Fernão Silveira*

Vinte anos atrás, falar de sustentabilidade ainda era um diferencial. Quem se preocupava com o assunto estava à frente da curva, criando tendências e lidando com discussões que não eram muito conhecidas do público e da imprensa.

Hoje, sustentabilidade é um imperativo de negócio. Independentemente de qual seja a área ou o público, se o consumidor final ou outras empresas, todo o setor produtivo precisa ter essa preocupação. As legislações estaduais e federais evoluíram e se tornaram mais rígidas e rigorosas. No entanto, uma companhia séria se preocupa em ser sustentável não só para seguir as leis, mas para atender às suas próprias demandas e ao interesse do consumidor de entender melhor a marca, de saber como ela trabalha e como lida com uma série de aspectos, desde a forma como trata a mão de obra até a preocupação com a procedência dos insumos e com outros impactos que a atividade possa ter. Claro que nem todos os públicos possuem essa percepção, entendimento ou apetite para questões de sustentabilidade, mas o assunto já deve fazer parte da estratégia da maioria das empresas.

Com o tempo, o tema ganhou nuances, cores e abrangências; no entanto, a melhor definição de sustentabilidade continua sendo a criada, no começo dos anos 1990, pelo sociólogo e consultor britânico John Elkington, que inventou o conceito de triple bottom line, ou o tripé sustentado pelo planeta, pelas pessoas e pelo lucro.

Muita gente hoje encara esse conceito como ultrapassado; porém, ele continua simples, acessível, objetivo e muito abrangente. A diversidade, por exemplo, está ligada às pessoas; a política de dividendos responsável, ao lucro; e a gestão ambiental, ao planeta. Todas as preocupações relacionadas à sustentabilidade cabem nessa definição de Elkington. E as empresas responsáveis trabalham e pensam os assuntos da sustentabilidade olhando o tempo todo para esses três aspectos.

Uma questão que sempre causa desconforto quando falamos de sustentabilidade é o lucro. Muita gente critica, negligencia ou simplesmente não gosta de discutir o assunto. No entanto, ele é fundamental porque vivemos em um mundo no qual a gestão financeira precisa ser forte para que, além de preservar o negócio, seja possível remunerar bem as pessoas, pagar os impostos e gerar um ciclo virtuoso em torno das comunidades alcançadas e de outros stakeholders. O mundo empresarial não deveria ter vergonha de falar em lucro, já que ele impulsiona uma série de investimentos importantes para a sustentabilidade.

Na FCA, por exemplo, lidamos de uma maneira muito prática com essa questão. As metas vão da diretoria ao chão de fábrica. Todos os diretores il da América Latina possuem objetivos de bônus ligados à sustentabilidade. Nessas pautas estão incluídas soluções de diversidade, de inclusão e de outros assuntos relacionados aos recursos humanos ou que tenham ligação com a mão de obra.

Já para os funcionários de diferentes níveis e do chão de fábrica, que lidam diretamente com os resíduos, com a energia e com a água, a abordagem passa pela conscientização. Assim, eles podem trabalhar com o manejo desses recursos de forma adequada e responsável.

Em geral, uma das grandes dificuldades é sair do discurso e partir para a prática, o que é possível com ações focadas. Na FCA, foi criado um comitê que integra todas as diretorias da empresa na América Latina. Nele são discutidas diretrizes e metas claras, depois atribuídas às diferentes áreas. Seus representantes, verdadeiros guerreiros da sustentabilidade, ficam responsáveis por colocálas em ação e garantir que o trabalho seja executado com boas práticas, além de gerar indicadores positivos para o relatório de sustentabilidade.

Um problema enfrentado, principalmente por empresas de manufatura, é o desempenho ambiental das fábricas, em especial no que diz respeito ao uso de recursos hídricos e ao descarte de produtos. A FCA trabalhou muito para resolver essas questões. Hoje, se considerarmos a água usada nas plantas industriais, mais de 97% é reciclada e gira dentro do processo produtivo, sem que seja preciso coletar de fora. Recebemos inclusive um prêmio da Agência Nacional de Águas de melhor gestão de recursos hídricos da indústria que foi motivo de orgulho para todos os funcionários da empresa.

Outro ponto que atraiu a atenção da companhia foi a gestão dos resíduos sólidos. A FCA tem uma operação de resíduo zero há cinco anos. Na fábrica de Betim, por exemplo, trabalhamos com o conceito de ilha de reciclagem, no qual todos os resíduos gerados ou embalagens de fora são processados e reciclados ou destinados para os sistemas públicos.

O antigo conceito de cidadania corporativa evoluiu da questão assistencialista para a participação ativa no contexto econômico, social e cultural em que a empresa está inserida. É importante ter uma preocupação em fazer parte do tecido das comunidades, descobrir o que a sociedade precisa, manter um diálogo com esses stakeholders para aprender como contribuir de fato. As empresas podem e devem ter um papel ativo em levantar e discutir com a sociedade pontos relacionados à sustentabilidade.

O assunto está na moda, mas nem sempre é acessível para todos ou bem compreendido, o que torna a comunicação e a discussão dos temas ainda mais importantes. Uma das maneiras de fazer isso é a construção de narrativas nas quais as pessoas que estão integradas na estratégia de sustentabilidade ajudem a contar as histórias. Desse modo, o discurso ganha legitimidade, porque quem está na trincheira, matando um leão por dia, é que vai trabalhar com esses valores e ajudar a disseminá-los, seja no trabalho ou fora dele, como um embaixador das mensagens de sustentabilidade.

Esses são exemplos de como é possível lidar de maneira responsável com os diversos assuntos do desenvolvimento sustentável em uma grande empresa e mostram que essa não é uma moda passageira. Não importa o que aconteça no Brasil e no mundo, mesmo que exista uma corrente de governos que não dão o adequado valor à administração da sustentabilidade, as grandes corporações e as companhias responsáveis já internalizaram esses temas, e a discussão vem evoluindo. As empresas entenderam sua importância, independentemente da corrente política mundial do momento.

 

* Fernão Silveira é diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade para a América Latina da Fiat Chrysler Automobiles (FCA)