Alvaro Bodas

 

Todos os anos, no dia 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Neste ano, mostras de cinema, exposições, eventos e debates sobre a emancipação feminina, as conquistas das últimas décadas e as condições de igualdade no mercado de trabalho marcaram a data em nosso país.

Mas há algo a comemorar? Iniciativas como as citadas acima apontam que sim, mas ao mesmo tempo revelam que há muito por fazer e que políticas de inclusão ainda são necessárias. As mulheres conquistaram uma parcela significativa do mercado de trabalho nas últimas décadas, mas os resquícios de uma sociedade patriarcal ainda ecoam entre nós. Hoje, o número de mulheres nas faculdades, universidades, estágios e programas de trainee é superior ao de homens (elas ocupam 58% das cadeiras no ensino superior). Entretanto, com o passar do tempo e o avanço na carreira, a proporção de homens cresce à medida que elas perdem espaço. “Isso mostra que as mulheres são preteridas no momento de ocupar cargos mais altos não por incompetência, mas por preconceito, machismo ou líderes que simplesmente preferem homens em cargos de chefia”, diz a jornalista e escritora Joyce Moysés, uma das participantes do Dia da Mulher Aberje. O evento reuniu na sede da associação, no dia 8 de março, inúmeros profissionais para discutir a situação da mulher no Brasil e como incentivar o empoderamento feminino.

Pamela Vaiano, da Johnson & Johnson Medical Devices no Brasil

Pamela Vaiano, da Johnson & Johnson Medical Devices no Brasil

Outra causa da desigualdade é a famosa “jornada dupla”: as latino-americanas dedicam em média 26,6 horas semanais aos afazeres do lar, contra apenas 10,6 dos homens. O resultado é que as mulheres ocupam hoje no Brasil apenas 3,9% dos cargos de presidente executivo, 18% dos cargos de direção e 7,7% das posições em conselhos administrativos. Em 57% das empresas não há mulheres em posições de liderança, e elas ganham, em média, 30% menos que os homens que exercem as mesmas funções.

 

Elas aumentam o faturamento

O extenso e aprofundado estudo “Women Matter: a Latin American Perspective”, feito pela McKinsey & Company em 2013 envolvendo seis países da América Latina com 345 grandes empresas revelou que as companhias com uma ou mais mulheres em seus comitês executivos apresentaram rentabilidade e Ebitda 45% mais altos do que as que tinham apenas homens nos comitês. Ficou claro que a presença feminina em cargos de liderança melhora a performance das equipes, pois elas tendem a estimular o desenvolvimento das pessoas e as decisões participativas. O estudo mostrou também que elas entendem melhor o comportamento do consumidor, já que são responsáveis por 80% das decisões de compra. “Quando você tem um grupo formado por pessoas com perfis, opiniões e visões diferentes, a cultura empresarial fica mais rica”, diz Pamela Vaiano, líder de Comunicação e Public Affairs da Johnson & Johnson Medical Devices no Brasil. “A mulher complementa a visão masculina.”

Um ambiente de trabalho inclusivo e diverso estimula a criatividade e favorece a inovação. Na PepsiCo, que tem 42% de mulheres ocupando cargos de liderança, além de programas de apoio à maternidade e mentoria, em todo processo seletivo a empresa prevê um número igual de candidatos homens e mulheres. “Como o objetivo é proporcionar as mesmas oportunidades para todos, os programas de diversidade e igualdade de gênero são muito bem vistos pelos funcionários, sejam homens ou mulheres”, afirma Regina Teixeira, diretora de Assuntos Corporativos da PepsiCo Brasil.

Regina Teixeira, da Pepsico Brasil

Regina Teixeira, da Pepsico Brasil

 

Como equilibrar o jogo

No ritmo atual, as mulheres ocupariam 51% dos cargos de diretoria executiva do Brasil, a contar com a proporção delas na população, somente em 2126. O caminho para superar a desigualdade, portanto, passa por uma mudança de visão dos dirigentes das empresas, das áreas de RH e também das próprias mulheres. E o papel dos homens é vital, já que são eles, muitas vezes, que ocupam os cargos de liderança e tomam as decisões. “Temos que assumir a causa e abrir caminho para corrigir essa distorção histórica. Caso contrário, vai ser ainda mais difícil para elas ocuparem seu merecido espaço no mercado de trabalho e na sociedade”, defende Hélio Muniz, diretor de Comunicação da Avon.

Formar grupos de discussão, incentivar programas de conscientização e flexibilização de horários são algumas das iniciativas que as empresas estão implantando em prol da equidade. Na IBM, onde as mulheres representam 30% do quadro e ocupam 26% dos cargos de liderança (dados globais), existem comunidades de funcionários que se reúnem para discutir carreira e desenvolvimento para grupos minoritários, inclusive mulheres. A empresa possui programas de conscientização sobre igualdade de gênero, diversidade e bullying em escolas, faz parte da Aliança para o Empoderamento da Mulher e é signatária dos Sete Princípios de Empoderamento das Mulheres, criado pela ONU Mulheres (veja box). Ainda assim, Adriana Ferreira, líder de Diversidade e Inclusão da IBM Brasil, pondera: “Ainda há muito a fazer, não só na IBM, mas na maioria das empresas, onde às vezes acredita-se que o problema não existe. No ano passado conseguimos mais de 1000 assinaturas de homens para a campanha HeForShe (veja box), que estamos divulgando internamente. Sem o engajamento deles, a conquista da equidade ficaria muito mais difícil”.

A Unilever, que também é signatária global do HeForShe e participa da Associação Movimento Mulher 360, permite flexibilidade de horários e tem programas de home office, além de berçário no local de trabalho voltado para mães e pais. “Entendemos que esse é um tema chave não só internamente, mas em toda a sociedade, e que podemos fomentá-lo em diferentes esferas. Por isso implantamos ações como Programa Ciclo Brilhante e Dove Projeto pela Autoestima, iniciativas lideradas pelas nossas marcas”, conta Antonio Calcagnotto, head de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da Unilever Brasil. Pelas suas iniciativas, a empresa foi a grande vencedora do “Prêmio WEPs Brasil 2016 – Empresas Empoderando Mulheres”, e dividiu com a Renault Brasil o ouro na categoria empresas de grande porte.

 

Igualdade desde o século XIX

Cofundadora do Movimento Mulher 360 e signatária dos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU, a Johnson & Johnson estimula a diversidade por meio de coaching, networking, sensibilização de gestores e recrutadores, treinamentos, licença-maternidade e paternidade estendidas e home office, entre outras iniciativas. Hoje, elas são 66% dos trainees selecionados, mas a igualdade de gêneros sempre foi prioridade na empresa, que foi fundada nos EUA em 1886 com 14 colaboradores, sendo 8 mulheres. Atualmente, no Brasil, 44% dos funcionários são mulheres, e em cargos de liderança elas respondem por 37%. “Acreditamos que a desigualdade tem várias causas, entre elas as barreiras culturais, a jornada dupla das mulheres e as próprias chefias, que acreditam que, a partir de um certo grau hierárquico, elas não se dedicariam tanto à empresa quanto o homem”, diz Pamela Vaiano. “Além disso, a exigência das mulheres consigo mesmas é maior.”

Por esses motivos, os programas e ações afirmativas ainda são necessários para reequilibrar o ambiente corporativo. A Procter & Gamble Brasil, onde 36% da diretoria é feminina, ampliou em 60 dias a licença-maternidade e tem programas que permitem que as funcionárias conciliem os cuidados com o bebê com a carreira. A empresa oferece ainda programas de coaching específicos para o público feminino, nos quais as líderes são mentoras de gerentes mais jovens. Poliana Sousa, diretora de Marketing, Comunicação e Mídia da P&G Brasil, conta que a área de comunicação promove um ambiente aberto de reflexão, baseado na tolerância e na importância da equidade, por meio de grupos de discussão e ações como mentorias, educação e melhores práticas.

Antonio Calcagnotto, da Unilever Brasil

Antonio Calcagnotto, da Unilever Brasil

Comunicar é poder

Está claro que a comunicação é a grande parceira para promover a equidade de gêneros, incorporando e difundindo a cultura da inclusão e da diversidade entre os colaboradores. Mas como ela pode contribuir mais efetivamente na prática? “A área deve tomar a iniciativa porque ajuda a transformar essas necessidades em algo acessível e interessante aos funcionários e demais stakeholders. No caso da Unilever, que tem mais de 13 mil funcionários no Brasil, a comunicação acaba sendo o canal de alinhamento”, afirma Antonio Calcagnotto. Para Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, “o papel das áreas de comunicação corporativa é mobilizar a sociedade, divulgar as iniciativas e fazer chegar ao governo as questões de inclusão e diversidade”. Outro desafio é descobrir novas plataformas para falar com o público. “Temos que encontrar, dentre todos os canais disponíveis hoje (e-mails, redes sociais, WhatsApp, intranet, mural), o mais adequado ou algum novo que seja mais eficiente, para a mensagem não se perder em meio à tanta informação”, diz Adriana Ferreira.

O que é preciso fazer para atingir a equidade de gêneros antes de 2126? Como corrigir uma desigualdade que até hoje se reflete em nossa vida pessoal e profissional? Adriana sugere: “Para termos um mundo com mais equidade no futuro, precisamos pensar em como estamos educando nossos filhos. Para superar o machismo, as políticas ‘heteronormativas’ e a desigualdade, temos que ir além do corporativo e levar essa discussão para as escolas”. Uma missão para os comunicadores.

 

Empodere-se!

Livro

Dicas de mulheres inspiradoras que estão no comando de sua carreira (Ed. Leader)

Um time de peso formado por Luiza Trajano, Chieko Aoki, Sônia Hess e Constanza Pascolato, entre outras, divide com os leitores os segredos da liderança feminina nos negócios e prova que a sensibilidade feminina faz a diferença no mercado de trabalho.

Sites

www.onumulheres.org.br

Entidade das Nações Unidas que apoia os estados-membros da ONU por meio da formulação de leis, políticas, programas e serviços em prol da igualdade de gênero e empoderamento das mulheres.

www.movimentomulher360.com.br

Fruto da parceria entre 12 grandes empresas, o projeto está alinhado aos Sete Princípios de Empoderamento da ONU Mulheres. Procura incorporar a questão feminina na estratégia de negócio das corporações e identificar boas práticas que possam ser replicadas.

www.heforshe.org

Lançada em setembro de 2014, a iniciativa estimula a participação dos homens como defensores e agentes de mudança rumo à igualdade de gênero e já está mobilizando apoiadores em vários países, inclusive no Brasil.

www.grupomulheresdobrasil.com.br

Formado em outubro de 2013, o grupo visa discutir temas ligados ao país e é formado por mulheres líderes de vários segmentos, que têm o propósito de serem protagonistas na construção de um país melhor.

www.planofeminino.com.br

Criado pela jornalista Viviane Duarte no dia 8 de março de 2010, o site promove um novo jeito de fazer conteúdo para a mulher, deixando de lado os estereótipos e focando o protagonismo e o empoderamento feminino.

www.thinkolga.com

Com foco em direito das mulheres, a ONG Think Olga foi fundada pela jornalista Juliana de Faria, criadora das campanhas “Chega de fiu fiu” e “Primeiro assédio”, que combatem o assédio sexual e viralizaram nas redes sociais.

 

 

Princípios de Empoderamento das Mulheres

Ciente do papel das empresas para o crescimento das economias e para o desenvolvimento humano, a ONU Mulheres e o Pacto Global criaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres, conjunto de diretrizes que ajuda as empresas a incorporar valores e práticas que visem à equidade de gênero. São sete princípios:

  1. Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível.
  2. Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não discriminação.
  3. Garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa.
  4. Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.
  5. Apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing.
  6. Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.
  7. Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.