Giovanna Chencci

A Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, foi a primeira realizada na América do Sul. O histórico momento estava cercado de expectativa: a cidade, e consequentemente o Brasil, tinha a “obrigação” de preparar um grande evento à altura do que foi visto em Pequim (2008) e Londres (2012). Além de mostrar excelência no que diz respeito à infraestrutura e à organização, os Jogos Olímpicos do Rio deveriam deixar um legado no mínimo semelhante ao de Pequim e Londres. E eis aqui a questão: tal legado ocorreu de fato? Se não, quais foram os erros? A pesquisa Legado Cultural dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, uma parceria da Universidade de Liverpool, da ECA-USP e da Aberje, se propôs a responder a tais perguntas.

Foto: TIANA CHINELLI; Grupo Votorantim - Memoria Votorantim; 10º Forum Permanente de Gestao do Conhecimento, Comunicacao e Memoria; Beatriz Garcia, pesquisadora da University of Liverpool; Seminario 'Legado Cultural nos Jogos Olimpicos e Paralimpicos', com palestra de Beatriz Garcia (University of Liverpool), seguida de debate da palestrante com Karen Worcman (Museu da Pessoa), Daniela Greeb (Memoria do Esporte Olimpico) e Matthew Shirts (jornalista). O evento foi organizado pelo Memoria Votorantim, em parceria com Aberje, ECA-USP e Museu da Pessoa, e realizado na Faculdade Casper Libero; Sao Paulo - SP; 05/11/2015

Beatriz Garcia, pesquisadora da Universidade de Liverpool

À frente do projeto estava Beatriz García, pesquisadora da Universidade de Liverpool. Beatriz começou a investigar o impacto cultural dos Jogos Olímpicos nas cidades-sede em 2000, em Sydney, na Austrália. Desde então ela esteve presente em todas as edições dos Jogos Olímpicos – de inverno e de verão. Como membro do Comitê de Cultura e Patrimônio do Comitê Olímpico Internacional e chefe de pesquisa do Instituto de Capital Cultural da Universidade de Liverpool, seu objetivo é analisar os Jogos Olímpicos como oportunidade de mudanças culturais e sociais nas cidades-sede.

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Paulo Nassar, professor titular da ECA-USP

A pesquisa foi financiada pelo Newton Fund, uma iniciativa do governo britânico que visa a promover o desenvolvimento social e econômico dos países parceiros, por meio de pesquisa, ciência e tecnologia. Na edição de 2016, Beatriz contou com a parceria da Universidade de São Paulo. O projeto foi coordenado por Paulo Nassar, professor titular da ECA-USP, com apoio dos pesquisadores Tato Carbonaro e Cínthia Leone.

Cínthia-Leone

Cínthia Leone, pesquisadora da ECA-USP

 

Tato Carbonaro, pesquisador da ECA-USP

Tato Carbonaro, pesquisador da ECA-USP

A partir de um estudo do desempenho do evento na opinião pública do Brasil e do Reino Unido, a pesquisa investigou o legado cultural dos Jogos no Rio de Janeiro e o impacto causado na imagem da cidade. Para isso, foi feita uma análise de mídia nos dois países em 2009, 2015, 2016 e 2017. Levou-se em conta os seguintes pontos: temas mais explorados pela imprensa; características do veículo de comunicação e de cada artigo publicado nele; forma como o assunto foi abordado (positiva, negativa ou neutra); possíveis impactos para a reputação das Olimpíadas, da cidade-sede e do Brasil e as experiências culturais propiciadas por megaeventos esportivos como os Jogos Olímpicos.

Depois da análise de 331 reportagens publicadas em revistas e jornais brasileiros e 144 na imprensa britânica, o resultado da pesquisa foi: o Brasil e o Rio de Janeiro perderam uma grande oportunidade – que foram os Jogos Olímpicos – de discutir questões simbólicas e culturais do país, a sua identidade e também para mudar narrativas que até hoje são baseadas em estereótipos. Em sua maioria, as reportagens da mídia brasileira relacionavam os Jogos a problemas de infraestrutura no Rio de Janeiro e casos de corrupção envolvendo agentes ligados à organização do evento e políticos brasileiros. As reportagens na mídia britânica, por sua vez, tinham um caráter mais neutro.

Os resultados mostravam ainda que não havia uma política cultural muito bem estruturada para a Rio 2016. De acordo com Beatriz García, um programa cultural deve ser criado pela organização dos Jogos Olímpicos a fim de que integre esportes, cultura e educação, fazendo com que o legado cultural ganhe força na imprensa e no imaginário popular, reforçando a ideia de que o evento como um todo traz benefícios para a cidade e o país anfitrião. No caso da edição de 2016, segundo a pesquisa, não houve uma boa estratégia de comunicação que explicasse a importância dos Jogos Olímpicos não só no âmbito esportivo, como também no âmbito cultural.

Boulevard Olímpico, no centro do Rio de Janeiro

Boulevard Olímpico, no centro do Rio de Janeiro

Para apresentar os resultados do projeto ao público, foram organizados dois eventos: um em São Paulo, no dia 15 de setembro, e outro no Rio de Janeiro, no dia 17 de setembro. Nas apresentações, o professor Paulo Nassar e a professora Beatriz García discorreram sobre as narrativas que envolveram a Rio 2016, a marca Rio e o legado cultural, e analisaram as conclusões a que o grupo de pesquisa chegou sobre a impressão, a partir da mídia, que os Jogos Olímpicos do Rio deixaram no imaginário da população.

Nassar destacou a presença das contranarrativas que envolveram o evento e que, ao final, acabaram dando um aspecto negativo à sua imagem, como os casos de violência, corrupção e desorganização. “É muito importante que nós, comunicadores, comecemos a sensibilizar a gestão, a pensar estrategicamente para que qualquer tipo de contranarrativa ruim seja neutralizada; porque isso ocorrerá, independentemente da cidade”, afirmou. Ele também lembrou que a cultura é muito importante para tornar uma cidade mais atrativa do ponto de vista global, angariando, assim, mais recursos que ajudarão em seu desenvolvimento e, consequentemente, alavancando-a a um lugar dentro do mercado mundial de marcas de cidade.

Já Beatriz salientou que grandes eventos como os Jogos Olímpicos sempre geram controvérsias devido às complexidades que os envolvem. “Não é branco ou preto, de modo que definir um dos lados requer observar mais do que pequenos detalhes. Para ela, a partir da observação e da pesquisa realizada, é possível consolidar uma narrativa e chegar a uma conclusão de fato.”

Em São Paulo, o evento contou com a presença de David Grinberg, diretor de comunicação corporativa do McDonald’s no Brasil; Maria Ignez Mantovani Franco, diretora da Expomus e presidente do ICOM Brasil; Mário Henrique Costa Mazzilli, diretor-superintendente do Instituto CPFL; e Ricardo Sennes, coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP e sócio-diretor da consultoria Prospectiva.

No Rio de Janeiro, participaram Mirka Schreck, gerente de comunicação interna da Vale; Roberto DaMatta, professor da PUC, antropólogo e conselheiro consultivo da Aberje; Rafael Veras, gerente de comunicação do Grupo IDG e responsável pela gestão e operação do Museu do Amanhã; Patricia Cerqueira Reis, diretora da Hod Comunicação de Marcas, professora da graduação, pós-graduação e EAD e pesquisadora da ESPM; Hamilton dos Santos, diretor geral da Aberje; Cínthia Leone; pesquisadora da USP; e Tato Carbonaro, gestor de relações institucionais e internacionais da Aberje e pesquisador da USP.