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 RELAÇÕES PÚBLICAS E OS STAKEHOLDERS

RELAÇÕES PÚBLICAS E OS STAKEHOLDERS


Em todas as exposições a que assisti sobre projetos empresariais na área de responsabilidade social, durante a última Conferência Nacional do Instituto Ethos, realizada neste mês, em São Paulo, enfatizou-se – e nem poderia ser diferente - a importância dos hoje chamados stakeholders – as partes interessadas ou os públicos de interesse ou, ainda, os públicos-alvo. Esta última denominação, nós, profissionais de Relações Públicas, aprendemos na universidade e passamos a adotá-la em todos os projetos de comunicação daí em diante, para designar os públicos fundamentais com os quais uma instituição – pública ou privada – deve interagir e se relacionar para a construção e manutenção de sua imagem de marca ou de seus produtos e serviços.
Mais que despertar a reflexão – talvez vazia – sobre uma questão de mera terminologia, o assunto estimula, por outro lado, a reflexão sobre o papel e a história da atividade de Relações Públicas nestes últimos 20 e poucos anos nos quais vivenciei intensamente a profissão no Brasil e – perdoem–me os entusiastas dela como eu – o quanto esta atividade desperdiçou oportunidades para se consolidar e ganhar lugar de destaque no rol das habilidades relacionadas ao campo da comunicação social.
Talvez alguns leitores, de imediato, digam que essa constatação veio tarde ou talvez ainda que seja tarde para acordar e buscar essa afirmação da atividade. Confiantemente, penso que ainda – e sempre - há tempo para corrigir os desvios e os erros do passado. Obviamente, a tarefa é árdua e requer esforço adicional de cada um de nós. Mais ainda caso fossem antes percebidos.
Para começar, é preciso voltar à universidade e repensar o currículo dos quase 80 cursos superiores de Relações Públicas existentes no Brasil. Será que atendem às necessidades das empresas que, eventualmente, venham a empregar esses alunos? Será que às disciplinas de formação intelectual – em diversidade e conteúdo -, fundamentais para o exercício da atividade, a elas foi dado o devido valor e alertou-se de maneira incisiva os alunos para a sua importância? Será que as disciplinas de ordem mais práticas foram ministradas por professores com experiência de mercado ou continuam sendo, na maioria dos casos, de responsabilidade de professores – como tive oportunidade há anos de constatar – que jamais pisaram fora do ambiente universitário? Será que o fosso entre universidade e o mercado de trabalho não continua ainda extremamente grande, não obstante alguns esforços formais e informais ainda insuficientes de aproximação, tornando quase que proibitivo o acesso imediato dos alunos a este mercado? Ah, mas cabe às empresas prover estágios e recuperar esse distanciamento, diriam alguns. Ah, mas cabe também dimensionar a capacidade de absorção deste mercado em contra-partida à excessiva oferta de estagiários e novos profissionais que as faculdades vêm “formando” nos últimos anos. Em números bastante acanhados, diria que cerca de 2.000 novos profissionais saem das faculdades, por ano. E, nesse particular, algo precisa ser urgentemente revisto - se é que algum dia foi visto – e com muita seriedade. O futuro e os sonhos das pessoas não permitem atitudes irresponsáveis, tampouco adiamentos de decisão. Tais indagações levam à triste conclusão de que, inúmeras vezes, essas são apenas algumas das fortes razões pelas quais a atividade de relações públicas perdeu – e continua perdendo – a chance de afirmação e reconhecimento.
Como também no passado - ainda no presente –, abriu espaço para engenheiros, administradores de empresas, advogados e outros tantos profissionais de áreas não correlatas à comunicação, sem qualquer demérito às suas formações e capacidades individuais. E nesse cenário de perdas sucessivas, as mais significativas certamente contabilizam-se às vagas ocupadas por profissionais de áreas correlatas, aos nossos colegas de profissões como jornalismo, publicidade, marketing e outras similares os quais, por mérito na grande maioria dos casos, têm ocupado espaços que, eventualmente ou talvez pretensamente, alojassem profissionais de relações públicas.
Afora as vagas, some-se a perda de oportunidades em alguns momentos específicos, como o que enfatizou a comunicação integrada nos meados dos anos 80. Aí, por exemplo, quando da formação de um pool de agências e respectivos profissionais para a apresentação de um projeto integrado de comunicação a um cliente, lá ia a atividade de relações públicas invariavelmente a reboque da parte e da atividade mais relevante. Ou porque não detinha a criatividade, o glamour e a eficiência da propaganda. Ou porque não ousava desafiar um jornalista na redação de um texto mais elaborado. Ou ainda porque nunca lhes tenha sido dado o conhecimento nem a expectativa de poder trabalhar com foco no consumidor final, o stakeholder principal daquela ação. Restava ao profissional de relações públicas cuidar mais da logística do evento, aí sim uma variação da atividade que ainda é o “sonho de consumo” da maior parte dos alunos de relações públicas.
E pergunta-se: o que o título deste artigo propõe com o desenrolar desse texto? Numa agora rápida e oportuna reflexão, que stakeholder casa hoje perfeitamente com responsabilidade social, mais ainda com desenvolvimento sustentável, que acrescenta a dimensão econômica às dimensões social e ambiental. E fazendo remissão ao início desse artigo, stakeholders confundem-se com os públicos-alvo das relações públicas. Públicos-alvo esses que os profissionais de relações públicas - talvez no passado pelas fragilidades de argumentação e pelas carências do conhecimento mais amplo pelas razões antes expostas – não tenham conseguido convencer executivos de empresas da sua vital importância e envolvimento para o sucesso de uma marca e, conseqüentemente, pela contribuição ao sucesso dos negócios.
Fica o recado que, neste momento de valorização do conceito e das ações de desenvolvimento sustentável no nível empresarial, descortina-se mais uma oportunidade ilimitada e perfeitamente adequada à utilização das boas práticas e das habilidades inerentes à atividade e à experiência dos profissionais de relações públicas, aqui vistas em sua plenitude, englobando pesquisa, planejamento estratégico de comunicação, a habilidade na costura das diversas formas de comunicação requeridas – propaganda corporativa, relacionamento com a mídia, publicações entre outras.
A atividade de relações púbicas não pode deixar escapar mais essa oportunidade real e histórica – talvez a última – de buscar a sua definitiva consolidação sob pena de acumular, no Brasil, mais uma às duas décadas praticamente perdidas.

Pedro Aguiar é profissional de Relações Públicas e diretor executivo da Ink Comunicação.

 
 
Autor: Pedro Aguiar      |      E-mail: não divulgado

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