Produto forte, imagem corporativa esfarinhada
Charles
Magno Medeiros*
Em
1998, o laboratório Schering do Brasil desceu aos infernos após
a descoberta de que placebos, ou pílulas de farinhas usadas em testes
de equipamentos, tinham chegado ao mercado em embalagens do Microvlar, o anticoncepcional
mais vendido no País. Sem uma política e uma estrutura de comunicação
e cometendo todos os erros possíveis e imagináveis, a empresa
sofreu sanções oficiais, está sendo processada por mulheres
que engravidaram tomando as pílulas de farinha e seus dirigentes foram
condenados em primeira instância. A imagem corporativa se esfarinhou.
Com 14 milhões de unidades despejadas no mercado a cada ano, o Microvlar
era a terceira droga mais vendida no País, só superada pelo Cataflan
e pela Novalgina.
O mais impressionante é que o Microvlar não só continua
líder no mercado de anticoncepcionais, com 23 milhões de ciclos
e 18% de share, como bate sucessivos recordes de vendas nos últimos anos.
Apesar da severa crise de imagem que a Schering enfrentou, o Microvlar não
teve o mesmo destino de outros produtos, como o absorvente interno Rely, retirado
do mercado pela Procter & Gamble em 1980, após a suspeita de que
estaria ligado a uma doença pouco conhecida e letal chamada Toxic Shock
Syndrome.
Empresa tradicional e respeitada, a Schering tem 132 anos de existência
e presença em 130 países. No ano anterior ao incidente, era o
9º maior laboratório no País, com faturamento de US$ 300
milhões. Obviamente, tinha sido vítima de algum criminoso que
desviou os placebos para o mercado. Mas a Schering tornou-se ré ao cometer
uma série de erros primários durante a crise, que afetaram profundamente
sua imagem. Entre outros pecados mortais, escondeu o incidente por vários
dias até a denúncia ser levada ao ar pelo Jornal Nacional, não
deu pelotas às queixas iniciais das vítimas, divulgou um comunicado
com explicações oblíquas e pouco transparentes e seus advogados
emitiram justificativas pouco convincentes e mesmo arrogantes à imprensa
para negar a responsabilidade da empresa. Um desastre de comunicação.
A crise do Rely da Procter & Gamble foi mais severa e a empresa também
cometeu vários erros. Entre outros, não tinha um plano de contingência
(como também não tinha a Johnson & Johnson no caso clássico
do Tylenol), não antecipou a crise, demorou a tomar decisões,
não incluiu um profissional de comunicação nos primeiros
encontros para decidir sobre o caso e só criou um time de Crisis Management
no auge da crise. Mais: em determinado momento, interrompeu a produção
do produto sem avisar o consumidor, o que só reforçou as suspeitas.
A Schering cometeu quase todos esses erros e alguns mais. Seus advogados cumpriram
seu papel, mas se esqueceram de que o julgamento pela opinião pública
tem lógica diversa da dos tribunais. Para os advogados, não comentar
o caso (como a Schering fez no princípio) seria uma boa estratégia
dentro do princípio de que “tudo o que disser será usado
contra você nos tribunais”. Mas, para a opinião pública,
silêncio é confissão de culpa. Na lógica do Direito,
a companhia ou a pessoa é inocente até que sua culpa seja provada
pelos acusadores. A opinião pública, porém, pensa de outra
forma e considera culpado quem não provar sua inocência. Outro
erro grave: em entrevistas, um advogado jogou a culpa nos farmacêuticos
que teriam comprado as pílulas de farinha de fornecedores não
confiáveis, tentando eximir a empresa de suas responsabilidades.
Quem entendeu muito bem essa lógica foi Don Horwitz, vice-presidente
do McDonald´s, quando 21 pessoas foram assassinadas em uma loja da rede
em 1984, em San Diego (Estados Unidos). Sem dar ouvidos aos advogados, instruiu
seus liderados: “Não quero que vocês se preocupem com as
implicações legais do que possam dizer. Nós vamos fazer
o que é certo em favor dos sobreviventes e das famílias das vítimas
e nos preocupar com as questões legais depois”. Muitas empresas
naufragam em crise de imagem por se preocuparem em excesso com as conseqüências
legais que com as implicações políticas, sociais e emocionais.
Por que o Microvlar não perdeu a confiança de suas consumidoras,
depois de todo esse desastre na comunicação, e contrariando as
mais simplórias recomendações dos manuais de gerenciamento
de crise?
Se fosse uma droga vendida em farmácias sem a necessidade de receita
médica, certamente a marca não estaria sendo comercializada hoje
e não bateria os sucessivos recordes de vendas. O que salvou o Microvlar
foi a confiança dos médicos no produto, que continuaram a prescrevê-lo
e a repassar essa confiança para suas pacientes. Apesar da crise, o medicamento
continua "seguro e confiável", conforme entendeu o então
secretário de Vigilância Sanitária do Ministério
da Saúde, Gonzalo Vecina Neto, que autorizou o laboratório a voltar
a vender o anticoncepcional que havia sido retirado do mercado.
O medicamento em si não perdeu a confiança, mas a reputação
do laboratório foi bastante afetada. No mínimo, a empresa passou
uma imagem de omissão, de desrespeito ao consumidor e irresponsabilidade.
Além disso, entrou em rota de colisão com o ministro da Saúde
que, a despeito das decisões que tinha de tomar por dever de ofício,
tinha poderosa motivação política para não dar refresco
ao laboratório – era candidato à Presidência da República.
É bem diferente do que ocorreu com a Johnson & Johnson, cuja imagem
corporativa saiu fortalecida de uma crise bem mais severa, quando cápsulas
do Tylenol, um de seus carros-chefe, foram adulteradas e envenenadas com cianureto,
matando sete pessoas na região de Chicago. Como a Schering, a Johnson
& Johnson não tinha um programa de prevenção e gerenciamento
de crise. Mas, ao contrário da Schering, se saiu muito bem graças
à forte cultura corporativa e aos valores que nortearam as ações
da empresa durante a crise, à qualidade de seus dirigentes (tendo à
frente a liderança firme do CEO James E. Burke), à rapidez nas
decisões e à transparência na comunicação
com a imprensa e a opinião pública.
O caso das pílulas de farinha evidencia que a Schering comunicou-se muito
mal com a opinião pública e poderia ter minimizado o impacto da
crise se procedesse de outra forma. No entanto, atesta que a empresa tinha um
excelente produto e um ótimo relacionamento com os médicos, público
altamente estratégico para qualquer laboratório farmacêutico.
Mais: sugere que as empresas não têm uma, mas várias imagens
e reputações, que variam de acordo com o público. O episódio
trouxe profundos danos à imagem do laboratório na percepção
da imprensa, dos formadores de opinião e, provavelmente, de amplos setores
da população. Mas o episódio não afetou a percepção
dos médicos e das milhares de consumidoras do produto.
Charles
Magno Medeiros é jornalista, relações públicas
e superintendente da Lide Soluções Integradas em Comunicação.