×

Colunas

Tem um robô na redação (e isso não tem volta)

O Washington Post testou Inteligência Artificial nas Olimpíadas do Rio de Janeiro e a Associated Press usa robôs para produzir relatórios financeiros

Abra qualquer jornal ou revista publicados recentemente e serão grandes as chances de encontrar alguma matéria contando os avanços da Inteligência Artificial e da robótica em determinado campo. É claro, além do fascínio pela novidade, boa parte desses conteúdos trazem uma dose de preocupação em relação ao futuro das profissões.

O profissional responsável por apurar e entregar essas informações a você também não está imune, por mais artesanal que o trabalho do jornalista possa parecer. Já existem redações utilizando Inteligência Artificial para escrever notícias e acelerar a produção de conteúdo, especialmente em grandes coberturas.

Como jornalista e diretor de uma agência de comunicação com foco em tecnologia, tenho observado esse movimento para entender a nova fase da atividade de produção de notícias. E já adianto: é um caminho que não tem volta. Se a Inteligência Artificial e os robôs estão nas redações, vamos aprender a lidar com eles para produzir histórias interessantes que proporcionem valor às marcas e ao jornalismo.

Robôs no jornalismo: isso já é realidade

Não pense que isso é papo de ficção científica ou simples experimento ainda sem comprovação. Grandes produtores de notícias ao redor do mundo já possuem um robô para chamar de seu e já colhem os primeiros resultados a partir disso.

O caso mais famoso é do Heliograf, o sistema de Inteligência Artificial do The Washington Post, comprado em 2013 por um dos bilionários da tecnologia, Jeff Bezos, o fundador da Amazon. Este robô-jornalista teve sua estreia por aqui na cobertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Desde então, o Heliograf tem sido escalado para escrever sobre partidas locais de esportes nos Estados Unidos e outros temas.

Seu grande destaque, porém, veio com a sua participação na última eleição presidencial norte-americana. Nesta cobertura, o Heliograf produziu 850 artigos sobre política, gerando mais de 500 mil cliques para o The Washington Post. Esse volume de informação ficou acima de 85% do total produzido pelos jornais dos Estados Unidos nas eleições anteriores.

O Heliograf não é o único robô ganhando espaço entre as redações. A Associated Press também começou a utilizar Inteligência Artificial em seu dia a dia. Em parceria com a Automated Insights, a agência analisa dados financeiros e produz relatórios trimestrais, cujas informações são organizadas em artigos. Com o uso da tecnologia, a Associated Press pode escalar sua produção exponencialmente, realizando 3 mil relatórios por trimestre (anteriormente eram 300).

Para os veículos, portanto, contar com a Inteligência Artificial na redação significa aceleração da produção de conteúdo e, consequentemente, o crescimento da audiência em larga escala – justamente em tempos nos quais os cliques importam tanto.

Para que serve um jornalista

Então os jornalistas serão todos substituídos por robôs e teremos redações ainda mais enxutas do que as de hoje? Não acredito que seja por aí. Se tem algo que não mudou na prática do jornalismo nos últimos anos é, justamente, o que nos diferencia de um robô: a nossa humanidade e criatividade.

Os robôs e a IA são bons em tratar grande volume de dados e dar aos leitores informação pura, ainda que já produzam algum tipo de análise. Por que precisamos de alguém escrevendo que o resultado de Brasil e Alemanha foi 7 x 1? Ou que a ação da Petrobrás subiu um ponto percentual?

Se pensarmos em um dos pilares de maior valor para a prática jornalística, que é contar histórias humanas, ainda será o profissional de carne e osso o responsável por identificá-las e transformá-las em algo único e envolvente para o leitor. O que houve com cada um dos jogadores do Brasil naquele fatídico jogo?

Até mesmo a análise de números, feita em larga escala pelos robôs – e onde não conseguiremos vencê-los –, vai continuar precisando de uma interpretação humana para filtrar o que deve ser levantado e, mais importante, o que pode ser analisado nas entrelinhas dessas informações.

Portanto, se você é jornalista como eu (ou simplesmente se preocupa com o futuro dessa profissão), fique tranquilo. Esse papel vai continuar existindo e pode se tornar ainda mais importante. Para isso, entretanto, os jornalistas vão precisar reaprender a contar histórias humanas ainda melhores e, é claro, “conversar” com os robôs para colher informações e fazer investigações que antes pareciam impossíveis.

Com a Inteligência Artificial, o jornalismo pode voltar a explorar as grandes histórias com maior frequência. Aquelas que exigiam meses de levantamento e análise de dados e que, com o tempo, se tornaram impraticáveis para muitos profissionais. Nos próximos anos, espero ver o resultado em mais reportagens como “A Guerra do PCC”, escrita por Allan de Abreu para a revista Piauí, tratando da internacionalização da facção criminosa, ou o relato “Holocausto brasileiro”, realizado por Daniela Arbex sobre os anos de terror no Hospital Psiquiátrico Colônia, em Barbacena.

O humano por trás da notícia

Contar essas grandes histórias: não é isso que o jornalista entrega de melhor para a sociedade? Tenho certeza que sim. Além de ser muito mais interessante como carreira do que redigir sempre as mesmas notas sobre resultado da corrida de Fórmula 1 ou de queda na B3.

Por enquanto, a atuação da Inteligência Artificial ainda é restrita a algumas áreas que envolvem dados estruturados, como análise de índices ou cobertura esportiva. Os textos produzidos por robôs são – e devem continuar sendo –aqueles que não exigem criatividade ou análise de campo.

Ou seja, a Inteligência Artificial até vai poder produzir um bom artigo sobre aquela partida da Série A ou B do Brasileirão, que poderia sequer existir por causa da indisponibilidade dos repórteres. Mas, dificilmente, será capaz de contar sobre o clima pré-jogo e sobre a tensão entre determinados jogadores.

Por isso, em vez de ter medo ou brigar com esse futuro que já é presente, minha recomendação para os colegas é que aprendam a aproveitar o melhor da Inteligência Artificial e sejam o humano por trás da notícia, aquele que ajusta o algoritmo, edita a informação e conta as histórias reais. Que sejam menos robôs e mais humanos.

Pedro Cadina
Pedro Cadina
Empresário, jornalista e especialista em comunicação organizacional. Fundador e CEO da VIANEWS Hotwire, atua há 38 anos como empresário no setor de comunicação e marketing. Durante esse período já fundou e dirigiu agências de propaganda, birôs de design, produtora de conteúdo, jornal e agência de notícias. Fez parte do grupo de liderança global (GLT) da Oriella PR Network e atuou como professor e palestrante de empreendedorismo em comunicação. É formado em jornalismo (PUC/SP), especialista em comunicação organizacional pela ECA/USP e cursou administração e empreendedorismo na FGV/SP. É fundador e foi diretor por oito anos da ABRACOM – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e autor do caderno “Como escolher uma agência de comunicação”.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

string(23) "Redação Portal Aberje"