Dorrit Harazim*

No arretado ano de 1968, a jovem Doris Kearns, então com 24 anos, fazia pós-graduação em Harvard e militava contra a Guerra do Vietnã quando recebeu a notícia de que fora aceita para estagiar na Casa Branca. Oportunidade esplêndida, exceto que logo na primeira semana de iniciação ela teve a certeza de que seria dispensada. Um artigo que escrevera tempos antes, intitulado “Como remover Lyndon Baines Johnson do poder”, acabara de ser publicado.

Lyndon Baines Johnson (ou LBJ) era o 36º presidente dos Estados Unidos, catapultado ao poder cinco anos antes, após o assassinato de John F. Kennedy, de quem fora vice. Naquele ano de 1968, ele cogitava tentar a reeleição, apesar de o país estar atolado na guerra que ceifava toda uma geração – a de Doris. Mas a estagiária não foi demitida. Não apenas ela concluiu o programa na Casa Branca, como posteriormente ajudou o ex-ocupante da Casa Branca a escrever suas memórias. À época Johnson reagira à publicação do artigo com um comentário típico do político que foi: “Se eu não conseguir convencê-la do meu ponto de vista, ninguém conseguirá”. Não conseguiu. Tampouco tentou a reeleição.

Sucessor de Kenedy, Lyndon B. Johnson assinou a legislação dos Direitos Civis

Doris Kearns Goodwin acabou tornando-se referência mundial como biógrafa de presidentes e historiadora da Presidência dos Estados Unidos. Seu livro mais recente, Leadership in Turbulent Times (Simon & Schuster), chegou às livrarias dois meses atrás. Apesar de focar em figuras do passado, o estudo tem grande serventia para candidatos à história presente e futura de qualquer país. Nele a autora revisita quatro presidentes sobre os quais já escrevera densos volumes (Abraham Lincoln, Teddy Roosevelt, Franklin D. Roosevelt e LBJ), mas com foco estreito no fator liderança.

Entre os atributos comuns aos quatro analisados está a habilidade de se cercar de conselheiros seguros, desafiadores, que argumentam, debatem e discutem até a tomada de decisão pelo presidente, e que então se mobilizam em torno da ideia mestra. Soa banal? Não é. Ninguém nasce líder, você se torna um, ou não, independentemente de ter sido vitorioso nas urnas. Tornar-se um grande líder em tempos de crise continua sendo o que tantos desejam e tão poucos conseguem – tão mais complexo do que o mero exercício do poder.

Em entrevista recente ao site Daily Beast, a autora lista algumas ferramentas comuns ao quarteto que estudou: curiosidade intelectual, uso da inteligência emocional, capacidade de “encontrar tempo para pensar”, habilidade de crescer com erros. Todos foram confrontados com desafios de vulto e haviam passado por adversidades consideráveis: Lincoln convivia com depressão; Franklin Roosevelt, com poliomielite; Teddy Roosevelt perdera a mãe e a mulher no mesmo dia de 1884; LBJ amargara uma derrota política precoce.

Abraham Lincoln em retrato em 1864: sua liderança permitiu aos Estados permanecer Unidos

Kearns Goodwin acredita que Kennedy não teria conseguido fazer passar a histórica legislação dos Direitos Civis assinada por LBJ, assim como William McKinley não teve a compreensão de Teddy Roosevelt para a revolução industrial que batera à porta do seu mundo. Compreender para além do próprio horizonte ajuda na arte de liderar.

Ser capaz de uma exploração interior ou readquirir fôlego fora da bolha do poder também: Lincoln assistiu a uma centena de peças de teatro em plena Guerra Civil (descontando a que lhe foi fatal), e Franklin Roosevelt manteve sua happy hour diária com os conselheiros mais próximos durante toda a Segunda Guerra, com a proibição de se falar do conflito. Neste quesito a exceção foi LBJ. Sua ideia de relaxamento consistia no máximo em entrar na piscina de seu rancho texano e sentar numa boia, telefone, bloco de anotações e caneta ao alcance das mãos.

Teddy Roosevelt a bordo do USS Mayflower em 1906

Hoje em dia a historiadora costuma ser consultada por CEOs e líderes empresariais desejosos de aprender como presidentes tomam decisões e exercem liderança. E uma das perguntas que lhe fazem com frequência é prosaica: o que faziam aquelas grandes figuras nacionais para combater a insônia em tempos graves e de pressões constantes? Lincoln lia comédias de Shakespeare, Teddy punha-se a escrever cartas, FDR se imaginava criança sem poliomielite, responde a autora.

Em uma dessas ocasiões, Kearns Goodwin devolveu a pergunta ao CEO. Quis saber como ele conseguia dormir. “Tomo Ambien”, ouviu. Ela conclui que presidentes da nação com cabeça de CEO têm tudo para não dar certo.

Franklin D. Roosevelt assina declaração de guerra dos Estados Unidos ao Japão em 1941

 

Um relato magistral

Fabio Caldas**

Focado no aprendizado e no exercício de liderança dos protagonistas, que representam o melhor da tradição democrática norte-americana, o relato de Doris Kearns Goodwin estrutura-se em três grandes aspectos: 1) o surgimento da ambição de liderar – em um sentido positivo, embora em alguns poucos momentos a autora deixe de aprofundar mais alguns poucos aspectos eticamente discutíveis – e o reconhecimento das próprias capacidades para fazê-lo; 2) a superação de fortes adversidades e o fortalecimento das habilidades de liderança; e, 3) finalmente na Casa Branca, como exerceram essas habilidades nos momentos cruciais em que foram testadas no limite.

Lincoln, e sua liderança “transformacional”, permitiu aos Estados permanecer Unidos após a abolição da escravidão e a vitória do Norte na Guerra Civil. Theodore, em tempos de avanço das ideias marxistas, geriu a crise ocasionada pela greve dos trabalhadores de carvão e restaurou o equilíbrio à vida socioeconômica americana pós-Revolução Industrial. FDR liderou o “turnaround” do New Deal pós-Grande Recessão. LBJ, com sua visão sobre a Grande Sociedade, assumiu o poder após a morte de John F. Kennedy e conduziu o país durante a Guerra do Vietnã e os distúrbios domésticos, especialmente envolvendo a questão racial, e levou o país ao maior desenvolvimento dos direitos civis de sua história.

Além da sua direta colaboração para melhor compreender (e entristecer-se com) o momento atual do Brasil e do mundo, o livro traz um profundo estudo psicológico e humano dos protagonistas. É magistral a forma como descreve a infância, a adolescência e a juventude e introduz familiares e mentores que influenciaram na formação pessoal e política dos quatro presidentes. A conexão descritiva mantida pela autora ao longo do texto com tais fatores ajuda a elaborar um retrato detalhado e muito claro do desenvolvimento de sua personalidade, jogando luz na forma como se comunicaram e interagiram com o público e com aqueles à sua volta e os dramas internos que enfrentaram ao longo de sua trajetória. Não menos importante: esclarece os porquês das importantes decisões que tomaram e que impactam seu país e o mundo até hoje.

*Dorrit Harazim é jornalista com passagens pelos principais veículos de comunicação do país. Detentora de quatro prêmios Esso, foi a primeira brasileira a receber o Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo – na categoria Excelência

**Fabio Caldas é comunicador e sócio-fundador da LightSaber Management Consultancy