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Políticas públicas e empresariais de cultura precisam de dados sobre o mercado

“Aproximar a cultura dos números, a arte da matemática, é mexer em vespeiro. O uso de pesquisas e indicadores para tratar de temas relacionados ao universo cultural ainda é visto com desconfiança por boa parte dos agentes que militam na área, sejam eles públicos ou privados, artistas ou gestores, sejam pesquisadores ou produtores. E a cautela se justifica. Se o uso de referenciais matemáticos encontra limites até na economia, onde os números parecem estar num ambiente mais natural e eficiente, o cenário tende a se complicar ao quadrado no caso da cultura, espaço de fronteiras indefinidas e múltiplas interconexões”.

Assim começa o prefácio da publicação dos resultados integrais da pesquisa “Hábitos Culturais dos Paulistas”, feita em 2014 pela JLeiva Cultura & Esporte com pesquisadores do Instituto DataFolha, assinado por João Leiva. Ela foi apresentada para os integrantes do Comitê Aberje de Gestão Cultural pelo próprio João e por Paulo Alves, Gerente de Pesquisa de Mercado do DataFolha, no dia 25 de junho de 2015 no Espaço Aberje Sumaré em São Paulo/SP.

 

 

Foram mapeados os hábitos culturais das 21 principais cidades paulistas através da participação de quase 8 mil pessoas com mais de 12 anos nesses municípios – onde vive metade da população do estado. Segundo Leiva, as dificuldades tornam o desafio mais estimulante. Por mais que se esteja diante de um universo repleto de bens imateriais, sentimentos, sensações, fragmentos, reflexões, memórias e provocações, as diversas instâncias das esferas públicas municipal, estadual e federal mundo afora têm de definir qual será o orçamento da área da cultura para o próximo ano e como ele será distribuído. As mais de 80 perguntas propostas investigam a prática e o interesse dos moradores de São Paulo por atividades culturais que vão do cinema aos saraus, de registros mais artísticos a hábitos mais próximos de lazer e entretenimento. A escolha visa a investigar como essas esferas se articulam no dia a dia e a criar um panorama capaz de incluir mais práticas do que excluir.

As indagações acompanham o processo de fruição cultural da escolha da programação à compra do ingresso, passa pelos conteúdos preferidos e pelos espaços mais frequentados e aborda as barreiras que afastam a população de cinemas, teatros e museus. A compreensão de que a cultura se articula com a vida na cidade também está presente nas perguntas sobre mobilidade e tecnologia. A pesquisa explora o tempo para chegar ao trabalho, os deslocamentos entre municípios e dentro da capital, assim como o impacto dos novos meios de comunicação no universo cultural. Além dos recortes tradicionais de gênero, idade, renda e educação, o estudo incluiu perguntas sobre religião e cor da pele, o que abre espaço para uma série de investigações sociológicas.

Leiva também pondera que, “para que uma empresa tenha um bom retorno de comunicação, não basta olhar só para seu interesse. Ela precisa ter o reconhecimento da sociedade. O ideal é procurar algo que esteja dentro da necessidade da empresa e também tenha algum interessa para a cultura”. E foi com esta perspectiva que algumas empresas confirmaram patrocínio, como a CCR, a Sabesp e a Oi, sob financiamento das Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura e do Governo do Estado de São Paulo. Ele ainda analisa: “quando o patrocínio é feito pela comunicação e pela responsabilidade social, ele é mais efetivo. O marketing tende a ter a mão mais ‘pesada’ sobre a produção”.

 

 

Destaques – Descobriu que 25% dos entrevistados realizam atividades culturais em seu tempo livre. Isso indica que um quarto dos habitantes das cidades pesquisadas são consumidores de cultura – nada menos que 4,5 milhões de pessoas, ou o equivalente a toda a população da Nova Zelândia. A pesquisa revela que as atividades culturais preferidas dos paulistas são realizadas em casa: mais de 90% dos entrevistados disseram ter ouvido música ou assistido a filmes no último ano, enquanto 70% disseram ter lido livros no mesmo período. Entre as atividades realizadas fora de casa, as mais citadas foram: ir ao cinema (60%), ir a festas populares (47%), sair para dançar (43%), ir ao teatro (28%) e ir a museus (26%).

Uma informação que a pesquisa aponta é que o idoso é o grande excluído cultural. Dos entrevistados que se encontram nessa faixa etária, nos últimos 12 meses, 44% não foram a bibliotecas, 52% não foram aos cinemas, 46% não foram aos museus, 40% não foram ao teatro e 42% não frequentaram shows musicais. “Os índices pioram conforme aumenta a idade para quase todas as atividades culturais. É importante que se comece a dar atenção a esse grupo nas políticas públicas e privadas para a cultura”, completa Leiva.

A pesquisa indica claramente que, independentemente da classe social, quanto maior o nível de escolaridade, maior o interesse por atividades culturais. Isso mostra que a integração de políticas públicas culturais e de educação é fundamental para o formação de público”, acredita Leiva, citando ainda o fato de que os CEUs foram citados como locais em que os paulistanos mais frequentam atividades culturais.

 

Linguagens culturais – A pesquisa confirma o bom momento do cinema nacional. Entre os entrevistados, 83% afirmam que assistem filmes nacionais. E ao contrário do que se pode pensar, não é só com blockbusters que a população se ocupa. Quando indagada sobre qual filme brasileiro mais gostou recentemente, mais de 200 produções foram lembradas. De filmes mais populares a produções independentes, com Tropa de Elite puxando a fila. Quando o filme é estrangeiro, 73% dos entrevistados disseram preferir assistir às versões dubladas.

 

Música – São Paulo é um estado predominantemente de gosto musical sertanejo. Com exceção dos entrevistados de 12 a 15 anos, que preferem o funk (43%), nas demais faixas etárias o sertanejo reina absoluto. No total da amostra, 44% dos entrevistados elegem o ritmo como o preferido. O ranking de estilos musicais segue a seguinte ordem: 44% sertanejo, 26% MPB, 21% rock, 18% gospel, 17% samba, 16% pagode, 14% pop, 12% forró, 11% funk, 8% dance 8% clássica e 7% rap. Entre os artistas, Roberto Carlos (7%) é o mais citado quando a pergunta é sobre que cantor(a) ou banda o entrevistado mais tem ouvido recentemente.

 

Espaços culturais – A pesquisa testou o grau de conhecimento e frequência de mais de 200 espaços culturais nas cidades paulistas. Na capital, chamou a atenção o fato de os parques e praças (20%) serem os espaços mais lembrados, seguidos por museus (11%), centros culturais (9%) e shoppings (8%). Individualmente, o Parque Ibirapuera lidera a lista (10%). “Os resultados reforçam a visão mais contemporânea de que a cultura tem vocação para ocupar diferentes espaços nas cidades. Da rua aos shoppings”, afirma Leiva. E completou: “´é perversa a relação entre renda, escolaridade e presença de equipamentos culturais. Olhando para São Paulo, por exemplo, os locais onde se vê índices de escolaridade e renda altos são onde existem mais equipamentos e os índices de consumo cultural são altos. No centro, temos índices parecidos com a região metropolitana de Paris, mas no extremo leste [onde renda e escolaridade são mais baixas], os índices são parecidos a de cidades francesas com 10 mil habitantes”.

 

“Acreditamos que o desenvolvimento do cenário cultural e esportivo no Brasil só se dará a partir do fortalecimento das relações entre produtores, gestores, empresas privadas, poder público e sociedade civil. Manter todos em diálogo permanente e propiciar oportunidades de encontro entre os agentes envolvidos nessas áreas e as diferentes visões com as quais trabalham é fundamental”, finaliza ele.

 

 

 

A coordenação editorial da publicação da pesquisa foi de Ana Busch e Noelly Russo, tendo como editor Renato Essenfelder e editora-assistente Thais Rimkus. A revisão foi de Carmen Garcez e Mariana Zanini, com projeto gráfico e editoração de Marcelo Katsuki. A capa foi produção de Renata Buono e Luciana Sugino, do estúdio Buono Disegno. Completaram a equipe  Marcos Silva Santos na edição de fotografia e Marcio Uva na produção gráfica e tratamento de imagens. Para fazer download da versão em PDF, clique aqui. Os dados e suas análises também são apresentados em um hotsite.

NOVO COMITÊ – O evento havia sido aberto pelo Diretor de Planejamento Estratégico da Aberje, Hamilton dos Santos, que aproveitou a ocasião para anunciar a criação do Comitê Aberje de Branded Content e Native Advertising. A agenda vai ser divulgada em breve. Os comitês são espaços de compartilhamento de informações exclusivos para associados da entidade.