar o uso de ferramentas modernas e expor as dificuldades envolvidas no negócio. Os vídeos de cerca de 4 minutos são veiculados nas mídias digitais da Bayer, no YouTube e no Facebook, e têm como público-alvo a população urbana.

A série “Ser Agro é Bom” integra um movimento de abertura mais amplo do setor agroquímico, até bem pouco tempo atrás avesso ao diálogo com a sociedade e que hoje é fortemente criticado pela população urbana – em grande parte graças à desinformação. “O segmento de defensivos sempre foi muito fechado. Fazia a parte dele com as autoridades e seus clientes, mas nunca foi uma prioridade falar com o público geral”, explica Pereira. “Por ser um produto que a gente não vende para o consumidor final, a comunicação acabava ficando em segundo plano. As empresas não viam a necessidade de falar com a sociedade. O setor pecou pela falta de comunicação e transparência por pura falta de visão estratégica”, constata o executivo.

A omissão custou caro e acabou contribuindo para a criação de inúmeros mitos relacionados aos agrotóxicos. Sem uma contestação por parte das indústrias, esses boatos se transformaram em verdades absolutas, foram parar em jornais e revistas de todo o país e hoje são amplamente disseminados nas redes sociais. “Quando você não explica uma tecnologia, isso gera dúvidas. Se você não explica, outros vão explicar por você. Isso aconteceu bastante no agronegócio. Muitos dos que defendem o banimento dos agroquímicos não têm nenhum conhecimento técnico nem noção das consequências de uma eventual proibição desses produtos”, afirma o diretor da Bayer, lembrando que a produção de soja 30 anos atrás era de cerca de 30 sacas por hectare, contra até 100 sacas nos dias de hoje. “Isso só é possível graças à tecnologia.”

Após assumir o controle da Monsanto, uma das empresas mais inovadoras do agronegócio em todo o mundo, a Bayer vem ampliando seu compromisso com a transparência. Recentemente, anunciou a abertura de todos os estudos referentes ao glifosato, um herbicida revolucionário e líder de mercado no Brasil há décadas, hoje fortemente criticado por ambientalistas, que lutam pelo seu banimento. “É preciso ser transparente, ter resiliência e persistência. Quando a empresa passa a mostrar uma agenda positiva, as coisas começam a mudar”, conclui Paulo Pereira.

Concorrente da Bayer no segmento de sementes e pesticidas, a Corteva enfrenta um desafio de comunicação bem diferente. Longe das polêmicas em torno do glifosato, a companhia, fruto da fusão entre as divisões agrícolas das gigantes do setor químico Dow e DuPont, precisa comunicar ao mercado o lançamento de uma organização totalmente nova, mas que já nasce com mais de 200 anos de história. Deixar para trás marcas conhecidas dos consumidores não é uma tarefa fácil, mas, após a abertura do capital da empresa na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), em junho passado, este se tornou um caminho sem volta.

“A companhia já nasceu com o desafio de comunicar uma nova marca. A comunicação está no DNA da empresa”, afirma Isabel Sousa, gerente de Comunicação Corporativa da Corteva. No entanto, mais do que apresentar a nova marca aos produtores rurais, a missão do time de Comunicação ainda enfrenta uma dificuldade extra: falar com o público urbano. “Já no seu propósito – ‘Enriquecer a vida de quem produz e de quem consome, garantindo o progresso para as próximas gerações – a Corteva manifesta o seu objetivo de estabelecer um diálogo com a sociedade. Temos uma conexão forte com o produtor rural, mas também queremos ouvir o consumidor final.”

Ao longo do ano de 2018, a comunicação da empresa foi focada no público interno, apresentando as mudanças culturais e os valores da nova organização aos funcionários. As ações contemplavam desde de reuniões trimestrais com o presidente da companhia, Roberto Hun, até a criação de uma rede social corporativa na qual até hoje é publicado o que está acontecendo na companhia, com o diferencial de também encorajar os colaboradores a compartilhar o que está acontecendo em suas unidades, tudo em tempo real.

No âmbito da comunicação externa, além da ativação das novas contas nas redes sociais, como Facebook e Instagram, a Corteva também lançou uma campanha de apresentação tanto em mídias especializadas quanto em veículos nacionais de grande circulação, investindo fortemente em branded content. “O branded content nos deu a oportunidade de apresentar a marca de outra maneira, levando conteúdo para o leitor”, explica Isabel, citando ainda a participação em feiras do setor e patrocínios a eventos importantes, como o Congresso Brasileiro das Mulheres do Agronegócio. “Fazer tudo isso exige investimento. Mas é um esforço necessário para apresentar a nova marca”, completa a executiva.

Comunicando para o agronegócio

Atualmente, as empresas de fora do setor talvez sejam as que melhor se comunicam com o público agro no Brasil. Com uma cultura de comunicação enraizada há décadas, tais corporações têm no homem do campo um importante cliente – e por isso não medem esforços para cativar esse público. É o caso da General Motors Mercosul, montadora que figura entre as líderes em vendas de picapes no país e que desenvolve campanhas regulares, tanto de publicidade quanto de comunicação, com foco exclusivo em seus agroconsumidores.

“A Chevrolet é uma marca generalista, com um amplo portfólio de produtos de vários segmentos diferentes, e por isso a gente precisa trabalhar a comunicação de cada um deles de acordo com o perfil do consumidor de cada produto”, afirma Nelson Silveira, diretor de Comunicação da General Motors. “Temos um produto com grande importância nesse segmento, que é a S10, picape líder de vendas no país desde que foi lançada, há mais de 20 anos. Por ser um produto de alto valor agregado, que tem uma margem superior à de outros produtos da nossa linha, consequentemente tem um impacto importante no nosso negócio.”

Apesar de existirem muitas caminhonetes rodando pelos centros urbanos, no Brasil o grosso das vendas ainda é alimentado pelo agronegócio. É preciso, portanto, ter uma comunicação direta com esse consumidor e entender seus desejos. É sabido que o agronegócio evoluiu muito ao longo dos anos e hoje é extremamente tecnológico. O produtor está totalmente conectado, controla seu rebanho ou sua plantação com drones, usa tecnologias por GPS nas máquinas e tablets no gerenciamento do negócio. Esse consumidor certamente não está mais disposto a andar em uma picape espartana como as vendidas no passado.

“Ele usa a tecnologia para trabalhar. Não vai abrir mão dela no seu carro. Por isso, hoje oferecemos conectividade total na S10, como o sistema MyLink, para conectar o celular, ativar comandos por voz, integração ao OneStar, uma central que oferece serviços de emergência, navegação, concierge, e também a um aplicativo que mostra as informações do carro. É uma picape totalmente conectada ao celular e ao computador do usuário”, explica o executivo.

Além da ligação com o lado racional, as ações de comunicação da S10 também apelam ao emocional dos consumidores. Em 2018, por exemplo, a General Motors lançou uma campanha emotiva que celebrava e reconhecia a importância do homem do campo para o Brasil. O filme, veiculado em TV aberta e replicado nas mídias sociais da companhia, narrava os ataques feitos ao agronegócio ao mesmo tempo em que mostrava com belas imagens a vida na fazenda. No final, a frase “É hora de valorizar quem carrega o país nas costas” tocava o coração até dos produtores mais arredios. “O trabalho de comunicação é um conjunto de ações integradas e planejadas de forma estratégica para manter o conhecimento do produto em nível elevado e se conectar com quem vai usar esse produto”, completa Nelson Silveira. Nesse caso, a conexão foi imediata e certamente rendeu muitas vendas.

Os cases relatados ao longo da reportagem provam que a comunicação do agro, apesar de ainda atrasada em relação à de outros segmentos da economia, está no caminho certo. Os exemplos de CitrusBR, Atvos, Bayer, Corteva e GM são uma pequena amostra de como, com disposição e um mínimo de investimento, é possível reverter a imagem negativa do setor perante a sociedade.

“A pesquisa realizada pela Aberje é apenas uma das ações da Associação no sentido de apoiar o agronegócio em uma comunicação mais efetiva. Este levantamento será refeito em dois anos, quando poderemos avaliar com precisão os avanços do setor nessa frente tão importante. Além disso, a entidade também está criando um Lab de Comunicação para o Agronegócio, fórum que tem como objetivo ser um espaço permanente de debates em torno da comunicação no setor, além de promover a troca de experiências com profissionais de outros segmentos e compartilhar os cases de sucesso do agro”, afirma Hamilton dos Santos, diretor geral da Aberje. “Como think tank, a Aberje busca sempre sinalizar o que está à frente e contribuir para o desenvolvimento dos negócios por meio da comunicação.”

 

* Nicholas Vital é jornalista, autor do livro Agradeça aos Agrotóxicos por Estar Vivo e coordenador do Lab de Comunicação para o Agronegócio Aberje