Andrea Martins

 

Além de pratos saborosos da culinária orgânica, o chef de cozinha Renato Caleffi se dedica à produção de um item inusitado para a sua profissão: artigos para o blog do restaurante Le Manjue Organique, na zona Sul de São Paulo. Sócio do estabelecimento – ao lado do empresário Bruno Fattori, do publicitário Rodrigo Rivellino e do ator Bruno Gagliasso –, o chef investe tempo e dedicação para falar sobre os benefícios de uma alimentação saudável na plataforma on-line do restaurante.

O Chef Renato Caleffi, do restaurante Le Manjue Organique

O Chef Renato Caleffi, do restaurante Le Manjue Organique

“Os artigos dão credibilidade ao nosso trabalho”, diz Caleffi. “Quebramos o estereótipo de que comida saudável é insossa. A comunicação também gera negócios, como palestras e jantares.” A atualização do blog e das redes sociais é feita duas vezes por semana pelo gerente de marketing, Gustavo Guzzardi. Só no Instagram são 57 mil seguidores. Uma newsletter semanal com os textos do blog também é enviada por e-mail para os assinantes. “Quando começamos, há oito meses, tínhamos 100 cadastrados. Atualmente, são 1,7 mil”, comemora Guzzardi.

O gerente de Marketing, Gustavo Guzzardi, do Le Manjue Organique

O gerente de Marketing, Gustavo Guzzardi, do Le Manjue Organique

Nesse processo, o restaurante também contratou a Agência Tao, de porte médio, especializada no mercado de alimentos e food service, para falar com a imprensa e formadores de opinião. “O Le Manjue dá o mesmo trabalho que uma grande marca, pois tem muitas vertentes a serem construídas: o restaurante, o chef, a ganache de chocolate que fabricam”, Monique Paoletti, sócia-diretora da Tao. “Tivemos ótimos resultados com a imprensa, pois os jornalistas buscam histórias reais.”

Assim como no restaurante Le Manjue, trabalhar com a comunicação de pequenas empresas é um desafio para profissionais de assessoria de imprensa, veículos de mídia e agências de publicidade. As micro e pequenas empresas (MPEs) representam 99% dos CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) do país, 68% da força de trabalho contratada e 25% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo informações do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo).

As microempresas (ME) faturam de R$ 60 mil a R$ 360 mil por ano. As empresas de pequeno porte (EPP) vão de R$ 360 mil a R$ 3,6 milhões anuais. Só no estado de São Paulo foram abertas, nos últimos 12 meses, cerca de 200 mil EPPs e MEs, conforme dados da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp). “É um volume gigantesco, mas pulverizado”, lembra Eduardo Pugnali, gerente da Unidade de Inteligência de Mercado do Sebrae-SP. E mesmo com esses índices econômicos representativos e de importância estratégica do setor, as empresas de pequeno porte ainda não despertaram a atenção de agências de comunicação e relações públicas, de publicidade e até mesmo dos anunciantes, segundo Pugnali.

Eduardo Pugnali, do Sebrae-SP

Eduardo Pugnali, do Sebrae-SP

A pesquisa “Veículos de comunicação: onde os empreendedores buscam informação?”, do Sebrae-SP, revela que os empreendedores constituem um expressivo segmento consumidor de conteúdo e, consequentemente, de produtos e serviços que poderiam ser melhor aproveitados – desde que feito um trabalho com o direcionamento correto. “Vivemos um período onde donos de pequenos negócios têm a oportunidade de construir e conversar com sua audiência no universo digital”, diz Pugnali. “O que as agências e anunciantes ainda não perceberam é que há um vasto campo para falar com os donos de micro e pequenas empresas – e atuar mais próximo deles. Campanhas criativas, voltadas para este segmento, têm grandes chances de adesão.”

Segundo ele, as assessorias de imprensa e agências de relações públicas podem oferecer soluções de comunicação mais acessíveis para os pequenos negócios: “Por que não criar soluções modulares ou combos? Por que não fazer comunicação compartilhada para os mesmos segmentos? Já vimos soluções de CRM, e-mail marketing, SMS, softwares e gestão de dados. Mas ainda não tem conteúdo”.

No entanto, algumas exceções fogem à rotina. É o caso da agência MAM, montada há 6 meses. É uma “butique de comunicação” que atende 12 clientes e influenciadores digitais. São empresas na área de beleza, fotografia, arquitetura e educação. “O desafio de trabalhar com pequenas empresas é maior, pois temos de ser mais criativos”, diz Mariana Franceschinelli, sócia-proprietária da MAM. “Precisamos provar que é uma oportunidade para o jornalista. Buscamos onde estão as oportunidades para os clientes: eventos, blogs, influenciadores da região onde eles atuam. Vendemos relacionamento.”

Entre os clientes está a Escola Design Thinking, que oferece cursos de inovação em São Paulo. A empresa, que trabalhava sua comunicação no meio digital (alimentando o blog e as redes sociais e enviando newsletters por meio de uma coordenadora de comunicação interna, auxiliada por um designer e um estagiário), contratou, há três meses, a agência de comunicação para ampliar a visibilidade. “Estamos inseridos no ‘mundinho’ da inovação – startups, movimento maker e grandes corporações. Decidimos ultrapassar essa barreira para crescer e atingir um público diferente”, afirma Juliana Proserpio, sócia-cofundadora da Design Thinking. “A assessoria tem essa sensibilidade, e uma maneira de traduzir nossos assuntos para o público leigo.”

Juliana Proserpio, da Design Thinking

Juliana Proserpio, da Design Thinking

A estratégia pretende também ampliar o negócio e atingir mais pessoas com a abordagem da inovação. O investimento em comunicação coincide com o crescimento da empresa. Apesar da crise econômica no país, o setor de educação ganhou destaque, segundo Juliana, porque os profissionais estão repensando suas carreiras e saindo da zona de conforto. “Em 2015, dobramos em faturamento e tamanho”, afirma. “Este ano vamos dobrar novamente o faturamento e triplicar nosso espaço físico para 600 metros quadrados, em uma nova sede.”

Outra novidade é a abertura de uma unidade na Austrália no primeiro trimestre. “O mercado australiano está pedindo inovação. Vamos começar com a escola e depois com a consultoria. O brasileiro sempre foi muito criativo. Por que não ser inovador?”

 

Era digital

 

As redes sociais podem ser uma boa saída para que os empreendedores alavanquem seus produtos e serviços. É cada vez maior o número de micro e pequenas empresas com plataformas digitais de negócios, seja um site de e-commerce ou uma fan page – ou ambos. O meio digital democratizou o acesso dos negócios de pequeno porte à comunicação, pois agora não é mais preciso desembolsar grandes quantias na compra de mídia ou na contratação de grandes agências.

O escritório de arquitetura e decoração de interiores Biarari & Rodrigues investe na divulgação de conteúdo no Facebook e Instagram para ganhar destaque no mercado competitivo da região do ABC, na Grande São Paulo (SP). O arquiteto Marcos Biarari é o responsável por alimentar as mídias sociais duas vezes por semana, com dicas de decoração e projetos. “Sou um produtor de conteúdo e gostaria até de ampliar mais a abordagem para falar de estilo de vida”, explica Biarari. “As redes sociais trazem clientes e geram negócios.” Já o contato com os jornalistas é feito por meio da assessoria Coev Comunicação, especializada em arquitetura e decoração.”

Marcos Biarari, do Biarari & Rodrigues

Marcos Biarari, do Biarari & Rodrigues

Para Pugnali, do Sebrae-SP, a popularização dos smartphones turbinou a visibilidade das redes sociais. E isso tem o poder de ampliar exponencialmente a aproximação entre os empresários, seus consumidores e potenciais clientes por meio de conteúdos bem trabalhados e posicionamentos bem-feitos. “O que falta, na realidade, é unir as pontas de pequenas e médias agências e dos empreendedores de comércio, indústria e serviços”, diz. “Garanto que há mercado para essas iniciativas no universo dos pequenos e médios negócios.”

 

 

Faça você mesmo

Gerar conteúdo para redes sociais e impactar jornalistas e formadores de opinião é difícil para uma empresa pequena, sem suporte de uma agência de comunicação. Para suprir essa demanda, existe um curso, criado nos Estados Unidos e disponível on-line para auxiliar os empreendedores. O “PR for Anyone” (relações públicas para todos) foi desenvolvido pela empreendedora e expert em publicidade, Christina Daves, a partir da própria experiência divulgando sua empresa de botas médicas customizadas. A empresária também escreveu um livro sobre o tema (ainda sem publicação no Brasil), em que revela mais de 100 dicas para ganhar exposição gratuita na mídia”.

O curso digital de Christina tem 15 módulos, com temas que abordam criação de marca, blogs, mídias sociais, revistas, jornais, rádios e TVs, entre outros assuntos. Três módulos de treinamento complementam o material. O custo é de aproximadamente US$ 2 mil (mais de R$ 8 mil) e o material, em inglês, pode ser acessado no site yourpracademy.com/pr-university.

No Brasil, experiências similares ainda são raras. Para auxiliar as pequenas empresas nessa área, o Sebrae está começando a planejar cursos livres para preparar os empreendedores e ensiná-los a contratar empresas de comunicação e serviços, além de encontrar fornecedores. Os cursos devem ser implementados neste ano.