Nara Almeida

 

“Mudar o mundo é um trabalho que nunca acaba”, diz o britânico John-Paul Flintoff em seu livro Como mudar o mundo (Objetiva, 164 páginas). Em momentos de crise, contudo, muitas vezes a pergunta mais comum é “Por onde começar?”. E experiência Flintoff tem de sobra. Já trabalhou como poeta, jardineiro, assistente funerário, motorista de táxi, alfaiate, vendedor de sorvete, cabeleireiro, garçom, ilustrador, fotógrafo… Como jornalista, colaborou para veículos como The Sunday Times, Financial Times, The Guardian, The Telegraph, Wallpaper* e Esquire. Também é autor de livros, palestrante, coach, pesquisador e adepto e defensor do estado de espírito da mudança. Em entrevista exclusiva à Comunicação Empresarial, Flintoff mostrou entusiasmo e esperança no impacto das pequenas mudanças necessárias para se virar a página.

A proposta – mudar o mundo – pode soar audaciosa. Na contramão do senso comum, Flintoff simplifica a missão ao deixar claro que mudar é bem diferente de salvar. Também defende a importância das pequenas ações ao pedir que nos preocupemos menos com a perfeição e, principalmente, ao dizer que precisamos perceber que somos livres e que podemos escolher que tipo de impacto teremos no mundo.

John Paul Flintoff

John Paul Flintoff

 

É possível mudar o mundo?

Parece loucura como isso soa, não? “Mudar o mundo”?! E isso tudo é engraçado porque é ridículo. Mas não acho que seja ridículo de fato. Porque, na verdade, acredito que, se mudarmos ao menos os nossos mundos, já é algo relevante. Tudo pode ter um efeito. As pessoas vão ver suas ações e copiá-las se gostarem de suas ideias, se gostarem do que você está fazendo. E isso pode mudar mundos muito maiores que apenas o seu. Então, o que me parece é que precisamos notar que todos estão tendo algum efeito sobre os seus mundos. É algo que não podemos evitar. A questão é o tipo de efeitos que queremos, e os que não estamos dispostos a causar. Há sempre uma escolha.  Para mim, mudar o mundo é mais importante que qualquer outra coisa. O que mais me empolga é que essa mudança mostra às pessoas que elas são livres e que têm escolha. Ela pode não ser sempre fácil, mas ainda assim, ela existe.

 

O que impede as pessoas de mudar o mundo?

O maior obstáculo é o nosso cérebro. Nós acreditamos em coisas malucas até percebermos que não precisamos acreditar nelas. Coisas sobre nós mesmos e sobre o mundo. Acreditamos que mudar o mundo é algo complexo para pessoas realmente importantes ou preparadas, alguém como Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou Nelson Mandela. Eu mesmo passei grande parte da minha carreira sendo escritor e me sentindo um escritor. Sabe, esse tipo de sentimento bastante forte, que faz a gente pensar “Nossa, sou um escritor, sei como escrever bem”? Toda essa fé e identificação? Mas, justamente porque eu pensava em mim como escritor, não me via como um artista ou um performático. Eu não achava que isso era permitido. Uma das grandes mudanças da minha vida foi quando percebi que eu também podia fazer aquelas coisas, que era permitido e eu poderia ser o que eu quisesse, independente da idade.

Comecei desenhando pratos e canecas. A experiência foi chocante porque eu, como escritor, percebi de repente que também podia fazer isso. Sim, podemos falar de formas mais sérias de mudar o mundo. Mas me pergunto o quanto essa mudança também faz diferença para as pessoas, que passam a ter pratos e canecas bacanas sobre suas mesas. Vimos isso quando, em certo momento da história, norte-americanos negros acreditaram que não podiam frequentar certos lugares. Como não perceberam essa ilusão de imediato, pararam de frequentá-los. Isoladamente, na época, não era algo importante. Mas a mudança teve um impacto enorme na mente de todos.

Não sei quais são as suas amarras mentais, mas aposto que são desconhecidas para você também. Isso porque não nos permitimos pensar nelas. Admitimos pensar apenas nas coisas que estão aparentes sobre um mapa de possibilidades, pois sabemos que podemos fazer aquilo, mesmo que haja algum risco. Nossos sonhos realmente loucos nós nem sabemos quais são, porque não os descobrimos ainda. É preciso usar nosso julgamento das coisas como modo de responder à pergunta: “Eu posso fazer isso?”. Esse é o nosso principal impedimento.

 

Como superar o derrotismo ou a sensação de impotência diante das dificuldades?

Há uma palavra para isso em francês, connoisseur (que significa “conhecedor”). É preciso se tornar um connoisseur do seu próprio cérebro, estando consciente de todos os pensamentos e coisas que ele diz a você. Se o cérebro diz: “Não adianta, não vai funcionar, isso nunca daria certo”, então responda: “Olá, cérebro, você está aqui para me dizer essas coisas, só que não quero ouvi-las agora. Obrigado!”. É uma escolha complicada porque, quando você se der conta, estará pensando em coisas dramáticas e empolgantes, num turbilhão de sentimentos, e o seu cérebro vai te dizer que não pode dar certo. Obviamente, não há vantagem em dizer isso. É possível dar atenção a esses pensamentos e, ainda assim, discordar deles. Tudo o que o cérebro faz é para nos manter seguros. Por isso falhamos: não queremos fazer algo que pareça arriscado. Há sempre aquela voz que diz: “Não faça isso! É muito arriscado, não vai dar certo. Todos vão rir de você. É uma ideia estúpida! Suas ideias nunca funcionam!”. Mas é preciso entender e se tornar um connoisseur para responder: “Eu sei o que você vai dizer, mas eu vou tentar de qualquer modo”.

 

Qual a importância dos pequenos passos, de pensar pequeno?

A coisa mais bela que podemos fazer por nós mesmos é tornar cada passo verdadeiramente amável. Aproveitar cada pequeno ato, sem a expectativa de que seja nada mais do que aquilo. Apenas reconheça. Porque tudo, em toda a história da humanidade, começou a partir de pequenos passos. E não há nada que possamos fazer a partir de um passo gigantesco.

 

Uma vez superado o derrotismo e os obstáculos mentais, como começar a mudança?

Eu acredito que o mais importante é sermos realmente honestos. Isso pode machucar. Muitas pessoas passam a vida dizendo que não conseguem encontrar nada de que não gostem e que tudo está bem. Mas elas estão negando o que são. No entanto, se reconhecermos que existe algo de que não gostamos ou que nos entristece, nos deixa bravos ou infelizes, conseguimos olhar para isso, mesmo que brevemente, e admitir que nos causa incômodo. É preciso olhar, direta e honestamente, para o que não gostamos, e é preciso fazer isso de forma específica, não em termos gerais. O geral não é bom, nos deixa insensíveis. É fácil dizer que não gosta de pobreza. É comum, até. Mas o que podemos fazer a respeito de coisas gerais? Nada. Mas se dissermos “Não gosto que aquele rapaz na minha rua não tenha sapatos”. Este é um início, porque podemos fazer algo pelo rapaz sem sapatos. Podemos fazer muito mais com pequenos passos. Podemos nos dar conta de que outras pessoas também não têm sapatos, ou conhecer os outros problemas do rapaz. Então percebemos o quanto estamos interessados em coletar esses pequenos experimentos, porque são divertidos e proveitosos, mesmo quando dão errado. Assim, pequenos passos se somam até formarem algo maior. É preciso ser claro quanto ao que se quer mudar. Se você não sabe o que quer, como será possível encontrar uma solução? Não tente encontrar uma solução antes de conhecer o problema.

 

E se a gente falhar no processo de mudar o mundo?

Isso é algo importante. Não pense que esses pequenos passos tenham que dar sempre certo. É preciso celebrar quando eles dão errado, porque isso nos ajuda a descobrir o que fazer, ou o que não fazer. Portanto, nunca tente ser perfeito. Pelo contrário, tente ser imperfeito. Tente ser mediano, em vez de brilhante. Faça pequenas coisas, como ajudar o rapaz que não tem sapatos, por exemplo. Somos pessoas que, eventualmente, erram e falham. Vamos acabar cometendo erros, e isso não é o fim do mundo. Precisamos admitir que somos humanos para sermos mais gentis conosco. Porque, se outra pessoa comete um erro, nós a abraçamos, a apoiamos e dizemos que tudo vai ficar bem, que ela não precisa se preocupar. Então, porque não fazemos o mesmo quando se trata dos nossos próprios erros?

 

Qual o papel da diversão na vida?

A diversão é crucial, completa e necessária. Porque, se a sua tarefa de mudança não for divertida e, em algum momento, você tiver que passar por um processo mais complicado, você pode vir a odiar aquilo e as pessoas ao redor. Por isso, para que uma mudança aconteça, é preciso que seus passos sejam divertidos. É preciso aproveitar e se divertir com o que você pode – e gosta de – fazer. Se a sua praia é mudar o mundo ensinando pessoas a costurar, ou mesmo ajudando pessoas a irem ao banheiro, faça isso! Siga na direção daquilo que você quer fazer, mesmo que os outros não sigam você. É como ir a uma festa. Você nunca deve fazer algo que não queira fazer. No entanto, isso pode soar como uma terrível desculpa para não fazer coisas que precisam ser feitas. Se há algo importante e que precisa ser feito, faça de um modo que você goste, procure uma forma de tornar isso divertido.

 

Como atrair outras pessoas para os nossos ideais de mudança?

Peça ajuda a elas diretamente. Deixe que elas descubram como tornar isso divertido. Muitas ideias e possibilidades podem surgir daí. Quando queremos fazer algo importante ou bom, nós nos esquecemos que podemos simplesmente pedir ajuda. Se as pessoas não quiserem ajudar, é só sorrir e dizer que está tudo bem. O pedido em si já fará as pessoas pensarem.

 

Que mudança você acredita ser mais importante neste momento?

A de fazer as pessoas perceberem que são livres, que elas têm escolha. Posso até não gostar das escolhas delas, mas elas são elas e eu sou eu. Desagrada-me quando vejo pessoas em situações em que não estão felizes, acreditando que estão presas e não têm escolhas, que são vítimas. Isso é terrível, para elas e para mim, que só fico por perto, observando. Nós precisamos uns dos outros para nos lembrar que temos alternativas. Muitas vezes, quando nos sentimos infelizes, achamos que só há apenas uma alternativa. Mas na verdade existem muitas pequenas opções no meio. Isso nos ajuda a enxergar além do “isso não funciona” e perceber variações como “pode não funcionar completamente”, “deve funcionar”, “funciona um pouco”, “funciona muito” etc. Há uma gama de opções. Nós podemos nos ajudar quando nos encontramos empacados em nossas mentes. É como quando alguém diz “Odeio meu emprego, mas se eu me demitir, vou morrer de fome”. Bobagem, há uma infinidade de opções.

 

Como a comunicação não violenta pode nos ajudar a perceber essas alternativas?

O mais importante é sermos especialistas em nós e apenas em nós. Não precisamos dizer aos outros coisas sobre eles mesmos. Se eu disser a você que estou adorando esta entrevista, por mais claro que eu seja, não tem como você saber se eu realmente estou gostando dela. Agora, se eu disser que você está adorando esta entrevista, uma parte sua vai dizer se você está ou não gostando dela, além de se questionar sobre como eu sei disso. Mas eu não sei o que você está experimentando. Eu precisaria perguntar a você. Porque o que eu posso, definitivamente, é conhecer a mim mesmo e só. Certas vezes, digo a algumas pessoas o que estou sentindo, coisas como “Hoje estou triste” ou “Isso não é engraçado?”. E elas reagem dizendo coisas como “Sim, eu também estou” ou “É, isso é engraçado”.

 

O autoconhecimento é libertador?

Muitas pessoas passam boa parte de suas vidas pensando que só podem ser felizes se outras fizerem determinadas coisas, que elas não podem ser felizes a não ser que algo aconteça. A verdade é que nós sempre podemos ser felizes, desde que escolhamos ser. Imagine um casamento no qual um dos cônjuges bebe muito. É comum que a outra pessoa pense que só vai conseguir ser feliz se a outra parar de beber. Isso não é verdade. Há uma escolha. Muitos de nós temos as mesmas ideias, como “Eu só posso ser feliz se o governo fizer isso” ou “Só posso ser feliz se meu chefe me permitir fazer aquilo”. Nada disso é verdade. Nós podemos encorajar as pessoas a mudar, podemos dar ideias a elas, mas não devemos manipulá-las, não podemos transformar isso em amor condicional. Nunca devemos dizer algo como “Eu amo o país, mas só se o governo fizer isso”, ou “Eu te amo, mas só se você fizer o que eu digo”.

 

Como podemos, apesar das más notícias, encorajar as pessoas a fazerem a diferença?

As pessoas andam desapontadas e deprimidas. É preciso ressaltar algo que as encoraje, que lhes dê confiança. Alguma pequena mudança que elas tenham provocado antes e que fez a diferença. A partir disso, elas podem dizer para si mesmas que, se foram capazes de realizar aquilo, talvez sejam capazes de fazer algo mais. As pessoas estão incapazes de reconhecer que já estão fazendo a diferença. Elas já não acreditam mais que isso seja possível. Por isso, precisamos ajudá-las a perceber o que há de bom. É importante para a mídia noticiar escândalos e notícias difíceis, mas é também fundamental que todos nós, na mídia e fora dela, façamos o melhor que pudermos para promover a coragem e a sensação de crescente confiança. Esses pequenos grãos nos corações das pessoas são importantes e devemos distribuí-los a todas. E é possível fazer isso de forma muito pequena, como dizer às pessoas com as quais trabalhamos o que admiramos nelas – algo verdadeiro, nunca uma mentira. Sempre o que, de fato, nos encanta.

 

Qual o papel dos profissionais e das empresas ao inspirar mudanças?

Olhe para aquilo que as pessoas em uma empresa acreditam e pergunte a elas se gostariam de torná-lo melhor e como poderiam trazer um efeito mais positivo na vida delas. Descubra se elas gostariam que os brasileiros amassem a companhia pelo que ela faz pelo país. Questione o que elas podem fazer para tornar a empresa um pouco melhor. Dê às pessoas uma escolha, mas não diga a elas o que fazer, pois todas têm excelentes ideias.

Enxergo uma incrível generosidade e um grande entusiasmo nos brasileiros que conheci. Acredito que há um poder incrível em tanto comprometimento, coragem e amor em todos vocês, e isso vai transformar um belo país em algo ainda mais incrível. Não sei nada sobre o Brasil. Vocês é que sabem exatamente o que fazer. Estarei aqui, sentado, assistindo com muito prazer a todas as coisas brilhantes que vocês farão pelo seu país.