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Curso Aberje e ABCPública debate censura e patrimonialismo na gênese da comunicação pública no Brasil

Redação Portal Aberje

Por Eduardo Maretti

Eugênio Bucci

No primeiro módulo do Programa Avançado de Comunicação Pública, “Novos olhares, novas práticas”, promovido no dia 3 de agosto por Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) e ABCPública (Associação Brasileira de Comunicação Pública), o jornalista Eugênio Bucci falou sobre conceitos e história da comunicação pública no Brasil, demonstrando o quanto ela é permeada por uma tradição distante do espírito republicano, democrático e iluminista.

República (res publica), do latim, significa “coisa pública”, enquanto democracia, do grego, quer dizer “poder do povo”. No entanto, para Bucci, se há uma área em que o bem público é usado para fins particulares, privados, familiares ou partidários, essa área é a da comunicação pública. “Se alguém defendesse que nas escolas públicas de determinada cidade só poderiam se matricular crianças cujos pais se filiaram a um partido, ou se os hospitais só aceitassem pacientes na mesma condição, seria um escândalo. No entanto, no Brasil, os recursos da comunicação pública são usados com critérios partidários e a gente acha que tudo bem”, afirmou.

A gênese da formação brasileira, do ponto de vista da comunicação pública, é ilustrativa. Os portugueses sempre foram rigorosos com a publicação de impressos. Desde 1536 (em Portugal) qualquer impressão de livro passava por três censuras: o Santo Ofício, Ordinário e o Desembargo do Paço. Quando vem para o Brasil para fugir da ameaça de invasão de Portugal por Napoleão, “a Família Real chega trazendo a biblioteca, as máquinas de tipografia da imprensa régia, e traz também a censura”, disse Bucci.

O primeiro órgão de imprensa a circular no país, Correio Braziliense, era publicado em Londres por Hipólito José da Costa. Era mensal, e ainda em 1808 foi posto na lista de obras proibidas, apesar de entrar no Brasil clandestinamente. “O indivíduo que abrange o bem geral de uma sociedade vem a ser o membro mais distinto dela: as luzes que ele espalha tiram das trevas, ou da ilusão, aqueles que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano”, dizia o jornal em junho de 1808, numa exposição explícita dos princípios iluministas.

“Mas a mentalidade censória instalada no Estado português veio para o Brasil. Ainda para entender a gênese da nossa comunicação pública, assim como a censura aparece antes da imprensa no Brasil, aqui o Estado nasce antes da sociedade civil”, sustentou Bucci.

Para o jornalista, nos Estados Unidos o processo foi exatamente o oposto do observado no Brasil. Enquanto, aqui, o Estado português chegou trazendo a censura, que deu forma à comunicação pública, nos EUA os chamados federalist papers (série de artigos que consolidaram a Constituição e a nação americana) foram publicados exatamente nos jornais daquele país. “No nosso caso, o processo infunde no DNA da comunicação pública algo que está presente até hoje”, pontuou Eugênio Bucci.

O próximo módulo do Programa Avançado de Comunicação Pública – módulo 2: Estratégia e Planejamento em Comunicação – acontece no próximo sábado, 21 de setembro, com os Instrutores: Cláudia Lemos e Bob Vieira da Costa.

Confira a programação completa: Programa Avançado de Comunicação Pública

*Parte 3 de 4. Confira a cobertura completa:
Parte 1: Desafios da comunicação pública e o cotidiano dos profissionais foram temas de curso Aberje e ABCPública
Parte 2:Para Janine Ribeiro, uma propaganda governamental pode ser um exemplo de como “empoderar” ou não os cidadãos
Parte 3: Curso Aberje e ABCPública debate censura e patrimonialismo na gênese da comunicação pública no Brasil
Parte 4:Para Andrew Greenlees, é preciso diferenciar dados da realidade do que é efeito de robôs ou fake news